quinta-feira, 26 de junho de 2014

MUDANÇA DE HÁBITO

NOTA 8,0

Desbocada, careteira e marrenta,
ninguém melhor que Whoopi
Goldberg para viver uma freira que
de santa não tem absolutamente nada
Igreja é um lugar aonde você vai para rezar, idolatrar o Senhor, fazer caridades e até lamentar ou se entristecer dependendo das circunstâncias que o levam à missa ou a uma passada rápida para acender uma vela para algum santo, mas para Whoopi Goldberg esse templo do louvor provavelmente deve ser sinônimo de muita felicidade e dinheiro no bolso, ou melhor, na conta bancária. Seria impossível ela carregar a fortuna que fez com a comédia Mudança de Hábito, um estrondoso sucesso no mundo todo. Para alguns hoje o longa pode não passar de mais um título que abastece as sessões da tarde da TV e que é repetido à exaustão, mas na época foi um dos filmes mais comentados e lucrativos do ano de 1992. Muita gente o tem como uma grata lembrança do tempo da infância ou da adolescência e o fato de ser uma produção lançada há mais de vinte anos não impede que novas gerações se divirtam com as confusões da cantora Deloris Van Cartier (Goldberg) que se apresenta em um cassino no estado de Nevada sem muito sucesso, afinal o pessoal que frequenta o lugar está mais interessado é em grana, bebidas e apostas. Certa noite ela acidentalmente testemunha um assassinato cometido pelo seu namorado, o gângster Vince LaRocca (Harvey Keitel) que acaba fugindo após fracassar na tentativa de silenciar a cantora. Depois que declara à polícia tudo e mais um pouco do que sabe a respeito do bandidão, Deloris é colocada no programa de proteção às testemunhas sob a batuta do tenente Eddie Souther (Bill Nunn) que a ajuda a ser aceita em um convento em São Francisco, o último lugar que alguém poderia desconfiar que ela pudesse se esconder. Atendendo a partir de então pelo nome de irmã Mary Clarence ela deveria permanecer no local até que o fugitivo fosse capturado, mas ela mesma não poderia esperar que essa temporada em um local completamente diferente do que estava habituada traria mudanças significativas tanto para ela quanto para suas novas companhias. No entanto, obviamente no início as coisas não são fáceis e Deloris precisa fazer o possível e o impossível para se adaptar a pacata rotina do local, mas seu jeito extrovertido acaba se sobressaindo e isso não agrada nada à Madre Superiora (Maggie Smith). Seria possível uma mulher desbocada, que frequentava inferninhos e adepta de algumas falcatruas, ainda que leves, se regenerar à força?

Recebê-la no convento seria um ato de caridade, mas ainda assim a veterana religiosa se arrepende da decisão acreditando que a presença de uma falsa freira seria uma ameaça e tiraria as demais irmãs do caminho imposto pelo Senhor, assim ela tenta levar o problema aos ouvidos do Bispo O’Hara (Joseph Maher), o diretor do convento que pede para a Madre ter um pouco de paciência. Havia problemas mais graves a serem resolvidos, como o risco da instituição encerrar suas atividades devido a falta de recursos financeiros já que as pessoas estavam cada vez mais distantes da Igreja. Nada melhor então que juntar a fome com a vontade comer. Já que a Madre exige que Deloris se comporte como uma legítima freira, a cantora por sua vez se vê no direito de passar sua visão a respeito do convento, ou seja, as razões que levaram os fiéis a abandonar a fé. Responsabilizada de reger um coral, a irmã Clarence resolve inovar e colocar vida nas canções sacras impondo ritmo e timbres de vozes vibrantes. O resultado é que ela acaba conseguindo encher as missas de jovens que não se interessavam por religião e resgatar os desertores, todos atraídos pelas músicas e clima de alegria, assim as doações também voltaram. Até a mídia se interessa em registrar esse movimento de resgate da fé, assim o estranhamento inicial da Madre acaba se transformando em admiração acompanhando a empolgação do Bispo. A própria regente percebe que não é mais a mesma a partir do contato com a religião, mas é óbvio que quando tudo está dando certo inevitavelmente ela terá que enfrentar o passado que volta a lhe perseguir, uma regra básica hollywoodiana. Levemente inspirado em um telefilme do início dos anos 80 chamado Trocando o Hábito, o roteiro de Carrie Fisher e Paul Rudnick, estranhamente assinando a obra sob o pseudônimo Joseph Howard, já é uma história clássica daquelas que conseguimos contar com tanta facilidade quanto os contos da Branca de Neve ou Cinderela, por exemplo. Contudo, por mais que se saiba que o final feliz está garantido, nada estraga o prazer de assistir a esta obra do diretor Emile Ardolino que já acumulava em seu currículo mais dois clássicos das sessões da tarde, Dirty Dancing – Ritmo Quente e Três Solteirões e Uma Pequena Dama. A expectativa em torno deste lançamento era grande justamente por causa de sua protagonista que pouco tempo antes havia ganhado o Oscar de atriz coadjuvante por Ghost – Do Outro Lado da Vida, assim entrando para o primeiro time de estrelas de Hollywood. Antes desta atuação cômica incidental em uma obra tão lacrimosa, Whoopi já era rotulada como humorista de mão cheia, embora seus projetos não vingassem. Tal fama só veio a aumentar após esta comédia.

Realmente a atriz estava em ótimo momento profissional, mas a maré boa durou pouco e se estendeu somente até a sequência desta comédia lançada um ano depois. Desde então, Whoopi tem se envolvido em projetos menores, sem muita projeção. Mesmo assim ela deixou sua marca e transformou a irmã Clarence em um personagem ícone do cinema e porque não uma adorável lembrança dos anos 90. A espalhafatosa intérprete precisou se habituar a usar o hábito (olha o trocadilho), segurar a língua para não deixar palavrões escaparem e ainda ensaiar um coral de freiras um tanto desafinado e desmotivado. Tais cenas são antológicas e o ápice do filme, com destaque para as atuações coadjuvantes de Kathy Najimy e Wendy Makkena, respectivamente as irmãs Mary Patrick e Mary Robert, a gordinha animada e a magrela tímida que conquistam a simpatia do público automaticamente. Já a veterana Smith não tem muitas oportunidades para sorrir, aparecendo quase todo o tempo sisuda e com expressões de preocupação, mas o perfil da Madre Superiora lhe caiu como uma luva e ela consegue cenas memoráveis batendo de frente com a novata no sacerdócio. Sem dúvidas é hilário acompanhar o cotidiano de Clarence com suas colegas de convento, uma adaptação de ambas as partes até atingir o mínimo de equilíbrio, sendo que o roteiro consegue reciclar situações com piadas inspiradas e que fluem com total naturalidade. Whoopi é imprescindível praticamente o tempo em cena e realmente se entregou ao papel, embora o perfil da personagem pareça não ser muito diferente do que a atriz é na vida real. Apesar de aparentemente ter se divertido muito com este trabalho, curiosamente dizem que os bastidores não foram dos mais amigáveis para a atriz que constantemente tinha atritos com a equipe, talvez porque a primeira opção para dar vida à Deloris era Bette Midler, na época a grande estrela contratada da Disney (o longa é da Touchstone, subempresa da casa do Mickey Mouse dedicada a lançar filmes com temáticas adultas light). Certamente com outro perfil de protagonista o filme seria completamente diferente, talvez nem se tornasse o sucesso que foi e continua sendo. É impossível imaginar outra no lugar da debochada Whoopi protagonizando Mudança de Hábito. Sua escalação contribui inclusive para acentuar alguns aspectos críticos. Sinceramente, dificilmente alguém diz que já viu uma freira negra ou que conheceu alguma que usava linguajar popular repleto de gírias. Seriam elas proibidas na casa de Deus?

Comédia - 100 min - 1992 - Dê sua opinião abaixo.

2 comentários:

Gilberto Carlos disse...

Um dos meus filmes preferidos para ver e rever. Pena que Whoopi Golberg não faz o mesmo sucesso de antes.

Abraços.

Silvia Freitas disse...

Esse filme é muito bom, super engraçado, ri muito a primeira vez que vi. Assisto sempre que passa, o melhor de Whoopi

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