segunda-feira, 23 de junho de 2014

O PRIMEIRO AMOR

NOTA 7,0

Apesar da aparência frágil,
longa aborda sentimentos 

comuns aos jovens de modo realista,
mas sem abrir mão da inocência
No início dos anos 90, Meu Primeiro Amor foi lançado sem grande alarde, mas acabou ganhando status de clássico familiar devido às inúmeras reprises na TV, história singela e curiosidades em torno do nome Macaulin Culkin, promessa de grande ator que acabou sendo apenas uma ilusão. Cerca de vinte anos depois, muitos pais e avós gostariam de apresentar este filme às novas gerações e certamente festejaram quando locadoras e lojas colocaram a disposição O Primeiro Amor. Alguns devem ter gostado da obra enquanto outros se decepcionaram.  O título cabe bem à proposta, mas é inegável que ele faz uma clara alusão ao outro longa citado, assim muitos acabaram assistindo pensando em se tratar de um relançamento ou até mesmo uma refilmagem. Na verdade esta produção apenas pega carona em uma publicidade alheia, mas seu conteúdo é bem diferente apesar da premissa ser a mesma: falar da inocência, receios e fantasias de uma primeira paixão. Todos já viveram essa experiência, seja platônica ou algo real, mas o fato é que na maioria das vezes elas passam longe de serem fáceis como nos contos de fadas. Baseado no livro “Flipped”, de Wendelin Van Draanen, a trama roteirizada por Andrew Scheinman e Rob Reiner, este também diretor da fita, começa no final dos anos 50 quando a família Loski estava de mudança para uma nova vizinhança e imediatamente o filho caçula chamou a atenção da garotinha que vivia na casa da frente. Ela estava certa que ele não era um simples vizinho e sim o seu primeiro amor. O problema é que o menino não compartilhava da mesma sensação e por anos fugiu das várias investidas da garota para tentar segurar a sua mão, roubar um beijo ou simplesmente ter um olhar de ternura. As coisas só mudaram quando eles tinham em torno de 13 anos de idade. Juliana Baker (Madeline Carroll), já cansada de tanto ser menosprezada, estava decidida a dar um gelo em Bryce Loski (Callan McAuliffe), mas isso era muito difícil já que além de vizinhos também eram colegas de classe. Ele a considerava muito excêntrica, mas passou a vê-la com outros olhos quando Chet Duncan (John Mahoney), seu avô, passou a morar com a família. O idoso adora plantas e fica intrigado ao ver uma foto da menina no jornal envolvida em um manifesto quanto a remoção de uma gigantesca árvore. As crianças do bairro costumavam esperar o ônibus escolar sob a sua sombra, mas nenhuma se mostrava rebelde quanto a sua remoção, assim Bryce não foi solidário à vizinha que tanto estimava a preservação do ambiente, ou melhor, das lembranças que aquela planta lhe trazia.

Após tal episódio, que terminou com a garota mais uma vez ridicularizada, ela parou de perseguir o vizinho, mas a distância que ele tanto desejava então passou a incomodá-lo. A própria Juli não estava suportando a situação e tentou uma última vez por à prova seus sentimentos, descobrir se realmente amava Bryce. Como tem uma criação de galinhas, ela inocentemente achava que poderia se reaproximar oferecendo alguns ovos, porém, mal sabia ela que a repulsa não era apenas por sua insistência em querer estar sempre próxima. Bryce, influenciado por amigos, considerava a casa da frente a mais feia e estranha do bairro, embora ela pareça absolutamente normal. Criticam o mato do quintal, as paredes mal pintadas e os fundos cheios de “titica” de galinhas. Com os comentários maldosos, os Loski ficam com nojo de usar os ovos e os jogam fora, mas isso acaba se tornando uma rotina. Juli semanalmente leva uma dúzia deles que acabam parando secretamente na lata do lixo. Bryce não desejava magoá-la recusando o presente, no entanto, é óbvio que em certo momento a farsa é descoberta. E assim, a cada novo mal entendido ou situação embaraçosa, os sentimentos dos dois jovens vão ficando ainda mais confusos, um verdadeiro morde e assopra. Ambos tentam se manter afastados, mas sempre algo acontece para aproximá-los, ainda mais quando a menina faz amizade com Chet, este que livre de preconceitos alerta sua família sobre a maldade que fazem julgando os outros. Como dizem que imagem é tudo, a residência dos Baker na realidade não era bizarra, apenas mal cuidada visto que não eram pessoas de grandes posses e o pouco que entrava de dinheiro era gasto para o tratamento clínico do tio da garota, Daniel (Kevin Weisman), que sofria de problemas mentais causados pela falta de oxigênio quando nasceu quase enforcado pelo cordão umbilical. O mesmo problema quase matou Bryce após o parto e isso mexe com o emocional de sua mãe, Patsy (Rebecca De Mornay), que decide fazer um jantar como pedido de desculpas e confraternização com os vizinhos que por tantos anos evitaram. Contudo, Steven (Anthony Edwards), o pai, é extremamente preconceituoso e estende suas críticas aos pais e irmãos de Juli enquanto a menina tenta convencer a família de que o estilo “alternativo” que adotaram está prejudicando-a. Antes ela não se importava de ter a casa menos atraente do bairro, mas tudo mudou quando percebeu que seus colegas de classe a julgavam negativamente por esse detalhe. O comentário acaba levando Trina (Penelope Ann Miller) e Richard (Aidan Quinn), seus pais, a discutirem. Sabem que a economia é necessária, mas o que fazer se o relaxo está trazendo prejuízos para a imagem do clã? É preciso ficar atento para não se perder entre algumas cenas repetidas já que a maioria das situações são apresentadas duas vezes, cada uma correspondendo a ótica e os sentimentos de cada um dos protagonistas em relação aos fatos.

Mais que falar sobre as alegrias, dúvidas e frustrações da primeira aventura amorosa, O Primeiro Amor tem o mérito de abordar justamente o preconceito, mas de forma diferente. Estamos habituados a casos de repulsa quanto a etnias, deficiências e aspectos físicos, orientação sexual e padrões de vida, mas dificilmente vemos a classe média criticando a classe média. É muito fácil uma família pobre ser excluída em um bairro nobre, mesmo que a casa fosse fruto de herança ou comprada em tempos de finanças melhores. O contrário desta situação também pode acontecer, sendo o milionário em decadência tendo que se adaptar a um padrão de vida mais mediano. Agora quando nos deparamos com o conflito de jovens como Bryce e Juli nos espantamos a que ponto as coisas chegaram. É justo julgar alguém por ter uma casa levemente mal arrumada ou por ganhar alguns trocados vendendo ovos? Pode parecer uma discussão ridícula, mas certamente existem centenas de casos de crianças e adolescentes que se envergonham dos padrões financeiros ou situação profissional dos pais e fazem verdadeiros malabarismos para esconder as verdades. Que atire a primeira pedra quem jamais conheceu alguém do tipo. Chet, a certa altura, alerta o neto que se preocupa com ele porque é na infância e na juventude que o caráter de uma pessoa é definido e o menino estava trilhando um caminho errado deixando-se influenciar pela maldade dos outros, inclusive por amigos da mesma idade que certamente já eram educados de forma errada pelos pais. É um círculo vicioso antigo e que infelizmente parece longe de ter fim. Só pelas mensagens de evitar julgamentos pela aparência e jamais abdicar de suas vontades e ideais por conta do que os outros pensam já valem uma conferida nesta obra despretensiosa e muita agradável do mesmo diretor que já havia demonstrado sensibilidade para lidar com temas incômodos no drama Antes de Partir. Ele conheceu a história quando seu filho precisou ler o livro para um trabalho de escola e achou a obra inteligente e sofisticada abordando todos os sentimentos complicados que envolvem um primeiro romance. A obra original se passa nos primeiros anos do século 21, mas o cineasta preferiu transferir as ações para os anos 60, época em que ele próprio experimentou algumas das sensações exploradas pelo enredo. Além dos bons argumentos para conduzir uma trama que poderia se resumir a nada, o longa ainda traz como benefício o fato de tratar o primeiro amor com inocência, sem qualquer tipo de apelo sexual, excluindo até mesmo um beijo entre os jovenzinhos coroando o iminente final feliz. Censura livre de qualidade, respeito e conteúdo, vale a pena.

Romance - 89 min - 2010

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