quinta-feira, 10 de julho de 2014

INVASORES (2007)

NOTA 3,5

Deixando mensagens subliminares
de lado, quarta adaptação de clássico
livro de ficção científica proporciona
diversão rasteira e esquecível
Assim como Guerra dos Mundos causou frisson nos anos 50 ao apresentar uma trama alegórica envolvendo alienígenas para criticar a pretensiosa soberania dos norte-americanos, praticamente na mesma época Vampiros de Almas era lançado como uma metáfora ao momento político que os EUA vivia. Baseado no livro “The Body Snatchers”, escrito por Jack Finney, o longa de 1956 critica o macarthismo e sua caça às bruxas disfarçadamente através de uma invasão alienígena e o diretor Don Siegel conseguiu realizar um filme aterrorizante que alcançou status de obra-prima com o passar dos anos. Em 1978, Philip Kaufman assumiu a direção de um remake, Invasores de Corpos, obtendo um filme diferente do original, mas preservando a sensação de paranoia e pavor aproveitando-se das feridas deixadas pela Guerra do Vietnã. O mesmo título (com o acréscimo do subtítulo “a invasão continua”) viria batizar em 1993 a versão de Abel Ferrara para o consagrado romance de ficção científica abordando uma epidemia trazida pelos alienígenas em uma clara alusão aos temores da AIDS, mas já não obtendo a repercussão dos filmes anteriores. Um é pouco, dois é bom, mas se três já é demais porque insistir em um quarto filme? É fato que o argumento do livro é atemporal e permite diversas interpretações, assim executivos da Warner Bros certamente imaginaram que era hora de mais uma vez trazer a temática à tona para discutir implicitamente os conflitos étnicos ou a degradação acelerada da natureza, por exemplo. Contudo, Invasores não é lembrado por algum tipo de subtexto, mas sim por ser um retumbante fracasso que deve ter feito um rombo considerável nas finanças de sua produtora. A trama escrita por David Kajganich parte da premissa de que os destroços da explosão de um ônibus espacial entraram em contato com algo alienígena e que ao caírem na Terra trouxeram uma espécie de vírus que modifica drasticamente o comportamento das pessoas que contamina. A população entra em desespero, mas o governo vende a ideia de que esta epidemia em breve será controlada, no entanto, a psiquiatra Carol Bennell (Nicole Kidman) e seu namorado, o médico Ben Driscoll (Daniel Craig), descobrem a verdadeira origem do problema, um mal que acomete as pessoas quando elas estão dormindo. Os infectados mostram-se incapazes de demonstrar algum tipo de emoção, mas à medida que o vírus se espalha fica cada vez mais difícil descobrir quem é portador da anomalia.

As desconfianças de Carol começam quando diversos pacientes começam a se queixar de mudanças no comportamento de seus familiares. Ela passa a observar com mais atenção as pessoas nas ruas, mas nem suspeitava de qualquer interferência alienígena até que seu filho Oliver (Jackson Bond) é sequestrado por criaturas estranhas. Enquanto tenta recuperá-lo, Driscoll está estudando uma possível cura para a epidemia, porém, não se pode confiar em ninguém. Ironicamente, com a população praticamente toda apática os extraterrestres conseguem o grande desejo da humanidade a séculos: a paz mundial. A guerra então é travada entre os “mentores” da operação e os poucos que descobrem o que está acontecendo e que relutam a se “converter” afinal de contas qual a vantagem se viver em um paraíso sem vida. Curioso é que os protagonistas desde o início já parecem infectados tamanha a vitalidade de seus personagens. Pudera os problemas de bastidores já indicavam que o longa seria um grande erro e para os atores as filmagens devem ter sido como um castigo. Inicialmente ele seria lançado em meados de 2006, o que não seria bom visto que o já citado Guerra dos Mundos ainda colhia louros e xingos em proporções semelhantes e qualquer coisa envolvendo ficção científica corria risco de rejeição. O atraso de um ano por outro lado só ajudou a fomentar o fracasso da produção com mudanças drásticas na direção. Com o sucesso de A Queda – As Últimas Horas de Hitler, o cineasta alemão Oliver Hirschbiegel foi seduzido rapidamente por Hollywood. Em seu projeto de estreia em terras novas ele pretendia não abandonar seu estilo. Oriundo de um cinema mais intelectual, sua intenção era subverter os clichês da ficção científica para um drama com pano de fundo perturbador. Para tanto, o primeiro ato é dedicado a desenvolver o universo dos personagens principais, uma forma de torná-los íntimos do espectador que deveria sofrer com os infortúnios que iriam acontecer. No entanto, depois de uns 10 ou 15 minutos pouco nos importamos com os tipos que vemos na tela, mas não podemos culpar totalmente Hirschbiegel ou Kajganich. Provavelmente o filme que eles idealizavam era outro, mas tiveram que ceder à pressão do estúdio. A versão original foi considerada lenta demais para atrair o público ianque aos cinemas e consequentemente atrapalharia as bilheterias em outros países. Contudo, as mudanças exigidas não surtiram efeito. Ficando longe de recuperar ao menos metade do seu orçamento nos cinemas norte-americanos, o filme já chegou baqueado em outras regiões.

Os irmãos Larry e Andy Wachowski foram recrutados para reescrever trechos do roteiro e algumas cenas adicionais foram comandadas por James McTeigue, mesmo trio de V de Vingança, mas nenhum deles recebeu crédito pelo trabalho. Seria um detalhe esquecido na edição final ou simplesmente eles mesmos exigiram a omissão? A segunda opção parece fazer mais sentido. Estava na cara que o projeto não sairia ileso de críticas pesadas. Não que o filme seja horrendo por completo. Até tem alguns bons momentos de suspense, mas no geral deixa a desejar e é perceptível as cenas dirigidas por Hirschbiegel e as que foram feitas a toque de caixa por McTeigue que preocupado em injetar adrenalina no marasmo esqueceu-se de orientar seus atores. Kidman deveria mostrar-se inexpressiva propositalmente para sua personagem se misturar à massa e não se tornar um alvo em potencial, mas na intimidade do lar deveria relaxar, no entanto, Carol parece insossa desde sua primeira cena em seu consultório. O mesmo acontece com Craig que tinha a responsabilidade de atrair os “bondimaníacos” já que este era seu primeiro longa após o estrondoso sucesso de sua aventura de estreia como o agente 007. E o que dizer do Dr. Galeano (Jeffrey Wright)? Toda a trama deveria ser construída em torno deste cientista, um estudo sobre sua mente privilegiada que em pouquíssimo tempo destrincha toda a origem e particularidades da tal epidemia, inclusive apontando quem pode ser imune e sua solução, tudo traduzido naqueles discursos decorados cheios de termos científicos. A rapidez com que os infectados manifestam reações também não contribui para dar credibilidade a uma trama que desperdiça um bom argumento que poderia refletir medos do século 21, como a Guerra ao Terror. Estaria a população mundial tão defasada mentalmente que não teria capacidade de compreender uma história alegórica? Não foi isso que os resultados em bilheterias e críticas mostraram. Todavia, quem desconhece os filmes anteriores e o livro que os originou, além de ser aquele espectador que se contenta com pouco, pode até se divertir com Invasores que se resume a rápida saga de uma mãe em busca do filho. Diante do fiapo de história, depois a obsessão é encontrar um lugar seguro.  Não há nada de errado propriamente com a ideia básica do longa, mesmo dispensando algum tipo de subtexto relevante, mas o problema é sua realização. O vírus alienígena parece ter contagiado toda a produção e isso se refletiu na obra.

Suspense - 99 min - 2007

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