quinta-feira, 12 de junho de 2014

EU ODEIO O DIA DOS NAMORADOS

NOTA 3,5

Casal do sucesso Casamento Grego
deixa para trás toda a espontaneidade
e carisma que o marcou em reencontro
movido pela previsibilidade e monotonia
A data 12 de junho é umas das mais aguardadas pelo comércio, tempo de vender flores, chocolates, joias, roupas e os restaurantes ajeitarem os salões para abrigarem o máximo de número possível de mesas para casais. Quem está envolvido em um relacionamento, principalmente os mais jovens, também cultuam a data, a aguardam com ansiedade, mas para quem já está desencantado com o amor este dia é apenas mais um como outro qualquer. A protagonista de Eu Odeio o Dia dos Namorados vive uma situação dúbia quanto a essas impressões. Genevieve (Nia Vardalos) é dona de uma floricultura que lucra horrores com esta comemoração, mas ela própria foge de um compromisso sério. É claro que ela gosta de uma boa companhia, ganhar presentes, beijar e fazer amor, mas tem uma regra estabelecida para se proteger de futuras frustrações. Quando conhece alguém ela já se relaciona com um objetivo fixo, não cria expectativas além de cinco encontros, assim ela consegue aproveitar o melhor dos relacionamentos, a fase inicial em que tudo é maravilhoso. A primeira vez é para dar uma paquerada básica; a segunda tem que ousar um pouco mais para dar aquele friozinho na barriga e a vontade de quero mais; o terceiro encontro deve ser aventureiro; o quarto tem que ser divertido e surpreender o parceiro; e, por fim, o quinto e último deve ser inesquecível afinal deve fechar o ciclo com chave de ouro, de preferência acabando em uma cama. Passado tais compromissos é torcer para que o cara a esqueça ou ela própria passa a ignorá-lo até que ele caia na real, mas de qualquer forma Genevieve já estaria preparada para um rompimento sem traumas. Seguindo à risca essa receita, ela possui uma vida que considera perfeita e recomenda o estilo a todos, no entanto, certo dia surge uma pessoa em seu caminho capaz de fazê-la rever seus conceitos. O charmoso e bonitão Greg (John Corbett) abre um restaurante próximo à floricultura da moça, esta que se mostra interessada em mais uma conquista. A recíproca é instantânea e ela fala abertamente sobre sua teoria, o que instiga o rapaz a desafiá-la a vencer o desafio em sua companhia. É óbvio que quando a aposta está chegando ao fim o que era apenas curtição acaba se tornando algo mais sério, mas aceitando o amor Genevieve estaria traindo seus princípios e isso complica o que era para ser simples.

A convicção da moça aos seus ideais deveria sustentar o enredo criado pela própria Vardalos, mas o argumento que já era frágil é desenvolvido apelando para situações óbvias e os personagens não ajudam a afastar a sensação de que você já viu todos estes clichês e, diga-se de passagem, provavelmente de forma mais simpática e natural. Antes de qualquer coisa, para quem não está ligando o nome à pessoa, a protagonista desta fita é a mesma que em 2002 surpreendeu com o agradável e despretensioso Casamento Grego, comédia romântica em que o amor é apenas uma desculpa para uma narrativa que lança um olhar irônico sobre os choques culturais que podem surgir quando duas pessoas de nacionalidades opostas resolvem se unir. O longa foi um estrondoso sucesso no mundo todo, rendeu uma indicação ao Oscar à Vardalos pelo roteiro, mas a carreira dela emperrou. Nenhum de seus poucos projetos seguintes deram certo. Talvez por isso ela voltou a firmar parceria com Corbett, uma forma de atrair atenção fazendo alusão ao antigo sucesso. Aliás, a publicidade desta produção destaca bem essa intenção, mas não surtiu efeito. Faltou a originalidade e a sinceridade do longa que lhe rendeu seus 15 minutos de fama. O filme teve uma passagem rápida pelos cinemas tal qual outras tantas genéricas comédias românticas, mas até que para assistir em DVD ou na TV não é dos piores programas. Basta desligar o senso crítico e se entupir de pipoca. O problema não é necessariamente o excesso de clichês, mas sim o fato do longa apenas jogá-los na tela, sendo raros os momentos de riso e a paixão entre os protagonistas não cativar. A disputa para ver quem tem razão quanto a existência ou não do amor é o que salta aos olhos, ainda que o casal conquiste a simpatia do público quando estão juntos, talvez pela lembrança positiva que nos remeta do outro trabalho em que fizeram par. Corbett mais uma vez repete o papel de galã que sabe de suas qualidades, mas é extremante contido, assim fazendo um contraponto ao seu interesse romântico que surge em todas as cenas exagerando nos sorrisos para sustentar que sua teoria funciona. Todavia, no fundo ela própria não acredita na doutrina que criou por conta de traumas familiares, mas a insistência nessa bobagem acaba prolongando os encontros com Greg até que, próximo do dia dos namorados, ele deseja uma resposta definitiva. Contagiada pelo clima de romance do ar, é óbvia a escolha de Genevieve.

Além de atuar e roteirizar, Vardalos também optou neste trabalho por fazer sua estreia como diretora, mas mostra-se despreparada para a função. Não basta posicionar atores ou saber enquadrar imagens na câmera. Um cineasta deve estar atento a todos os detalhes e a pressa para contar esta história de amor é nítida. Faltou capricho não só na edição, já que existem cortes abruptos e perceptíveis nas passagens de cena, mas também trabalhar na fluência do texto tanto no papel quanto em sua transposição para os sets de filmagem. Os diálogos e situações são tão frenéticos que não há tempo para se envolver plenamente com a trama principal, assim o romance desanda e as piadas não funcionam. Os momentos que geram um sorrisinho tímido são quando o casal vai visitar uma daquelas exposições de arte moderna em que uma tela praticamente em branco é considerada cheia de significados e também quando vão a um karaokê onde obviamente um deles soltará a voz razoavelmente bem e o outro passará a enxergar o companheiro com outros olhos. Fora isso, pouco nos lembramos do que esses namorados fizeram ou conversaram, salvo um péssimo diálogo que travam quando se reencontram após um tempo afastados, algo capaz de ruborizar quem assiste de tão patético. O pior de tudo é que pouco nos importamos sobre o futuro deles. O cinema já apresentou vários romances que começaram a partir de uma aposta ou joguinho de ciúmes, mas geralmente as tramas conseguem aproximar os casais de maneira crível e consequentemente embarcar o espectador nessa onda, mas no filme em questão não há tempo hábil para estabelecer essas relações. Os coadjuvantes que costumam roubar a cena ou salvar produções do tipo do fracasso quando a trama principal não funciona aqui são totalmente dispensáveis. Não há um que deixe sua marca, que nos faça lembrar alguma característica, todos são tão sem graça quanto os protagonistas. Temos os amigos carentes iludidos com a teoria dos cinco encontros, a mãe atirada que anula a credibilidade do sofrimento que a protagonista revelará na reta final e não poderiam deixar de dar pinta alguns gays em uma história tão cor-de-rosa. Aliás, Eu Odeio o Dia dos Namorados também peca por ter a maior parte de suas cenas rodadas em estúdio com cenários e adereços ultracoloridos. O visual aliado à fraca narrativa faz o filme se assemelhar a um projeto amador, quase um teatrinho escolar filmado, ainda mais quando temos Vardalos praticamente onipresente em todas as cenas com olhos esbugalhados como de uma criança curiosa ou assustada.

Comédia romântica - 89 min - 2009

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