quarta-feira, 9 de julho de 2014

FORA DO MAPA

NOTA 5,0

Talhado para ganhar prêmios e
apesar de essencialmente
contemplativo, drama deixa a

sensação de que poderia ir além
O cinema independente é caracterizado por produções que visam o experimentalismo, ou seja, roteiros que busquem explorar novos horizontes ou apresentem temas batidos sob óticas diferenciadas, assim boa parte dos filmes desta seara conseguem cair no gosto dos críticos facilmente, porém, amargam o fracasso em termos de popularidade. Contudo, já faz alguns anos que a situação tem mudado um pouco graças aos esforços de profissionais que ampliaram a aceitação dos filmes alternativos com boas campanhas que os levaram até os cinemas de shoppings e a serem indicados a prêmios como o Oscar. De qualquer forma, o grande número de produtos lançados por essa corrente de um cinema “menor” acaba inviabilizando a exibição de boa parte deles até mesmo em cineclubes e o destino acaba sendo o lançamento direto em DVD. Situações do tipo nos fazem repensar se tudo o que sai diretamente para venda ou aluguel é realmente de gosto duvidoso, mas obras do tipo de Fora do Mapa também colocam em xeque se as menções de festivais no material publicitário correspondem a sinônimo de qualidade.  Exibido em Cannes e Sundance, o filme narra um período conturbado na vida de uma família que vive isolada em uma região desértica do Novo México. A história é narrada através das memórias da pré-adolescência de Bo Godren (Valentina de Angelis), uma garota com problemas para se adaptar ao estilo forçadamente alternativo dos pais, Charley (Sam Elliott) e Arlene (Joan Allen). A trama começa com um relato estranho. Procurando retratar um pouco da atmosfera medíocre e mística do local, o enredo fala que certa vez um rosto com feições de Jesus Cristo apareceu em uma tortilla (quitute típico latino) em uma cafeteria da cidade. A dona do estabelecimento envernizou a imagem para atrair fiéis e consequentemente mais clientes, mas aos poucos ela foi sumindo. O que isso tem a ver com a trama? Pois é, absolutamente nada, salvo o fato de Bo enfatizar que desde então seu pai se encontra em um profundo estado de depressão que ninguém sabe ao certo a razão. Bem, quando nos familiarizamos com a intimidade da família começamos a entender um pouco essa melancolia, mas jamais chegamos à justificativa plena. Arlene procura reanimar o marido, mas também tem seus momentos de explosão de tristeza, esses sim compreensivos.

Vivendo um estilo de vida alternativo, eles caçam e plantam para poderem comer e sobrevivem com a miséria que Charley recebe de pensão do exército e dos trocados que mãe e filha ganham vendendo flores e artesanatos, além do pouco conforto da casa ser fruto de peças recuperadas de um depósito de lixo ou trocas de favores com vizinhos. Dessa forma, a depressão do chefe deste clã teria total justificativa, no entanto, se dependem praticamente de esmolas para sobreviverem isso se deve a ele mesmo. Há meses recostado pelos cantos, com olhar contemplativo e não raramente chorando sem motivo, é de se estranhar as razões de sua depressão, um mal moderno atingindo um homem do campo onde existe a fantasia de que o estresse não dá as caras. A única informação que podemos deduzir de seu passado é que como veterano de guerra possivelmente guarda traumas. Não sabemos se em algum período da vida ele chegou a viver em uma cidade grande, mas estaria ele arrependido de neste momento estar enraizado à margem do progresso, seja por opção ou obrigação por erros do passado? O que sabemos é que sua filha sonha grande e vira e mexe devaneia a respeito de uma mudança de vida. Mesmo sem televisão ou telefone em casa, seu maior desejo é ter um cartão de crédito acreditando inocentemente que com ele tudo seria possível. Mesmo levando uma vida paupérrima, a família acaba virando alvo de uma investigação da Receita Federal e certo dia recebe a visita do agente William Gibbs (Jim True-Frost). Por cerca de sete anos deixaram de entregar a declaração anual na fiúza de que a mixaria que ganhavam era insignificante ao governo, mas também por conta do desinteresse de Charley que antes cuidava desses assuntos. O rapaz veio com a missão de negociar a quitação da dívida de multas que se acumularam devido a ausência de documentação, mas o que era para ser uma visita rápida acabou se tornando uma estadia de várias semanas. Com uma forte relação alérgica à picada de um inseto, William acaba ficando aos cuidados dos Groden, mas quando recupera suas forças já não tem mais a certeza se deseja voltar para a casa. Após abandonar a carreira de cozinheiro e ter aceitado o emprego como fiscal apenas por conta do salário, o jovem acaba neste período de recesso tendo a oportunidade de repensar em sua vida diante do exemplo da família que o acolheu. Ou teria sido a calmaria do lugar que o fez mudar de ideia? O cenário desértico então se transforma em personagem graças a bela fotografia do longa, sem dúvidas seu ponto mais bem-sucedido. O clima sufocante do casamento do sol escaldante e do terreno arenoso a perder de vista está presente, mas ganha também alguns tons diferenciados e frescor graças à captação de imagens da vegetação e fauna características. Segundo crenças locais, a região que um dia já foi a moradia da tribo Hopi, grupo que Arlene é descendente, tem o poder de transformar a vida daqueles que transitam por lá.

Para demarcar a mudança, William repentinamente começa a se expressar através da arte, também única diversão de Charley (embora isso seja apenas citado). Aliás, o rapaz também é um depressivo, em menor grau que o idoso, mas tem uma justificativa mais plausível para seu desinteresse em voltar à sua rotina, algo que lhe aconteceu na infância e roubou seus sonhos. Completa o time de desanimados George (J. K. Simmons), o padrinho de Bo e grande amigo da família que se dispõe a procurar uma psicóloga para conseguir uma receita de medicamentos para Charley que se recusa a se tratar, no entanto, a cada nova consulta o paciente de fachada acaba descobrindo que também precisa de apoio. Um grupo de personagens entristecidos e em meio a eles a vibração de uma inocente criança que acredita que dias melhores virão. A ideia em síntese é das melhores, mas o resultado final de Fora do Mapa deixa a desejar. A narração com frases rebuscadas da protagonista é um dos primeiros incômodos, mas a personagem ganha fácil a simpatia do público principalmente pelo carisma e naturalidade de sua intérprete. Todo o elenco na verdade se sai muito bem, o problema é que temos a sensação que seus dramas são explorados superficialmente, haveria muito mais a ser apresentado sobre cada um. Esse é um detalhe que chama a atenção visto que a direção é do também ator Campbell Scott, cujos pais também eram intérpretes. A produção independente é muito conhecida por ser um cinema de ator onde pequenos roteiros podem se tornar grandes obras graças a força das interpretações. Scott, por conhecer a fundo os prós e os contras da profissão, poderia ter investido mais no desenvolvimento dos personagens, mas optou por ser fiel ao roteiro de Joan Ackermann, também autora da peça teatral inspiradora. Aparentemente a intenção é sugestionar boa parte das emoções para gerar impressões. Com poucos acontecimentos realmente significativos e muitos momentos de contemplação, a obra tem passagens de tempo abruptas que acabam levando o espectador pouco a pouco se desinteressar pelo destino dos personagens que, diga-se de passagem, não deixam claras as suas intenções. Excetuando-se Charley que do início ao fim mostra-se deprimido, os demais vivenciam situações que os tornam pouco críveis, talvez pela ideia de subverter expectativas que impregna o filme todo. Quando William e Arlene se conhecem, e devido ao modo como isso ocorre, logo pensamos que um romance irá surgir, ainda mais considerando que ela está há tempos vivendo uma relação com o marido sem contato físico, mas conforme a narrativa avança não sentimos apelo sexual nela e o rapaz demonstra ter carência de amor materno. Bo, por sua vez, somente na reta final vem mostrar algum carinho por seu padrinho e faz isso de forma exagerada. É realmente uma pena que uma produção com tantas possibilidades se resuma a um amontoado de cenas mal costuradas para tentar emocionar o espectador.

Drama - 108 min - 2002 - Dê sua opinião abaixo.

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