quarta-feira, 2 de julho de 2014

UM SEGREDO ENTRE NÓS

NOTA 4,0

Premissa simples é prejudicada
pelas confusas relações estabelecidas
entre os vários personagens e o tal
segredo fica para o espectador deduzir
Não basta apenas um nome de prestígio estampando a publicidade de um filme. Sua imagem em evidência também é essencial. Trazer o rosto de Julia Roberts super destacado poderia atrair multidões, mas o caso de Um Segredo Entre Nós prova que surpresas negativas acontecem, porém, em muitos casos são justificáveis. Poderiam colocar a culpa do fracasso no fato do filme ter sido lançado com anos de atraso (no Brasil estreou antes dos EUA), mas a verdade é que a publicidade em torno da eterna linda mulher soa neste caso como enganosa. Seu rosto em close e em tamanho grande foi usado nos pôsteres e capas do DVD deste drama escrito e dirigido por Dennis Lee, mas sua participação na trama deve somar cerca de apenas dez minutos, apesar da narrativa ser construída em torno de seu papel. Ela dá vida à Lisa Taylor, uma dona de casa que estava feliz por comemorar sua tardia graduação na faculdade, mas um fatídico acidente muda completamente o clima amistoso e acirra uma antiga rixa entre seu marido Charlie (Willem Dafoe) e o filho do casal, Michael (Ryan Reynolds). O argumento é simples, mas Lee tentou ir além de sua capacidade e complicou desnecessariamente a trama adicionando personagens demais e um vai e vem no tempo que testa a paciência do espectador que tende a se confundir nos minutos inicias. Acontecimentos envolvendo o trio de personagens dentro de carros tratam de fazer um elo entre passado e presente, mas só tomamos conhecimento disso depois que estamos mais familiarizados com os personagens. Desde a infância Michael (então vivido por Cayden Boyd) era constantemente testado e afrontado por seu esquentadinho pai para quem qualquer coisa era motivo de discussão. O jeito de ser de Charlie está ligado à frustração de não conseguir se tornar um escritor e ter que se contentar com a rotina de professor universitário. Quando já era um pré-adolescente, Michael se torna muito amigo de sua tia Jane (Hayden Panettiere) que se hospeda na casa da família para passar uma temporada que se estende a perder de vista. A pouca diferença de idade ajudava na aproximação. Anos mais tarde, já adulto, o menino se tornou um escritor de sucesso e estava voltando à sua cidade natal para a formatura de sua mãe. Sua irmã Ryne (Shannon Lucio) o recepciona feliz no aeroporto, mas no momento em que estão se aproximando da casa da família observam uma movimentação estranha. Devido a uma freada brusca, Lisa faleceu e Charlie que estava dirigindo foi internado no hospital, mas apenas para cuidar de alguns ferimentos leves.

A tragédia força Michael a ficar em sua antiga casa por mais tempo do que gostaria, assim é inevitável bater de frente novamente com o pai, reencontrar Jane (agora vivida por Emily Watson), que não parece mais a mesma amiga de outrora, e ainda lidar com a depressão que se abate sobre o filho dela, Christopher (Chase Ellison), que se sente responsável pelo acidente que matou Lisa, acreditando que desviou a atenção de Charlie quando estava brincando na rua. Completando o elenco temos Carrie Anne Moss como Kelly, a ex-esposa do escritor que reaparece para prestar condolências e deixa no ar que ainda existe sentimento entre eles; George Newbern vive Jimmy, o marido de Jane que recebe o sobrinho amistosamente; a pequena Brooklynn Proulx é Leslie, irmã de Christopher; e, por fim, Ioan Gruffudd faz rápidas aparições como Addison, também escritor muito amigo de Lisa. As duas linhas narrativas e de tempos distinto são trabalhadas paralelamente de forma a levar o espectador a compreender melhor as raízes dos problemas desta família. Michael sofreu muitos maus tratos do pai na infância, torturas psicológicas e físicas, mas por outro lado foi mimado à exaustão pela mãe. Seria fácil retratá-lo quando adulto como alguém depressivo ou até mesmo homossexual, mas o enredo foge dos clichês e o apresenta como alguém bem-sucedido e que tentou constituir sua própria família longe das tristes lembranças, apesar de que seu semblante cabisbaixo é onipresente. Mais conhecido por atuações em comédias e romances, Reynolds surpreende com um personagem contido em postura e olhares, mas que deixa transparecer toda a dor que a falta de uma boa relação com o pai lhe trouxe. A certa altura ele até toma coragem e pergunta à Charlie o que aconteceu já que não acredita que sempre existiu esse abismo entre eles, mas não obtém resposta. A questão é facilmente deduzida para quem tem um mínimo de noção sentimental.  Homens como Charlie cresceram com a ideia de que um chefe de família deve servir como imagem a ser seguida pelos filhos, mas no caso houve uma inversão. O filho conseguiu sucesso como escritor e o pai somente alimentou sua frustração por não ter atingindo o mesmo objetivo, afastando-se cada vez mais da família com seu jeito abrupto de ser.

Embora Christopher aparentemente tenha uma boa relação com seu pai, sua introspecção acaba o aproximando de Michael que tenta a todo custo evitar que a vida do primo não seja atrapalhada por traumas da infância como aconteceu com a sua. O escritor sabe que o garoto não tem culpa, tem consciência de que diversos fatores colaboraram para a morte de sua mãe, um destino que já vinha sendo traçado há anos. Situações como quando ainda pequeno ameaçou bater no pai para defender Lisa apenas retardaram uma tragédia em família que veio a acontecer com o aval de ser apenas uma fatalidade que poderia acontecer com qualquer um. Neste momento de fragilidade, poderia existir a chance de Michael e Charlie se reconciliarem devido ao sentimento de perda, mas o jovem amargurado está prestes a estremecer ainda mais as coisas prometendo a publicação de um livro que contará segredos avassaladores sobre sua disfuncional família. Diálogos dão a entender que o escritor e sua tia tiveram um romance no passado, mas ela diz que as revelações do manuscrito poderiam destruir o pai dele, no entanto, jamais descobrimos o que havia de tão significante nestas páginas. O personagem Addison surge aparentemente sem função, mas para os mais atentos fica a dica de uma previsível revelação que também é tratada de forma passiva. Dessa forma, é quase impossível não ter a sensação de ter desperdiçado seu tempo ao término de Um Segredo Entre Nós. Apesar do início confuso, aos poucos conseguimos compreender as ligações entre os personagens cujos dramas a maioria conhecemos superficialmente. Além da falta de informações, prejudica o envolvimento extremamente frio entre os membros da família, até mesmo entre aqueles que pouco ou nada tem a ver com o tal passado trágico. Ainda assim tais perfis conseguem cativar o espectador a ponto de acreditar que na reta final uma reviravolta irá acontecer, sensação acentuada pela narrativa não cronológica que ajuda a aumentar o interesse, mas Lee derrapa justamente por não apresentá-la, aliás, literalmente queima seu grande trunfo. Para um filme vendido como semi-autobiográfico e centrado na complexidade dos relacionamentos especialmente após a vivência de uma tragédia, ficou faltando emoção ao longa inspirado no poema “Vaga-Lumes no Jardim”, de Robert Frost, título original da fita e também do livro que Michael lançaria. Como consolo, resta a lembrança da já citada boa interpretação de Reynolds e também de Dafoe que tira de letra a construção de personagens perturbados.

Drama - 99 min - 2008

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