sexta-feira, 13 de junho de 2014

THE EVIL DEAD - A MORTE DO DEMÔNIO (1981)

NOTA 9,0

Embora tosco e com erros de
continuidade, longa é referência
entre as fitas de terror por sua
ousadia e soluções criativas
Dizem que para fazer cinema basta uma boa ideia na cabeça e uma câmera na mão e foi assim mesmo que no início na década de 1980 um jovem cineasta revolucionou o gênero terror. Proibido por anos em muitos países, alguns só chegaram a vê-lo em mídia original já nos tempos do DVD, The Evil Dead - A Morte do Demônio se tornou o cartão de visitas do diretor Sam Raimi. Hoje em dia ele é um profissional muito competente que Hollywood abriga com toda a pompa e conforto possível, principalmente depois do mega sucesso da trilogia de aventuras do Homem-Aranha, um marco do cinema dos anos 2000. No entanto, seu início de carreira foi completamente diferente. Embora seus familiares não fossem do meio artístico, Raimi sempre gostou muita da sétima arte e desejava fazer parte desse mundo onde tudo é possível, inclusive ressuscitar mortos e falar com o capeta em pessoa (ou quase isso). Junto com o amigo de colégio Bruce Campbell, ele se divertia fazendo filmes caseiros até que a coisa se tornou séria com esta fita de terror de recursos escassos, mas certo apuro técnico em alguns momentos, soluções eficientes e até a “invenção” de uma câmera para dar o efeito da ótica do vilão perseguindo sua vítima, movimento que se tornou referência para produções que visam botar medo no espectador. A dupla escreveu o roteiro, tratou da produção e arrecadou o dinheiro necessário para contar a história de um grupo de jovens que aluga uma casa de campo para curtir um final de semana, mas quando chegam ao local descobrem que escolheram uma cabana bem capenga no meio do mato. Mesmo assim eles decidem ficar e começam a explorar o casebre para passar o tempo, sendo surpreendidos pela descoberta de um livro macabro escrito com sangue e encadernado com pele humana chamado “Necronomicon” junto com uma fita de áudio (um artefato de museu para as novas gerações) contendo a gravação de um historiador que ousou ler um dos trechos da publicação, provavelmente um cara metido a espertalhão que deve ter se arrependido amargamente do que fez assim como estes jovens que quando perceberam que estavam mexendo com forças negativas já era tarde demais. Ao reproduzirem a gravação que exalta os poderes do demônio em um estranho dialeto, as portas do inferno então se abrem, os espíritos malignos são despertados e um por um os jovens vão sendo possuídos e a carnificina segue sem limites.

Esta trama aparentemente nada criativa ganha sustância com os esforços de uma equipe formada basicamente por universitários (até o famoso Joel Coen fazia parte da turma como editor-assistente) que fizeram literalmente das tripas o coração desta obra. Considerado um dos filmes mais nojentos de todos os tempos (no bom sentido), a produção garimpou seu espaço graças aos festivais dedicados a produções amadoras e aos que exaltam as produções de horror, ficção e fantasia. Dessa forma, o modesto longa acabou chamando a atenção de grandes produtores e distribuidores que decidiram lutar para colocá-lo em exibição no circuito comercial e investir no promissor cineasta, tanto que a obra gerou duas continuações. Batizadas no Brasil de Uma Noite Alucinante seguidas do numeral correspondente a sequência (a mudança de título ajuda a demarcar a troca de estilo narrativo do original para os demais filmes – terrorzão cedendo espaço ao humor mais pastelão tingido de sangue), tais produções são tão toscas quanto a matriz, embora já contassem com a injeção de capital hollywoodiano, mas para que mexer em time que está ganhando não é mesmo? Todavia, a escalada de sucesso não foi nada fácil. Foram necessários cerca de quatro anos até a finalização do filme, contando com mudanças no roteiro, desistência de atores e malabarismos para superar contratempos. Um curta-metragem foi feito primeiramente para atrair investidores, mas ninguém deu bola e Raimi e Campbell precisaram se virar. Quando o longa ficou pronto muito provavelmente nenhum dos envolvidos tinha noção do que fizeram: simplesmente um marco cinematográfico, um legítimo trash movie repleto de qualidades e que se tornaria uma referência ao seu gênero. Por ter sido produzido sem qualquer amarra com estúdios ou patrocinadores e talvez sem criar expectativas de que um dia a obra seria exibida fora das “sessões malditas” (projeções em horários alternativos para grupos pequenos adeptos de produções amadoras, de preferência de horror), Raimi conduziu seu trabalho seguindo seus próprios ideais e abusou do sangue, escatologia e do humor negro, assim ele criou uma fórmula de sucesso que futuramente inspiraria outros cineastas. Até a recente franquia Jogos Mortais ou o marqueteiro A Bruxa de Blair certamente beberam nessa fonte. O diretor, então com seus 20 e poucos anos, lançava um belo exemplo de produção que reunia uma porção de elementos que automaticamente atrairiam críticas negativas, mas a sorte estava do seu lado e justamente por assumir sem vergonha alguma seu caráter tosco é que a obra acabou conquistando status respeitável. A maquiagem exagerada ou o ferimento que a cada cena muda de lugar, por exemplo, fazem parte do show. O importante é se expressar.

Longe de bons efeitos especiais ou cenários mirabolantes e contando com erros grosseiros de continuidade, é óbvio que para muitos The Evil Dead - A Morte do Demônio é uma grande porcaria e totalmente esquecível, mas para quem realmente gosta de cinema a obra tem um grande valor. É a materialização do sonho de viver da arte cinematográfica tal qual um dia imaginou o lendário Ed Wood, cineasta adepto de produções de horror e ficção cientifica precárias, mas levadas a sério por este profissional cujo talento foi reconhecido apenas postumamente. Felizmente para Raimi as coisas foram diferentes praticamente em sua estreia no ramo. Com todo jeitão de vídeo caseiro feito como uma brincadeira entre amigos, o diretor precocemente provava o que muitos veteranos morrem sem saber: não é preciso milhões para se fazer um filme, basta ter disposição, criatividade e porque não uma ajudinha dos amigos. Apenas Campbell chegou até o fim da narrativa vivendo Ash, o herói. Quando os demais personagens começam a se transformar em zumbis, todos são interpretados por amadores, membros da própria equipe que se dispuseram a atuar escondidos sob pesada maquiagem, criações visuais bizarras e nauseantes. O elenco original (todos desconhecidos) debandou por atrasos de pagamento, mas em tempos que histórias de bastidores de O Exorcista e outras produções do tipo chegavam a ser mais assustadoras que os próprios filmes talvez os atores não quisessem arriscar. Mesmo com esse contratempo, Raimi criou algumas das cenas de possessões mais assustadoras de todos os tempos, caprichou na atmosfera de arrepiar do cenário claustrofóbico e ainda soube arrancar interpretações vibrantes, além é claro de tirar bom proveito do roteiro que une com perfeição suspense, toques de humor e terror dos bons. De quebra, criou uma cena originalíssima de uma jovem sendo literalmente comida por raízes malignas (não há como explicar, só vendo para crer). Dizem que em situações de medo uma das reações possíveis é o riso e é impossível contê-lo em algumas passagens neste caso. As aparições dos jovens possuídos provocam deliciosos sustos salpicados de risadas. Seus closes e falas parecem carregar uma amistosa saudação do tipo “olá eu sou um demônio e vou te atormentar até você morrer... de medo ou de tanto rir!”. É esse o espírito que está impregnado em cada cena desta obra cujo aspecto envelhecido só deixa a experiência de assisti-lo ainda mais gratificante. Diante do roteiro previsível, é a expectativa em torno de saber até onde irão as loucuras da narrativa que prende a atenção e para tanto Raimi usou a câmera com maestria e sem medo de exagerar em closes nojentos de tripas, mutilações e sangues feitos com materiais que transpiram falsidade. Só para ter uma ideia, o sangue era feito com um tipo de calda de açúcar com corante vermelho que quando secava endurecia a tal ponto que a certa altura das filmagens a camisa do protagonista simplesmente trincou. Mas é isso aí. A determinação às vezes faz milagres e os resultados deste filme colocam no chinelo muita produção badalada atual que pouco se preocupa em expressar algo, salvo a ânsia em arrancar alguns trocados às custas de sustos sem graças e super coreografados. 

Terror - 80 min - 1981 

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