quarta-feira, 4 de junho de 2014

BOBBY

NOTA 7,0

Ficção e realidade se misturam para
narrar os eventos de um dia comum
de um grupo de pessoas, mas elas não
imaginavam que tal data seria histórica   
As narrativas do tipo mosaico, aquelas que trabalham com um grande número de personagens distribuídos em diversas tramas paralelas que acabam convergindo no final ou se interligam por meio de uma temática semelhante, tornaram-se muito populares nos últimos anos, embora já fosse uma tendência defendida há tempos pelo cultuado Robert Altman, diretor com quem os atores sonhavam trabalhar, mesmo que fosse só para literalmente fazer uma ponta em suas obras. O problema é que esse tipo de produção pode ser uma armadilha para quem faz e a rejeição do público é quase certa, salvo em casos que o longa é indicado a prêmios e ainda assim as pessoas só conferem para não ficarem por fora do assunto. Estamos acostumados a tramas com poucos personagens que nos permitem avaliar simplesmente se o filme é bom ruim. Quando há muitas situações e perfis a serem desenvolvidos provavelmente nos identificamos com alguns núcleos, mas fatalmente a avaliação do conjunto é no máximo regular, pois sempre tem algum ator ou passagem que foi mal explorado. Talvez justamente por também ser ator é que Emílio Estevez quase chegou a perfeição com o drama Bobby, o qual roteirizou e também dirigiu. Tecnicamente uma produção perfeita e sem dúvidas calcada na força de um elenco de peso que faz o que pode para tornar atrativo o relato de um dia na vida de pessoas desconhecidas, mas tal data não é qualquer uma. A trama se passa em 04 de junho de 1968, dia em que o então candidato à presidência dos EUA Robert F. Kennedy estava sendo aguardado no Ambassador Hotel, em Los Angeles, para fazer um discurso em um evento comemorativo à sua campanha, porém, ele acabou sendo baleado. Cerca de quatro anos antes seu irmão mais velho John F. Kennedy já havia sido assassinado, mas um novo membro do clã tentando chegar ao comando do país entusiasmava muitas pessoas, principalmente os estrangeiros que lá viviam. Há poucos meses Martin Luther King, o defensor das minorias, havia sofrido um atentado e muitos se sentiam desamparados até este novo candidato surgir e devolver a esperança pregando a ideia de um governo justo e em busca da paz e igualdade. Estevez não dedica atenção propriamente ao atentado, mas sim as situações vividas horas antes por 22 personagens fictícios que estavam de alguma forma envolvidos com o hotel ou ao evento. Hóspedes, funcionários, convidados e voluntários da campanha mais especificamente. Todavia, o diretor passou anos pesquisando detalhes para reconstruir com perfeição o clima de entusiasmo da época abalado pela tragédia também dramatizada minuciosamente nos minutos finais.

John Casey (Anthony Hopkins) é o porteiro aposentado do hotel que não consegue ficar longe de seu antigo local de trabalho e passa horas jogando xadrez e conversando com o amigo Nelson (Harry Belafonte), outro funcionário inativo. Paul Ebbers (William H. Macy) é o atual gerente e sua esposa Miriam (Sharon Stone) tem um salão de beleza no prédio para atender os hóspedes, mas mesmo assim este homem mantém um caso às escondidas com Angela (Heather Graham), a telefonista do hotel que acredita que o relacionamento pode lhe render uma promoção no trabalho. Na área da copa temos o cozinheiro afro-americano Edward Robinson (Laurence Fishburne), seus ajudantes latinos José (Freddy Rodriguez) e Miguel (Jacob Vargas) e a garçonete Susan (Mary Elizabeth Winstead) que sonha em ser uma grande estrela de cinema. Daryl Timmons (Christian Slater) é o gerente da cozinha que não gosta de ter estrangeiros entre seus subalternos e não perde oportunidades para injuriá-los. Entre os hóspedes temos a cantora Virginia Fallon (Demi Moore), que apresentará o senador na festa das eleições preliminares na Califórnia. Alcoólatra, ela está acompanha do marido e empresário Tim (o próprio Estevez acumulando uma terceira função no longa), um homem frustrado por viver às custas do trabalho da esposa. Diane (Lindsay Lohan) é uma jovem que está prestes a se casar com o amigo William (Elijah Wood), uma união arranjada apenas para evitar que o rapaz seja enviado para a Guerra no Vietnã. Jack (Martin Sheen) é um milionário que colaborou financeiramente com a candidatura de Kennedy e que está em uma espécie de segunda lua-de-mel forçada com a fútil esposa Samantha (Helen Hunt), mais preocupada em fazer combinações de roupas e acessórios. No hotel ainda temos circulando os integrantes da campanha presidencial, como os jovens assistentes Wade (Joshua Jackson) e Dwayne (Nick Cannon) e também Lenka (Svetlana Metkina), uma jornalista da Tchecoslováquia louca por uma declaração de Kennedy ao povo de seu país que o tem como um ídolo por seus conceitos pacíficos. Os novatos voluntários Jimmy (Brian Geraghty) e Cooper (Shia LaBeouf) são os representantes da rebeldia da época na trama. Ao mesmo tempo em que trabalham na organização do evento também estão querendo conseguir droga fácil com Fisher (Ashton Kutcher), o hóspede ovelha negra do hotel. Claro que entre essas histórias surgem alguns outros personagens com menor importância, apenas para dar mais naturalidade à narrativa, sendo que apenas os atores Jeridan Frye e Dave Fraunces encarnam figuras reais, respectivamente Ethel e Robert, o casal Kennedy. Detalhe, ele aparece sempre de costas ou a distância e sem falas propositalmente. Embora fictícios, todos os personagens poderiam perfeitamente estar nas dependências do hotel na ocasião da morte de Robert Kennedy. Quantos anônimos sofreram a angústia daquele momento? No entanto, somente o ajudante de cozinha José remete a uma figura que entrou para a História por acaso. Ele representa Juan Romero, o jovem que foi fotografado segurando o corpo do senador imediatamente após os disparos que ainda feriram outras pessoas, todas que felizmente sobreviveram.

Apesar do elenco numeroso, todos tem chance de desenvolver seus personagens e dramas de forma correta, ressaltando que não há espaço para estrelismos de ninguém, mas sim um equilíbrio notável entre as interpretações que misturam jovens e veteranos atores. Dessa forma, uma espécie de painel social da época é destacado sob o verniz de histórias aparentemente tolas. O ano de 1968 foi marcado por conflitos políticos e sociais acirrados. A guerra no Vietnã que a maioria não compreendia, o crescimento do preconceito e segregação racial, a falta de perspectivas para os idosos, a liberação feminina, a decadência das estruturas familiares, a rebeldia representada pelo consumo de drogas e álcool e a invasão de estrangeiros na terra dos ianques em busca do tal sonho americano. Pode-se dizer que Estevez tentou representar a época através dos perfis dos personagens e das situações que vivenciam e conseguiu um resultado bastante satisfatório, sem precisar ser didático, e escolheu uma boa forma de reunir todos os núcleos na reta final. Enquanto acompanhavam emocionados o discurso do senador, independente de sexo, raça, religião, nível intelectual ou poder aquisitivo, todos estavam em uma mesma sintonia: na esperança de que dias melhores viriam. É interessante que o filme tem praticamente dois finais. O primeiro mostra o desfecho das histórias pessoais dos personagens sem recorrer a diálogos, apenas imagens ilustrando uma melancólica canção. O segundo já mostra a reação das pessoas à notícia do atentado. Um memorável discurso de Kennedy narrado em off acompanha tal colagem de cenas mostrando a comoção que o episódio gerou. Talvez seja nisso que Bobby perca pontos. A todo o momento é exaltada a boa imagem de Robert Kennedy, que inclusive aparece em cenas reais de documentários e jornalísticos de TV que mostram como ele era querido entre a população mais necessitada. Toda a trama fictícia é costurada por esses momentos de arquivo, mas talvez tenha faltado o outro lado da história. Quem eram os opositores do senador à presidência? Qual o perfil do cidadão contrário aos seus ideais? Estevez aparentemente não desejava mesmo apresentar este outro lado da moeda, apenas exaltar a imagem de um político popular e que queria o mesmo que a maioria do povo. Pena que não teve a chance de provar sua idoneidade. Apesar de muitos criticarem este trabalho, principalmente porque mesmo com toda sua pinta de vencedor foi ignorado pelas principais premiações, ele merece ser apreciado com mais cautela, sendo possível até traçar paralelos entre o ano de 1968 e 2007, época de seu lançamento em que a Guerra ao Terror também despertava inflamadas reações populares tal qual o conflito do Vietnã no passado. 

Drama - 116 min - 2006 - Dê sua opinião abaixo.

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