segunda-feira, 28 de julho de 2014

MORTE NO FUNERAL (2010)

NOTA 6,0

Refilmagem americana de comédia
inglesa pode divertir quem não
conhece a original, mas obra perde
pontos por limitar-se a fazer uma cópia
Antigamente eram muito comuns aquelas comédias em que durante reuniões familiares a câmera passeava ocultamente entre os diversos espaços da ambientação a fim de bisbilhotar os momentos mais íntimos e vexatórios dos convidados e anfitriões até culminar em um desfecho em que as diversas tramas se fundiam para o pronunciamento da mensagem-clichê de que família é tudo, é preciso esquecer as mágoas e todo esse blá-blá-blá meloso. Para fazer humor essa tática é um prato cheio, mas a fórmula nem sempre é bem aplicada e hoje em dia ela sobrevive em Hollywood graças às comédias feitas com elenco predominantemente negro. Praticamente todo ator afrodescendente bem-sucedido que construiu carreira no cinema ianque tem ao menos um exemplar do tipo em seu currículo, geralmente produções que marcam suas principais experiências profissionais. Vendo por esse lado, por que então atores consagrados toparam participar do remake de Morte no Funeral? Comédia de humor negro de origem inglesa e que fez sucesso no circuito alternativo de vários países, não havia uma justificativa plausível para a realização de uma versão americana, ainda mais depois de apenas três anos do lançamento do filme original. Existe a desculpa que o público da terra do tio Sam não curte legendas e tampouco dublagens (um doce para quem revelar qual a grande diferença entre o inglês usado na Inglaterra e o praticado nos EUA), mas ao que tudo indica é que os profissionais hollywoodianos não suportam ver o sucesso de outro país naquele que antes era seu terreno seguro. Filmes-pipoca são símbolos da cultura norte-americana e deve ser um baque e tanto quando o produto alheio é melhor. O ator Chris Rock, em parceria com Aeysha Carr, tratou de adaptar o roteiro original de Dean Craig, mas basicamente só mudou os nomes dos personagens e nem se deu ao trabalho de procurar outro ator para viver um tipo-chave da trama. Aaron (Rock) é um rapaz íntegro e responsável que está apreensivo para a cerimônia de funeral do pai. Como filho mais velho ele se encarregou de tudo, inclusive redigir um belo discurso para homenageá-lo, enquanto seu irmão Ryan (Martin Lawrence), um escritor de sucesso e que esbanja dinheiro com futilidades, parece pouco ligar para a perda da família.

Aparentemente os irmãos se dão bem, apesar de Aaron se ressentir de também não ter conseguido sucesso como escritor por priorizar cuidar da família, ainda mais sabendo que Ryan ganha a vida escrevendo porcarias, só que o clima entre eles esquenta por causa das despesas do funeral, mas nada que se compare ao que está por vir. Com parentes e amigos reunidos, muitas situações inusitadas começam a acontecer e impedem que a cerimônia siga tranquila e cumprindo os trâmites tradicionais. Mágoas, picuinhas, vexames e até um pequeno grande segredo revelado vão fazer o roteiro de Aaron para a cerimônia cair por terra. Oscar (James Marsden) está apreensivo porque vai reencontrar Duncan (Ron Glass), o pai de sua namorada, Elaine (Zoe Saldana), mas eles não se bicam talvez pelo fato do rapaz ser um branquelão. A garota o incentiva a tomar uma espécie de calmante que é tiro e queda, mas na verdade o cara fica doidão, pois o frasco que ela pega está cheio de comprimidos alucinógenos que seu irmão Jeff (Columbus Short) ia entregar a um cliente antes do velório. Quando chegam à casa do falecido, Elaine encontra o primo Norman (Tracy Morgan), um sujeito neurótico com doenças e que trouxe o não menos complicado tio Russell (Danny Glover), um idoso resmungão e mal educado, mas que depende da caridade dos outros já que está preso a uma cadeira de rodas. Junto com eles veio Derek (Luke Wilson) apenas para fazer companhia ao amigo, mas já que encontrou Elaine, sua ex-namorada, por que não tentar reconquistá-la? Enquanto isso, Michelle (Regina Hall), a esposa de Aaron, tenta engolir as provocações de Cynthia (Loretta Devine), sua sogra que mesmo recém-viúva está com a língua afiada e reclama da falta de netos. A moça está louca para engravidar para ver se a relação entre elas melhora, embora não veja a hora que o marido coloque as mãos na herança para poderem deixar a casa dos pais dele. Dos males esses são os menores, pois o pior ainda está por vir quando surge Frank (Peter Dinklage), um pequenino e misterioso homem que ninguém sabe o porquê de estar presente na cerimônia. Seria melhor que eles nem ficassem sabendo o motivo. Comparando com a sinopse do original, o filme é exatamente o mesmo do início ao fim. Até a animação que acompanha os créditos iniciais mostrando o trajeto de um caixão até o velório foi copiada.

Quem teve a oportunidade de assistir ao longa britânico dirigido por Frank Oz deve ficar incomodado ao assistir a versão americana assinada pelo diretor Neil LaBute, bem mais inspirado na comédia A Enfermeira Betty. A sensação é de ser enganado. Gastar tempo ou dinheiro para ver um repeteco que apesar de bem realizado parece não ter vida própria e tentar ao máximo copiar sua fonte. Por outro lado, quem não assistiu a comédia original deve se divertir com a obra que atende as expectativas (talvez até supere) de quem se sentir atraído pelos nomes de Lawrence e Rock nos créditos, mestres na arte de fazer rir lançando mão de trejeitos e expressões faciais exagerados. Além disso, é difícil não reconhecer o perfil de algum parente ou conhecido em cena, o que é um ponto positivo do filme. Qualquer reunião familiar tem ao menos uma fofoca, mico ou barraco, assim a identificação do espectador é imediata. O problema é que além dos conflitos se repetirem, os atores parecem atuar no piloto automático ou buscarem desesperadamente o tom alcançado pelos intérpretes britânicos, mas no final das contas os personagens parecem demasiadamente unilaterais. Sem conseguir manter a mesma classe e o tom sarcástico da produção europeia, praticamente tudo na refilmagem de Morte no Funeral tem cara de deboche e o fato de uma família negra bem numerosa ser a protagonista da história contribui para a produção ganhar um tom de deja vu. A opção deixa clara a tentativa de atrair um público mais amplo e popular apelando para uma fórmula já consagrada até mesmo na TV, o que agrega ao produto um estilo de episódio de seriado esticado. Dinklage é o único que oferece o verdadeiro tom de humor negro que fez a fama do longa britânico. Pudera, seria o cúmulo errar a mão interpretando o mesmo papel e se bobear até as falas não tem uma vírgula de diferença. E como explicar a presença do veterano Danny Glover em um papel tão aquém de seu talento? O resto do elenco está razoável com os picos de exagero já esperados nas comédias ianques, mas curiosamente o público dos EUA não deu muito atenção ao filme que chegou diretamente em DVD em vários países, como o Brasil, e inevitavelmente carregando aquela publicidade extra e ingrata de que é uma produção legítima do tipo caça-níquel. Regrinha básica para os amantes de cinema: cuidado com as cópias. Prefira sempre o original.

Comédia - 92 min - 2010 - Dê sua opinião abaixo.

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