sábado, 5 de julho de 2014

SOB A LUZ DA AMÉRICA

Nota 5,0 Longa busca abordar relacionamentos entre culturas de forma menos romanceada

Efeito da globalização, cada vez mais empresas estrangeiras estão se aliando ou prestando serviços para companhias norte-americanas, o que pode acabar ocasionando a aproximação de culturas e de seus membros. De olho nisso, nos últimos anos muitos filmes tem abordado as estreitas relações entre os EUA e a Índia, obviamente na expectativa de explorar respectivamente a sedução do estilo de vida propagado pelo primeiro e o exotismo das tradições do outro. Sob a Luz da América é uma produção indiana que tem uma premissa bastante previsível, mas seu desenvolvimento aponta para outros caminhos que dependendo do ponto de vista podem soar como preconceituosos para o próprio país oriental. Na trama escrita por Farrukh Dhondy, Sujata Khanna (Koel Purie) é uma jovem que como tantas outras indianas sonha com uma vaga em um serviço de call center, aparentemente a melhor opção do país para quem tem pouco estudo. A grande chance chega e ela é contratada por uma empresa que presta serviços terceirizados para uma companhia de cartões de créditos americana. Ela até ganha um novo nome, Sue, para não criar desconfianças entre os clientes e passa por um curso intensivo de cultura e idioma ianque, tudo para disfarçar o perfil do funcionário e quem estiver do outro da linha não descobrir que está sendo atendido por uma pessoa que está há milhares de quilômetros da agência matriz. No entanto, o insistente Lawrence Stokowski (Nick Moran) consegue arrancar de Sue informações sigilosas sobre o trabalho. Ela é a primeira a atendê-lo na ocasião em que fica atônito com o exagerado número de gastos creditados em seu cartão no último mês. A partir de então de olho na conta, para evitar toda vez ter que repetir dados de segurança ele exige ser atendido por Sue e o roteiro forçosamente sempre dá um jeito de o rapaz conseguir falar com a jovem, mais adiante até consegue manter contato por um telefone fora do call center. De qualquer forma, ele não é uma pessoa ruim, só quer evitar que Zelda (Jennifer Seibel), sua ex-esposa, o leve a falência, mas conforme seu envolvimento com a atendente avança a trama começa a ganhar contornos de suspense, culminando na coincidência dele ter que viajar a trabalho para a Índia.

Buscando uma conexão entre Nova York e Nova Delhi, a obra erroneamente é considerada por muitos uma comédia romântica, provavelmente guiados pela medíocre ideia de que casamentos entre culturas só podem resultar em situações humorísticas. O diretor Roger Christian, mais do que contar uma história de amor moderna, diga-se de passagem, que não convence muito, propõe um registro crítico da atualidade (ainda válido mesmo a fita sendo de 2004). Quem não tem cacife para mandar não resta outra escolha que obedecer, assim o serviço terceirizado indiano precisa ter todo seu quadro de atendentes domesticado à moda ianque e a maioria trabalha em períodos noturnos para coincidir com o horário comercial americano devido a mudança de fuso horário. Apesar de pouco a pouco perderem suas identidades, os funcionários suportam a dura rotina, pois apesar de ganharem uma miséria ainda assim faturam bem para os padrões do país. Patrap Meha (Vijay Raaz), supervisor do call center, sente muita estima por Sue e tenta lhe passar grandes ensinamentos, mas não faz questão alguma de esconder sua decepção com o trabalho. Antes também um atendente de telefonemas, ele pontua a narrativa com pensamentos críticos a respeito do ofício e das vidas vazias dos clientes riquinhos americanos. A garota, por sua vez, tem fantasias a respeito do modo de vida de quem atende, o que justifica seu rápido enlace com um desconhecido, mas ela passa raspando pelo estereótipo de mocinha ingênua. Sua realidade cativa o espectador a acreditar que o filme vai além de um romance água-com-açúcar. Sofrendo com a mãe tuberculosa, ela ainda tem que se esquivar das ameaças de Ashok (Dayashankar Pandey), seu irmão alcoólatra e metido com gente barra pesada. Dirigido por Roger Christian, da horrenda ficção científica A Reconquista, o grande trunfo de Sob a Luz da América também acaba sendo seu problema. Ao enveredar pelos caminhos de trama policial, o romance perde força e o final reforça a preconceituosa ideia de que terras exóticas são terras sem leis. Participante de alguns festivais de cinema menores, o longa não é ruim, até pode surpreender levemente. Sem dúvidas tem conteúdo relevante, porém, a forma escolhida para apresentá-lo deixa a desejar.

Suspense - 98 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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