domingo, 31 de agosto de 2014

OS PEQUENINOS

Nota 7,5 Apesar de previsível para agradar crianças, longa conquista adultos com sua nostalgia

Qual criança nunca imaginou que pequenas criaturas podem habitar o interior das paredes ou do chão da sua casa? Tal fantasia povoa o universo infantil há décadas tanto que em meados dos anos 50 a escritora Mary Norton sentiu-se instigada a desenvolver tal argumento dando origem a fábula “The Borrowers”, que também é o título original do filme dirigido por Peter Hewitt que no Brasil ganhou a genérica alcunha de Os Pequeninos. Em inglês o nome tem um significado mais irônico, algo traduzido como “aqueles que tomam emprestado”, e realmente é quase isso que eles costumam fazer. Medindo aproximadamente dez centímetros, eles têm facilidade para entrar sorrateiramente na casa dos humanos e fazer alguns empréstimos de objetos, mas que na verdade jamais são devolvidos. Tudo o que colocam as mãos eles inventam uma maneira para aproveitar em suas casas, ou melhor, casa. Sim, no singular mesmo. Aparentemente ao longo dos anos o grupo destes pequeninos homenzinhos acabou se dissipando até que sobrou apenas a família Clock cujo patriarca, o Sr. Pod (Jim Broadbent), luta diariamente para manter a sobrevivência de todos. Constantemente ele acompanha seus filhos Arrietty (Flora Newbigin) e Peagreem (Tom Felto) no trajeto até o interior da casa da família Lender, de quem são de certa maneira vizinhos ou até mesmo inquilinos, em busca de alimentos e bugigangas conquistados através de planos meticulosamente estruturados como se fossem planos de guerra ou resgate, mas a fonte está para secar. Joe (Aden Gillett) e Victoria (Doon Mackichan) se surpreendem ao escutarem da boca do advogado Ocious P. Potter (John Goodman) que sua tia recém-falecida não fez um testamento comprovando que ela deixava para eles a casa onde vivem, mas o casal jura que tal documento existe, porém, se não for encontrado rapidamente eles perderão o direito de reivindicar a propriedade. Na verdade trata-se de uma trapaça do inescrupuloso e rechonchudo advogado que não vê a hora de demolir a residência e construir no lugar a “Pottersville”, um espaço que abrigaria mais de vinte famílias bem de vida onde atualmente apenas um clã decadente reside.

sábado, 30 de agosto de 2014

ATAQUE TERRORISTA

Nota 6,0 Longa mostra como Londres usou a luta contra o terror para exorcizar sua xenofobia

Assim como a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e a Guerra Fria parecem ser temas históricos, políticos e sociais infinitos, quando menos se espera surge algum dado novo ou história interessante que ajudam a preencher lacunas importantes, os ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas e a Guerra ao Terror que se seguiu parecem também que vão render muitos filmes ainda. Com o excesso de produções do tipo é normal que as classificadas como excelentes se tornem raridades, medianas tenham aos montes e as ruins surjam às pencas, mas será que aquilo que não nos agrada é necessariamente desprovido de qualidades? Na verdade não. O que acontece é que a tendência é não nos surpreendermos mais com a temática e já estamos em uma fase que é até possível prever os eventos das tramas como é o caso de Ataque Terrorista. Com roteiro de Carl Austin baseado na história original do indiano Jag Mundhra, este também que assina a direção, o filme começa com uma breve explanação do contexto em que a trama é desenvolvida. Poucos meses após os fatídicos atentados que abalaram as estruturas norte-americanas, a cidade de Londres, na Inglaterra, também se tornou um ponto visado por terroristas e a polícia local adotou a chamada Operação Kratos, estratégia de atirar à queima-roupa para matar suspeitos, ou seja, qualquer pessoa com pele mais morena ou traços característicos árabes podia se tornar uma vítima inocentemente. Um jovem com este perfil estava sendo seguido pela polícia e acabou sendo assassinado no metrô ao reagir a voz de prisão. Na realidade, ele levou a mão no bolso apenas para desligar seu toca-músicas que o distraiu e impediu de perceber o alvoroço que estava o local com a ameaça da presença de um terrorista. Como a tática de matar suspeitos sem provas ou ameaças concretas de envolvimento com atividades terroristas estava ganhando ares de crime preconceituoso, a aversão a muçulmanos, a imagem da polícia londrina estava ficando manchada e todos na corporação apreensivos com este novo caso já que autoridades, imprensa e a própria população cobrariam a punição de um responsável.  O inspetor Harry Marber (Ralph Ineson) foi quem matou o rapaz e precisa urgentemente encontrar evidências que comprovem que a vítima era um terrorista.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

PERFUME - A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO

NOTA 9,0

A premissa parece absurda,
mas suspense épico revela-se
uma grata surpresa que recicla
o perfil do assassino em série
As qualidades técnicas dos filmes avançaram tanto nos últimos anos que pensar no cinema como uma simples atividade visual ou auditiva é coisa do passado. Câmeras de alta definição tratam de captar com perfeição as imagens de tal forma que é quase possível se ter a sensação do toque em um tecido ou sentir a textura de uma parede, por exemplo. Com o apuro visual e capricho da direção de arte também é possível buscar em nossas memórias gustativas o sabor que teria as iguarias servidas em banquetes e festas dos filmes. E quanto ao cheiro? Seria possível trazer essa sensação das telas para o espectador? Bem, hoje em dia temos salas de cinema que oferecem climatizações, sacolejos nas cadeiras e uma borrifada de essências em momentos estratégicos para perfumar o espaço já não espanta mais ninguém. Não duvide que logo surja alguma engenhoca para reproduzir as mesmas sensações no aconchego do seu lar. Bem, tomara que as coisas não cheguem a tal ponto, caso contrário produções como Perfume – A História de um Assassino perderão boa parte de seu charme e qualidades. A obra é baseada no romance “Das Parfum” do alemão Patrick Süskind lançado em 1985 e que rapidamente tornou-se um best-seler e vendeu mais de 15 milhões de cópias em todo o mundo ao longo de duas décadas, mas certamente os números devem ter aumentado consideravelmente com o lançamento do filme em 2006. Se o livro era um sucesso desde a primeira tiragem, por que a demora para sua adaptação para o cinema? Os bastidores poderiam render um filme à parte (como de fato aconteceu), mas antes de mais nada vamos esmiuçar o fascinante roteiro de Andrew Birkin, Bernd Eichinger e Tom Tykwer, este que também assina a direção e tinha a difícil missão de surpreender o público tal qual fez com o cultuado Corra, Lola, Corra. Com narração pontual do início ao fim como uma fábula, a história se passa em Paris, na França, em meados do século 18 e narra a trajetória de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Winshaw) desde seu difícil nascimento. Sua mãe vendia peixes em uma fétida feira e pariu o filho ali mesmo, mas sem ter como sustentar a criança estava decidida a abandoná-lo. Delatada por outros comerciantes, ela acabou sendo executada na forca. Esse detalhe é importante porque a morte sempre rondou a vida deste rapaz que cresceu em um orfanato, mas aos 13 anos foi vendido para trabalhar em um curtume. Sempre que se separava de alguém esta pessoa vinha a falecer, no entanto, Grenouille parecia ser dotado de características especiais que lhe ajudavam a vencer adversidades como a dura vida na fábrica de couros cujas químicas empregadas limitavam a vida de um trabalhador para no máximo cinco anos, mas ele quebrou tal paradigma e se tornou um exemplo de superação.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O LUTADOR (2008)

NOTA 8,5

Drama aborda as dificuldades
para quem já esteve no topo se
adaptar a ser alguém comum ou
optar pelo caminho da superação 
Há momentos em que um ator está em estado de graça e tem a sorte de abocanhar papeis que parecem ter sido talhados a seu perfil, não só em termos físicos, mas também psicológicos e às vezes até as trajetórias de ambos parecem guardar semelhanças. Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo local, portanto, quando isso acontece é preciso aproveitar.  Mickey Rourke surgiu nos anos 80 como promessa de galã e talento e realmente estava atendendo às expectativas, mas na década seguinte sua decadência aconteceu em velocidade impressionante. No entanto, suas próprias experiências de vida é que elevam o nível de O Lutador que apesar do título não é um filme focado em combates, mas sim em contar uma história humana e universal baseada em conceitos de superação. O ator dá vida à Randy “The Ram” Robinson, um lutador de enorme sucesso há alguns anos, mas duas décadas depois do seu auge sua imagem nada lembra os tempos de glória. Sem dinheiro, sozinho e sendo consumido pelo remorso de ter abandonado sua única filha, Stephanie (Evan Rachel Wood), ele sobrevive participando de lutas amadoras e para público sádico e reduzido que lhe garantem o dinheiro para pagar seus vícios e vida louca. No entanto, um enfarto o obriga a se aposentar dos ringues de vez e nesse momento ele busca consolo no colo de Cassidy (Marisa Tomei), uma stripper que o compreende perfeitamente porque também já está em uma idade que mais cedo ou mais tarde lhe custará a dispensa. Ela o aconselha a ir procurar sua filha e dar novos rumos profissionais à sua vida e assim começa a grande luta de Randy na qual o adversário é ele mesmo que precisará se conscientizar de que os tempos mudaram e que ele não é sequer uma boa lembrança no mundo dos esportes. É interessante observar que além dos dois ganharem dinheiro com o corpo e a idade ser um empecilho para continuarem com suas atividades, ambos usam nomes falsos profissionalmente, escondendo as reais identidades de Robin e Pam. Ela assume outra personalidade por vergonha de seu trabalho, mas para ele o fardo é maior. Ostentar o codinome é uma forma ilusória de acreditar em sua importância, mesmo sendo um ilustre desconhecido que para pagar suas contas também se dedica a um emprego de carregador em um supermercado. No entanto, com a aproximação do aniversário de vinte anos da luta que o consagrou, surge o convite para um novo embate com seu maior rival, Aiatolá (Ernest Miller), o que lhe deixa tentado a desobedecer as orientações médicas.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

DANÇA COMIGO?

NOTA 7,0

Apesar do pano de fundo do
mundo da dança, longa fica
devendo em alegria e emoção, mas
ainda assim agrada as mulheres
Hollywood não admite que exista cinema rentável ou criativo fora de seus domínios? Seria puro bloqueio criativo dos profissionais ianques que precisam abastecer o mercado cinematográfico mesmo que à base de repetecos? Podem ser as duas razões, mas o fato é que os executivos norte-americanos do ramo não podem ver uma produção estrangeira fazendo sucesso, seja de crítica e/ou público, que logo correm atrás dos direitos sobre o texto para agilizar um remake. A medida objetiva descaradamente lucrar com facilidade já que se investe em um produto previamente testado, com publicidade engatilhada e com o bônus (ou seria ônus?) de algumas vezes o filme original pertencer ou cair no gosto do circuito alternativo, o que traz certa aura de intelectualidade à refilmagem. Se esse último item alimenta o ego dos espectadores de filmes-pipoca, para os mais “cabeças” já é um motivo para dispensar uma conferida na nova versão e foi mais ou menos dessa maneira que o público se comportou diante de Dança Comigo?, comédia romântica decalcada de um longa homônimo japonês lançado em 1996. Seja lá qual era a empresa ou empresário que detinha na época os direitos de explorar o filme original, o fato é que ele não foi disponibilizado no mercado para aproveitar o gancho de uma versão ianque ou talvez foi proibido de circular justamente para evitar comparações já que as refilmagens costumam ser adaptadas para a realidade da terra do tio Sam e servidas com elenco estrelar para escamotear defeitos. Bem, a estratégia deu certo e o longa caiu rapidamente no gosto popular, principalmente o feminino, e deu o pontapé inicial a uma frutífera corrente de produções cujo mundo das danças serviu para alicerçar tramas previsíveis e açucaradas. Baseado na obra de Masayuki Suo adaptada por Audrey Wells, do também cultuado pelas mulheres Sob o Sol da Toscana, o roteiro traz Richard Gere aproveitando sua fama de pé de valsa pouco tempo depois de colher elogios pelo musical Chicago. Ele dá vida ao advogado John Clark que está passando pela famosa crise da meia-idade e levando uma rotina da casa para o trabalho e vice-versa. Apesar de bem-sucedido profissionalmente, amar sua esposa Beverly (Susan Sarandon) e se dedicar ao máximo aos filhos, ele acredita que está faltando algo em sua vida para ser feliz completamente.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

PERGUNTE AO PÓ

NOTA 6,0

Apesar das qualidades técnicas
e do bom argumento, drama se perde
em suas próprias pretensões e a
duração parece ser o dobro do real
Às vezes ouvimos falar sobre o começo da produção de algum filme e de repente em questão de poucos meses ele já está sendo lançado. Chama a atenção que até obras que exigem apuro técnico maior por conta de sequências de ação ou efeitos especiais também ficam prontas com rapidez assustadora, assim é de se estranhar que alguns filmes aparentemente simples fiquem anos sendo preparados em banho-maria. O roteirista e diretor Robert Towne em 1973 estava fazendo pesquisas sobra a Grande Depressão para o texto de Chinatown quando conheceu o escritor John Fante e se interessou em adaptar um de seus livros que abordavam o mesmo período. Pergunte ao Pó, título homônimo da obra literária, levou mais de três décadas para ser finalizado, um trabalho de muita dedicação para tentar capturar com fidelidade a atmosfera contida nas páginas que narram os prazeres e desventuras de um jovem escritor italiano tentando sobreviver com sua arte em uma cidade americana pouco receptiva com os estrangeiros. Em meados da década de 1930, em Bunker Hill no subúrbio de Los Angeles, os tempos são difíceis com a recessão econômica e o clima seco e o sol escaldante castigam ainda mais a população local que luta para conseguir emprego e sonha com a ascensão social. Arturo Bandini (Colin Farrell) é um escritor ambicioso que se mudou para lá em busca de inspiração para escrever aquele que seria seu grande romance norte-americano, a obra que lhe proporcionaria fama, dinheiro e consequentemente mulheres. Todavia, falta-lhe a experiência de vida necessária para criar boas histórias, assim em pouco tempo ele está contando seus últimos centavos e vivendo em um quarto de hotel frequentado predominantemente por fracassados. Sem conseguir ideias para um livro, ele escreve contos sobre o cotidiano da cidade e os envia para algumas revistas literárias, assim consegue alguns trocadinhos quando já estava quase tendo que roubar leite para não passar fome. Para se dar um último luxo, o rapaz decide ir a uma cafeteria onde conhece a garçonete mexicana Camilla Lopez (Salma Hayek), um encontro que trará uma série de reviravoltas para seu cotidiano vazio. Mesmo com um desentendimento logo de cara, ele passa a visitar o local com mais frequência e a vivenciar uma tumultuada relação amorosa com a moça, ambos atraídos pelo sentimento de inadequação. Os dois são imigrantes e numa época de crise qualquer estrangeiro é visto como ladrão das poucas vagas de emprego existentes.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

CONFIDENCE - O GOLPE PERFEITO

NOTA 3,0

Repetindo todos os clichês
possíveis de filmes acerca de
golpistas, longa é enfadonho e
parece cheirar a naftalina
Alguém ainda se interessa por filmes a respeito de golpes milionários? Infelizmente a resposta é sim. Existem alguns bons filmes do tipo, mas por ser um argumento que atinge em cheio o gosto popular exemplares da categoria são feitos aos montes, principalmente para abastecer o mercado doméstico. Quantidade não significa qualidade, nem mesmo quando há um elenco estelar em cena. Nos anos 2000 o diretor Steven Soderbergh revitalizou tal subgênero com Onze Homens e Um Segredo, mas após duas sequências nos mesmos moldes mais uma vez o filão foi esvaziado. De qualquer forma, o sucesso da trilogia fez com que filmes com temática semelhante ganhassem sinal verde para serem produzidos como é o caso de Confidence – O Golpe Perfeito, suspense com elenco de peso, trama aparentemente envolvente e... Totalmente esquecível. O longa do diretor James Foley, do elogiado O Sucesso a Qualquer Preço, se serve do maior número possível de clichês e o resultado datado é arrematado com a última cena emendando com os créditos finais embalados pela música “Clocks” do Coldplay em versão extremamente abafada. Parece até que era uma produção dos tempos do VHS que foi passada para o DVD. O roteiro do estreante Doug Jung gira em torno de uma quadrilha liderada por Jake Vig (Edward Burns), um trambiqueiro cheio de estilo que junto com os comparsas Gordo (Paul Giamatti) e Miles (Brian Van Holt) arquiteta bem bolados planos para despistar a polícia. Sempre depois que aplicam um golpe o grupo simula um confronto sangrento entre eles mesmos para assustar a vítima e a desencorajá-la de fazer qualquer tipo denúncia. Sem recorrer a violência de verdade, a conta bancária destes vigaristas vai engordando e sem causar peso na consciência de nenhum deles. No entanto, a vida lhes dá uma rasteira quando ousam roubar milhões de dólares do contador Lionel Dolby (Leland Orser) sem saber que ele trabalhava para o excêntrico Winston King (Dustin Hoffman), um poderoso chefão do crime organizado que ao saber do ocorrido mata seu subordinado e um dos membros da quadrilha de Vig para servir de lição a quem mais pudesse querer afrontá-lo.

domingo, 24 de agosto de 2014

PAIXÕES PARALELAS

Nota 4,0 Demi Moore divide-se em dois papéis em filme de Hollywood com jeitinho europeu

Mais cedo ou mais tarde todos têm ao menos uma vez na vida um momento em que se pegam questionando: e se eu tivesse feito outras escolhas, como seria meu futuro? O tema abre caminho para várias discussões, mas o escolhido pelo diretor Alain Berliner para desenvolver o drama romântico Paixões Paralelas não foi dos melhores. De origem belga, este profissional despontou com o elogiado e premiado Minha Vida em Cor-de-Rosa e rapidamente Hollywood o seduziu, mas sua estreia no cinema americano não foi bem avaliada. A atriz Demi Moore, na época ainda queimada pelos resultados do polêmico Striptease lançado três anos antes (e pelo visto ainda um fardo que carrega), tentava novamente impor seu nome como de uma atriz séria e disposta a desafios, tanto que aceitou interpretar dois papéis. Marie é uma jovem viúva que ganha a vida fazendo críticas literárias e mora em uma bucólica cidade na França na companhia de duas filhas pequenas. Todas as noites ela sonha ser outra mulher e com uma rotina completamente diferente. Em Nova York, Marty é uma executiva bem-sucedida, solteira e sem filhos, mas que sonha com a vida de Marie. Qual delas é real? Conforme ambas investigam e recorrem a ajuda de conversas de cunho psicológico, vão sendo dadas dicas para o público participar da narrativa, mas o ritmo lento compromete o envolvimento total. Todavia a primeira parte consegue deixar o espectador inquieto (no bom sentido) e as dúvidas aumentam quando surgem os interesses amorosos das personagens. Marie envolve-se com o escritor William Leeds (Stellan Skarsgard) enquanto Marty finalmente deixa de lado o estereótipo da mulher independente e deixa o amor entrar em sua vida ao se sentir atraída pelo homem de negócios Aaron Reilly (William Fichtner), mas obviamente um deles é pura fantasia. O roteiro criado por Ron Bass e David Field narra as duas tramas de forma paralela. A vida de uma começa quando a outra está sonhando e vice-versa. Seus pretendentes sabem que algum mistério as envolve, mas reagem de formas distintas ao problema. Leeds parece sentir ciúmes do possível rival e Reilly, por sua vez, encara a situação com mais seriedade e está disposto a ajudar a mulher que ama a encontrar uma resposta.

sábado, 23 de agosto de 2014

PASSAGEM SECRETA

Nota 6,5 Drama aborda como judeus tentavam sobreviver na Europa durante a Santa Inquisição

Costumamos ligar a perseguição aos judeus ao período do Holocausto, mas tal situação vergonhosa já vem de longa data, de tempos em que nem o Brasil havia sido descoberto. E quem pensa que os alemães são os únicos grandes vilões desse triste capítulo fique sabendo que antes deles outros povos também demonstraram cruelmente sua aversão ao judaísmo, como os espanhóis. O drama Passagem Secreta especula através de um pequeno grupo de personagens como parte da Europa estava reagindo aos tempos da inquisição. Em 1492, a Espanha decretou que todos os judeus que não se convertessem ao catolicismo seriam conduzidos ao exílio ou até mesmo julgados, podendo ser levados à execução em praça pública ou não. Representantes do governo invadiam as casas para confiscar dinheiro, joias e bens materiais de valor e quem contestasse a ação era eliminado imediatamente. As irmãs Judith e Sara viram ainda pequenas muitas atrocidades, mas foram salvas por seus pais que aceitaram que elas se tornassem cristãs. Rebatizadas respectivamente de Isabel (Katherine Borowitz) e Clara (Tara Fitzgerald), elas se separaram da família e foram viver na cidade de Antuérpia onde, embora ainda tendo que esconder suas origens, as irmãs tiveram alguns anos de felicidade. Isabel, a mais velha, nunca se casou, mas conseguiu para Clara um casamento arranjado com outro judeu convertido que morreu quinze anos depois tentando ajudar membros de sua religião. A inquisição voltava a assombrar os “hereges” e o testamento do falecido guardava surpresas. Deixando a dúvida de que poderia ter tido um caso com a cunhada, algo não explorado no roteiro, ele deixa todos os seus bens para Isabel e a tutela da única filha, Victoria (Hanna Taylor Gordon). Em comum acordo elas decidem ir viver em uma das propriedades da família em Veneza, na Itália, cidade rica em cultura e tolerância e também um importante ponto comercial devido as facilidades de acesso pelo mar, porém, ainda teriam que bancar as católicas e adorando ídolos falsos. Todavia, a mudança coincide com uma brusca ruptura na harmonia do clã. Até então as irmãs nunca tinham tido problemas de convivência, nem mesmo por conta da tal herança.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

MAGIC MIKE

NOTA 8,0

Através de dois jovens personagens
longa mostra como funciona a
"vida fácil" que seduz, recompensa,
mas também não é um mar de rosas
Há mais de vinte anos a novela “De Corpo e Alma”, de Glória Perez, causou polêmica ao apresentar em horário nobre o que era um clube das mulheres. Homens dançando com sungas minúsculas, rebolando, fazendo caras e bocas, satisfazendo mulheres jovens, de meia idade e até idosas e como recompensa enchendo os bolsos de grana alta. Ou melhor, guardando o máximo de dinheiro que fosse possível em seus sumários trajes. Na época ousar trabalhar neste ramo virou moda por aqui, mas não demorou muito para os strippers voltarem a atuar nos chamados inferninhos. Nos EUA, no entanto, esse negócio é um dos mais lucrativos há décadas e ainda continua em alta e seduzindo novos trabalhadores. Magic Mike explora este universo e muito antes de ser lançado já chamava atenção obviamente por alimentar expectativas quanto a cenas de nudismo e sexo. Bem, a mulherada e os homens simpatizantes da causa não têm do que reclamar. Saradões caprichando nas “interpretações” no palco e interagindo muito a vontade com a plateia feminina não faltam, porém, o longa de Steven Soderbergh, dos elogiados Traffic e Erin Brockovich, não tem o intuito de excitar, mas sim de lançar um olhar mais humano sobre esse mundo glamourizado. Será que para trabalhar no ramo do sexo é preciso ser um depravado ou a desculpa das necessidades financeiras justificam a incursão? O roteiro do novato Reid Carolin surpreende ao não jogar todos os holofotes sobre o personagem-título e optar por dividir as atenções entre dois tipos que obviamente servirão para apresentar pontos de vistas diferentes sobre a questão. Em Tampa, na Flórida, Mike (Channing Tatum) está beirando os trinta anos e se desdobra em dois empregos. Durante o dia é um peão de obras e a noite é stripper em uma casa noturna. Nas horas vagas ainda aceita fazer programas e o pouco tempo que sobra gasta desenhando e montando móveis, sua verdadeira paixão, mas os tempos são de recessão e o impedem de trabalhar por conta própria e com algo “normal”.  Para sobreviver à crise cada um se vira como pode e o rapaz se faz valer de seu físico malhado e beleza e já há algum tempo é considerado a principal atração do clube comandado por Dallas (Matthew McConaughey). Embora mostre muita desenvoltura no palco e assuma que não perde a oportunidade de ir para a cama com as mulheres que lhe dão mole, ele prefere ver tudo isso como investimentos e em breve pretende abandonar o ramo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO

NOTA 8,5

Com roteiro inteligente, comédia
recorre a elenco simpático e
famoso para falar sobre o direito de
cada um escrever sua própria história
Pense nesta simples e ao mesmo tempo enigmática frase: “esta é a história de um homem chamado Harold Crick e seu relógio de pulso”. É com ela que se inicia a comédia Mais Estranho que a Ficção que rapidamente caiu no gosto da crítica especializada, mas amargou o desprezo do público mesmo contando com o ator Will Ferrell como protagonista. O astro tentava fazer o mesmo que Jim Carrey fez há alguns anos: trocar sua alcunha de comediante pela de ator sério. Ele dá vida ao tal Crick, um pacato auditor da Receita Federal que vive uma rotina metódica e baseada em conceitos matemáticos. Sem laços afetivos com quem quer que seja, ele próprio julga sua existência insignificante e se distrai cronometrando as horas, os passos que dá até o ponto de ônibus ou as dezenas de movimentos que faz com a escova de dentes. Os primeiros minutos do filme são dedicados a mostrar esses bizarros hábitos, mas paralelo a essa trama o enredo nos apresenta à Kay Eifell (Emma Thompson), uma escritora talentosa, bem-sucedida e que é famosa pela ousadia de em todos os seus romances optar por matar seus heróis, mas no momento está com dificuldades para se livrar do protagonista de sua última obra. A demora acaba fazendo com que a editora a pressione para entregar o livro o mais rápido possível e a obriga a aceitar a ajuda da consultora Penny Escher (Queen Latifah), cuja função seria apontar possíveis caminhos para a história. O problema é que a própria Kay não sabe justificar o porquê de não conseguir matar seu personagem, no entanto, nem desconfia que ele realmente existe e está sofrendo com a manipulação de suas palavras que inexplicavelmente consegue ouvir. Crick escuta nitidamente uma voz feminina narrando cada uma de suas ações, mas o que mais lhe intriga é uma profética frase que escuta entre essas estranhas citações: “mal sabia ele que esta ação tão corriqueira daria início a eventos que levariam a sua morte”. Preocupadíssimo, ele decide procurar ajuda psicológica, mas é aconselhado a buscar auxílio com Jules Hilbert (Dustin Hoffman), um professor de literatura, que só aceita colaborar depois que escuta três palavrinhas mágicas de uso comum em livros, “mal sabe ele...”, expressão que ele é um profundo estudioso.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

FOI APENAS UM SONHO

NOTA 8,0

Reencontro dos astros de Titanic 

desnuda a intimidade de jovem casal em
crise, m
as o medo de assumir o fracasso
 é maior que a vontade de ser feliz
Os grandes pares românticos do cinema, principalmente aqueles da chamada Era de Ouro de Hollywood, são lembrados por trocarem um beijo apaixonado ao término de seus filmes invocando o famigerado felizes para sempre. O tempo passou e as histórias românticas sofreram transformações, assim outras formas de manifestar o amor, diga-se de passagem, mais realistas, também originaram cenas memoráveis, como abrir mão de um relacionamento em nome de um bem maior ou dar continuidade ao sentimento mesmo após a morte. Neste último caso poderia ser rotulado o mega sucesso Titanic, mas uma obra de tanta importância e opulência deixou um sabor amargo para os seus milhares de fãs com seu triste final. Durante muitos anos foi alimentada a expectativa de que Kate Winslet e Leonardo DiCaprio voltassem a formar par romântico e desta vez com direito a um final feliz, assim foram criadas muitas expectativas em torno de Foi Apenas um Sonho, produção que reuniria os astros que não se cruzavam em cena há mais de dez anos. A julgar pela demora para esse reencontro acontecer, o burburinho positivo da crítica e as menções em premiações, estava na cara que esta produção não se tratava de um romance água-com-açúcar qualquer. Aparentemente o maior trunfo da fita é também seu maior pecado. Se você ainda se esvai em lágrimas mesmo conhecendo a tragédia do transatlântico de traz para frente com riqueza de detalhes e continua sonhando em ver concretizado o romance das estrelas do filme, ainda que só na ficção, certamente irá se decepcionar com esta segunda parceria. Do drama-espetáculo eles ressurgem em uma obra intimista e angustiante que aborda o vazio existencial que assola os casais quando a relação cai na rotina e a euforia cede espaço à frustração. Adaptado do romance “Revolutionary Road” (título original do filme), primeiro livro do autor Richard Yates lançado em 1962 e quase cinco décadas mais tarde incluído na lista dos cem melhores de todos os tempos da revista “Time”, o enredo gira em torno do casal April (Winslet) e Frank Wheller (DiCaprio) e narra fatos de suas vidas desde o primeiro encontro. É preciso estar atento que em sua primeira metade os eventos são narrados de forma não-linear. Estamos na década de 1950 e eles já casados aparentemente transbordam felicidade a ponto de se julgarem pessoas especiais e dignas de um padrão de vida mais elevado.  Todavia, tal obsessão também significará a ruína desta união.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

UM HOMEM SÉRIO

NOTA 5,5

Comédia que desconstrói a
imagem do homem exemplar
carrega marcas dos irmãos Coen,
mas desta vez algo deu errado 
Os irmãos Ethan e Joel Coen não são meros realizadores de cinema, se tornaram uma grife tal qual Woody Allen ou Tim Burton. A cada sinal de um novo lançamento da dupla, seus fãs já se empolgam, a crítica fica atenta e não raramente seus trabalhos figuram entre os candidatos a prêmios. Acostumados com elogios rasgados, o problema é que com o tempo parece que foi gerado um medo de afirmar que nem sempre a dupla acerta a mão, o que pode ser entendido pelas duas míseras indicações ao Oscar para a comédia dramática Um Homem Sério. Seria pouco para a obra? Pelo contrário, até demais. Parece que os votantes da academia ficaram receosos de declinar um filme dos Coen e ofereceram essas lembrancinhas só para não estremecer relações ou simplesmente para preencher a cota da categoria de melhor filme que praticamente dobrou nos últimos anos. Como sempre produzido, escrito e dirigido pelos irmãos, a trama se passa em meados de 1967 e tem como protagonista o professor de física Larry Gopnik (Michael Stuhlbarg), um judeu que ao longo de todo o filme faz a seguinte indagação: o que eu fiz para merecer isso?, mas quanto mais se questiona pior sua vida fica. Como a lógica faz parte da sua rotina de trabalho, seus conflitos ganham ainda mais intensidade já que tenta encontrar motivos concretos que justifiquem seus problemas, mas as pessoas que o cercam colaboram e muito para o caos que impregna em sua vida. Seu filho Danny (Aaron Wolff) é o típico garoto-problema e nada interessado nos estudos; sua filha Sarah (Jessica McManus) é fútil e constantemente rouba dinheiro do pai sonhando em juntar o necessário para pagar uma cirurgia plástica; o irmão Arthur (Richard Kind) é problemático e se instalou na casa da família sem data ou vontade para ir embora; ele está sendo perseguido pelo revoltado aluno Clive (David Kang); e, por fim, sua esposa Judith (Sari Lennick) está disposta a se divorciar, quer um “get”, para assim poder se unir ao amante Sy Ableman (Fred Melamed), este que insiste em se relacionar com o rival como se fossem velhos e bons amigos. Conforme o roteiro vai sendo desenvolvido, cada vez mais a imagem do mundo perfeito do tal homem sério do título vai desmoronando, uma critica a ideia de que um cara bem sucedido é aquele que preserva sua honra, família e um bom emprego. Podem viver com tal fama por um bom tempo, mas o que fazer quando a vida começa a dar violentas rasteiras?

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

QUERIDO COMPANHEIRO

NOTA 4,5

Usando o sumiço de um cachorro
de estimação como ferramenta para
forçar um melhor entendimento entre
os humanos, drama não empolga
A imagem de um cachorro estampada no material publicitário de um filme é um convite para seduzir as crianças, mas produções como Marley e Eu e Sempre ao Seu Lado provaram que o chamado melhor amigo do homem também pode ser um grande intérprete capaz de levar adultos às lágrimas com suas emoções genuínas expressas por um olhar triste ou um balançar do rabo. Talvez tentando repetir o sucesso das obras citadas, Lawrence Kasdan resolveu abandonar sua aposentadoria não oficial que já durava quase uma década. Desde que amargou duras críticas pelo estranho O Apanhador de Sonhos, fracassada adaptação de um livro de Stephen King, o diretor certamente se sentiu desmotivado a continuar sua carreira, mas retomou as forças quando escreveu ao lado da esposa Meg Kasdan o roteiro de Querido Companheiro, drama com sutis toques de humor extremamente simples e talvez seja justamente esse seu maior pecado. Quem decide assisti-lo ao acaso, sem saber nada a seu respeito, provavelmente cria a expectativa de que algo grave acontecerá ao cachorrinho que justifica o título ou então que algum dos personagens vai sofrer algum conflito que refletirá diretamente no comportamento do animal de estimação. Na realidade, neste caso o cão pouco aparece, literalmente desaparece a maior parte do tempo. A trama começa com Beth (Diane Keaton) na companhia de sua filha mais nova, Grace (Elizabeth Moss), trafegando por uma estrada praticamente deserta. A mãe pede desesperadamente para a garota voltar um pouco com o carro, pois algo no acostamento lhe chamou a atenção. Trata-se de um cão abandonado e sofrendo as consequências de um rigoroso inverno e com pena elas decidem levá-lo até um veterinário. Sam Bhoola (Jay Ali) o examina e constata que ele não tem nenhuma doença ou ferimento, apenas precisa de bons tratos, mas devido a sua idade avançada seria difícil alguém adotá-lo e muito provavelmente em alguns poucos dias seria necessário sacrificá-lo. É lógico que uma mãe coruja, e não raramente chatinha, como Beth (tipo de papel que Keaton incorpora rotineiramente já há alguns anos) fica com o coração na mão e decide levar o cachorro para casa, mesmo sabendo que seu marido Joseph (Kevin Kline), um bem-sucedido cirurgião ortopedista, nunca gostou de animais de estimação.

domingo, 17 de agosto de 2014

UM MONSTRO EM PARIS

Nota 7,0 Apesar de problemas narrativos, animação francesa conquista com visual refinado

Já faz algum tempo que filmes de animação deixaram de ser uma opção exclusiva para a criançada, assim aumentou a pressão dos estúdios em cima dos realizadores. Não basta contar com a bilheteria dos pais ou responsáveis que levam as crianças aos cinemas. É preciso também chamar a atenção de quem não tem a desculpa de ter um pimpolho para acompanhar. Talvez a maturidade mínima exigida dos enredos para se alcançar tal objetivo tenha colaborado para desenhos animados fora do eixo Hollywood ganharem mais visibilidade. Não é só uma trama mais elaborada o chamariz, mas a própria origem diferenciada das produções pode ser um convite para adultos. Sim, ainda há quem ache coisa de intelectual ou chique gostar de filmes franceses, por exemplo, ainda mais se for uma animação que ousa brigar por espaço com os gigantes norte-americanos. No entanto, mesmo amparado por elogios da crítica especializada, Um Monstro em Paris não caiu no gosto popular. A trama escrita por Stephane Kazand Jian e Bibo Bergeron, este também autor da história original e responsável pela direção, se passa na bela Paris de meados da década de 1910. O jovem Emile é apaixonado por filmes e sonha em viver um romance de cinema com Maud, a moça que trabalha na bilheteria das salas de exibição, no entanto, sua timidez o impede de se declarar e ele acaba se contentando em viver um amor platônico. Como projecionista, o rapaz a vê diariamente no trabalho e alimenta o sonho de poder fazer seus próprios filmes, o que poderia ser possível com uma câmera que seu amigo Raoul lhe dá. Metido a galã e vendendo animação, esse homem inventa engenhocas quando tem folga de seu trabalho como entregador de mercadorias, mas uma de suas missões irá acabar em desastre. Certa noite, Raoul e Emile vão deixar uma encomenda na estufa de um professor de botânica, mas na ausência dele deveriam procurar seu macaco-assistente, o esperto Charles. Tudo muito simples, mas a dupla quis se divertir com a tal câmera dentro do laboratório e acabaram criando um gigantesco girassol que não aguentou o próprio peso e tombou sobre as prateleiras de produtos químicos.

sábado, 16 de agosto de 2014

UM ESTRANHO CHAMADO ELVIS

Nota 8,0 Homenagem original à Elvis Presley, drama edificante acabou relegado ao ostracismo

Elvis não morreu. Pelo menos não na memória de seus milhares de fãs. Será mesmo? Então como explicar o fracasso da produção Um Estranho Chamado Elvis? Longe de ser uma cinebiografia, o diretor David Winkler e o roteirista Jason Horwitch criaram em conjunto um argumento bastante original para homenagear o astro da música. Desde que sua esposa morreu em um acidente de carro do qual se julga responsável, Byron Gruman (Johnathon Schaech) entregou-se à solidão como única forma de dar sentido à sua dor. Ele abandonou seu curso de medicina, abriu mão da família e amigos e a culpa o consome a tal ponto que nem mesmo teve coragem para substituir a porta de seu carro destroçada no acidente. Um ano após o fatídico episódio, o jovem passa os dias dirigindo sem rumo pelas estradas do interior dos EUA e em uma de suas andanças ele encontra uma figura curiosa: um cinquentão de cabelos pretos, com um avantajado topete, trajando jaqueta cor-de-rosa e carregando uma placa onde se vê escrito a palavra Graceland. Ele pede uma carona até a tal cidade, mas Gruman em um primeiro momento se recusa, pois é avesso a companhias e não deseja de forma alguma voltar ao município de Memphis, local onde perdeu sua esposa. No entanto, mesmo a contragosto, ele acaba aceitando ajudar o caroneiro que se apresenta como Elvis (Harvey Keitel), um homem que 20 anos atrás perdeu sua esposa, filha e a música que tanto gostava, tornando-se assim um andarilho que viaja procurando ajudar pessoas com problemas. Apesar de alguns momentos de lucidez, este homem ao longo do trajeto tenta convencer o rapaz que realmente é o Elvis Presley, embora fisicamente, exceto talvez o cabelo, não se pareça em nada com o ídolo. Todavia, ele diz que precisa chegar a Graceland a tempo de participar de uma grande festa em sua homenagem, justamente no dia 16 de agosto, a data oficial de morte do cantor. Mesmo achando que está acompanhado de um piadista de marca maior, Gruman diz que vai cumprir com sua palavra e até compra um livro sobre o Rei em uma das paradas para testar os conhecimentos do cara que surpreendentemente acerta tudo e sem engasgar em resposta alguma.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A BRUMA ASSASSINA

NOTA 7,5

Fita clássica de terror envelheceu
bastante, mas a nostalgia só agrega
pontos positivos a uma obra que visa
apenas assustar, porém, sem apelações
Ter medo da escuridão é coisa do passado? Sabemos que esta é uma das fobias mais comuns, mas será que no início da década de 1980 ela já estava saturada no cinema? Sem dispensar os temores causados pela ambientação noturna, John Carpenter cravou seu nome como realizador de filmes de terror e suspense graças a uma fumaça maldita quando lançou A Bruma Assassina, produção simples, mas muito eficiente (pelo menos para a época). Hoje ela é aquela obra que aguça a curiosidade de amantes do cinema e alimenta a nostalgia de muitos. Não chega a ser considerada um marco do gênero como foi The Evil Dead - A Morte do Demônio de Sam Raimi, mas as bases são parecidas: causar pânico gastando pouco e abusando da criatividade. Sem apelar para a sanguinolência e mutilações explícitos, Carpenter na época já não era um estreante nesta arte, mas foi a partir deste trabalho que veio a se tornar uma referência para o cinema fantástico e de horror. Roteirizado por ele mesmo em parceria com Debra Hill a partir de um conto do cultuado escritor americano Edgar Alan Poe, a trama se desenvolve na pitoresca e turística Anthony Bay, uma pequena cidade do litoral dos EUA prestes a completar o centenário de sua fundação. Enquanto a população se prepara para comemorar a data, o tranquilo povoado começa a vivenciar estranhas situações. Durante a noite um intenso nevoeiro avança rapidamente pelo mar e chama a atenção que vem acompanhado de estranhas luzes sempre surgindo após a meia-noite, considerada por muitos como a hora dos mortos. Por coincidência, no dia seguinte moradores relatam fatos curiosos e desaparecimentos e o fenômeno volta a se repetir nas madrugadas seguintes, sempre com a movimentação da névoa sendo relatada pela radialista Stevie Wayne (Adrienne Barbeau) que trabalha no alto de um farol. Entre uma música e outra, ela é responsável por informar sobre as condições climáticas noturnas à navegantes e motoristas insones como Nick Castle (Tom Atkins) que dá uma carona à Elizabeth Solley (Jamie Lee Curtis), com quem logo vai para a cama apressadamente sem nem mesmo fazerem as apresentações formais.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

DESAFIO NO ÁRTICO

NOTA 6,0

Drama com mensagens edificantes
sobre amizade e superação em meio a um
ambiente hostil carece de calor humano,
ainda que protagonistas cativem
Histórias de pessoas que sobreviveram a várias adversidades são exemplos de perseverança e autoestima que o cinema adora explorar. Em geral produções do tipo costumam agradar pelas mensagens positivas que carregam, mas a cada novo exemplar fica difícil escamotear a sensação de que você já viu esse filme ao menos uma vez e as comparações com similares são inevitáveis. Conhecido por sua atuação em Os Intocáveis, um clássico dos anos 80, o ator Charles Martin Smith também é diretor e roteirista e, desculpe a redundância, tinha um verdadeiro desafio ao assinar o drama com toques de aventura Desafio no Ártico, adaptação do conto “Walk Well My Brother” de Farley Mowat. Mesmo com um rico material em mãos, o que fazer para a obra não ser apenas mais uma história de superação fadada ao esquecimento? Infelizmente, o tempo comprovou o triste destino da fita, mas a quem interessar fica a dica de que o filme é acima da média. A trama tem como protagonista Charlie Halliday (Barry Pepper), um jovem piloto de avião condecorado por sua participação na Segunda Guerra Mundial, no entanto, seu perfil inicialmente desperta antipatia. Muito seguro de si e mulherengo, em meados da década de 1950 passou a prestar serviços para uma empresa privada de aviação na gélida região de Yellowknife, no noroeste do Canadá, fazendo entrega de bens e pessoas. Certa vez ele é convocado por Walter Shepherd (James Cromwell), seu superior, para testar um novo modelo de aeroplano e durante a realização da tarefa precisaria pousar em uma isolada região para deixar uns barris de combustível. Depois disso, faria um servicinho extra de entrega que o obrigaria a sair da rota original, mas desiste da ideia ao ser procurado por uma família de esquimós, representantes do povo dos Inuits, que lhe oferecem valiosas presas de marfim de animais como pagamento caso aceite levar a filha tuberculosa, Kanaalaq (Annabella Piugattuk), a procurar ajuda em um hospital, o que o obrigaria a voltar para Yellowknife antes do previsto. Entretanto, um problema mecânico acaba fazendo com que a aeronave caia nas águas de uma remota área onde a vegetação é escassa e não há o menor sinal de civilização.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

SE ENLOUQUECER NÃO SE APAIXONE

NOTA 7,0

Comédia com pitadas de drama
apresenta visão mais realista da
adolescência através da perspectiva de
um jovem depressivo em busca de ajuda
A adolescência é aquele período da vida em que fazemos descobertas, nos divertimos bastante, fazemos planos para o futuro e, o melhor de tudo, não temos grandes preocupações. Será mesmo? Abordando o universo juvenil de forma ligeiramente original, Se Enlouquecer Não se Apaixone é super indicado também para os pais que às vezes por ingenuidade realmente acreditam que os filhos não têm motivos para infelicidade. Mal sabem eles o turbilhão de dúvidas e emoções que podem pressionar um adolescente. Baseado no romance “It’s Kind of a Funny Story” de Ned Vizzini, a trama gira em torno de Craig (Keir Gilchrist), um jovem de 16 anos que está vivendo um período de depressão aguda e decide se suicidar. Corriqueiramente ele sonha que vai se jogar de uma ponte, mas desperta justamente quando consumaria o ato suicida. Percebendo que precisava urgentemente de ajuda, ele próprio decide procurar uma clínica psiquiátrica. Na consulta de avaliação, embora afirmasse estar um ano sofrendo com a depressão, o garoto não encontra motivos plausíveis para sua insatisfação com a vida. Gostaria de ter motivos sérios como o trauma de ser estuprado ou de uma infância marcada por agressões dos pais, mas na verdade seus conflitos são comuns à adolescência. Acha que o pai trabalha demais e a mãe é superprotetora, além de ambos falarem coisas desnecessárias em momentos impróprios o que acaba o constrangendo. No entanto, não acha que lhe faltou carinho ou as bugigangas materiais que desejava. No momento atual suas maiores aflições referem-se a paixão não revelada que tem pela namorada de um amigo e a pressão que sente para ser aceito em um curso de verão em uma conceituada escola, o que seria importantíssimo para seu futuro regrado: bom trabalho que traria uma vida financeira confortável e consequentemente atrairia mulheres com quem iria se divertir até escolher a ideal para casar e ter filhos. Mais esquemático impossível. Com medo de voltar para casa e fazer uma besteira, ele acaba conseguindo ser internado no hospital, mas terá que ficar cinco dias na companhia dos tipos mais variados, até porque a ala de internos adolescentes está em reforma. Essa é a chance para refletir e compreender o que acredita estar errado em sua vida, mas Craig vai perceber que seus problemas podem ser insignificantes.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

CAMPEÃO

NOTA 8,0

Baseado em fato reais, drama
aborda a rivalidade de irmãos nas
piscinas e fora delas, tudo incentivado
por um pai inescrupuloso e frustrado
Costumamos reclamar da previsibilidade de alguns filmes, mas para que complicar o que pode ser tão fácil? Às vezes a receita repetida surpreende justamente pela sua simplicidade como é o caso de Campeão, título que reforça o formato convencional de mais uma história imersa no universo esportivo, neste caso, literalmente mergulhado nele. Baseado em fatos reais, o longa resgata as memórias da infância e da adolescência de Tony Fingleton (interpretado nas duas fases citadas respectivamente por Mitchell Dellevergin e Jesse Spencer) que enfrentou muitos desafios dentro e fora das piscinas para vencer na vida. Quando era criança, durante os anos 50 na pequena cidade de Brisbane, na Austrália, a diversão preferida dele e de seus irmãos era aproveitar os dias quentes na piscina de um clube público, mas quando voltava para casa sua alegria cessava por causa do pai, Harold (Geoffrey Rush), um beberrão que fazia questão de ser ríspido com Tony, principalmente por ele não gostar de esportes rotulados masculinos como o futebol ou o boxe. O pai declaradamente preferia seu primogênito, o metido a valentão Harold Jr. (Kain O’Keefe e mais velho vivido por David Hoflin) que adorava provocar seu irmão por causa de seu apreço por coisas mais refinadas como a literatura e o piano. O patriarca só começou a ver Tony com outros olhos quando descobriu seu talento para a natação e passou a incentivá-lo a treinar, mas paralelo a isso ele elege um novo queridinho entre a prole, John (Thomas Davison e quando adulto Tim Draxl), que também se dedicará a esse esporte. Os irmãos mais novos do protagonista, mais um garoto e uma menina, praticamente não tem função na trama, somente quando adultos participam um pouco mais como observadores da degradação da família. Tony e John se davam muito bem, mas a rivalidade entre eles será despertada e explorada ao máximo pelo pai, um tipo traumatizado na infância e que passou anos somatizando tristezas tornando-se um adulto severo e mau caráter. No início, pouco sabemos sobre Harold, mas ao longo da narrativa percebemos a tristeza de suas memórias quando criança e a frustração de não ter vencido na vida, assim ele se afoga nas bebidas e constantemente tem crises de violência, um péssimo exemplo passado aos filhos, principalmente ao Júnior que já demonstrava uma personalidade mais arredia desde pequeno.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O FATOR HADES

NOTA 7,0

Apesar do excesso de personagens e
 revelações que complicam a narrativa,
longa é uma aula sobre os jogos de
interesses por trás das epidemias
Filmes baseados em argumentos de ficção científica geralmente estão fadados ao fracasso quando ainda estão sendo esboçados. Isso acontece por causa do preconceito que assola o gênero devido aos seus próprios excessos. Com o surgimento do mercado de locação, fitas do tipo começaram a se proliferar desenfreadamente, porém, com qualidade decrescente. Quem nunca se deparou com algum título bizarro envolvendo híbridos de humanos e animais ou com aquelas produções que querem falar sobre o pânico da ameaça de um vírus mortal quando na verdade só querem divertir com efeitos especiais de quinta categoria? Isso é coisa do passado? Bem, realmente estes são filmes característicos de certo período, mas vez ou outra ainda surge um exemplar do tipo, pena que simplesmente para mofar nas prateleiras das locadoras. Hoje em dia, infelizmente, nem com esse luxo podem contar. Se você já torce o nariz ao saber que algum filme fala sobre epidemias, qual reação ao saber que ele beira as três horas de duração? Por conta destes dois fatores, além da falta de publicidade e lançamento direto em DVD, O Fator Hades passou em brancas nuvens, mas merece uma chance, principalmente em tempos de alerta mundial sobre uma possível epidemia de Ebola. O vírus do título é fictício, mas faz alusão ao citado agente real que está devastando a população de países africanos. Sim, mais uma vez o continente que já sofre tudo quanto é preconceito está dentro do olho do furacão, mas alguém já pensou que o Ebola pode ter sido disseminado por lá propositalmente? Não se pode afirmar isso, mas o filme do diretor Mick Jackson pode levar a essa reflexão, basta ter inteligência para mudar uma coisinha aqui e outra ali e a produção datada de 2006 pode revelar-se um filme interessante com temática atemporal e universal. Baseado no romance de Robert Ludlum e Gayle Lynds, o longa, na realidade uma bem feita compilação de seriado de TV, começa apresentando três casos de mortes isolados, mas a coincidência de sintomas com os apresentados por outras pessoas adoentadas repentinamente chamam a atenção. Em um primeiro momento o problema parece restrito aos EUA, mas não tarda para que em outros países surjam alertas de mortos e novos casos de uma doença atípica que em cerca de 24 horas provoca intensas hemorragias levando o paciente ao óbito com a mesma rapidez. Quando acolhidos para tratamento, os medicamentos são apenas paliativos. Rapidamente é descoberto que o vírus Hades é uma variação rara do Ebola, mas seu ciclo de desenvolvimento ainda é uma incógnita assim como sua cura.

domingo, 10 de agosto de 2014

COISAS DE FAMÍLIA (2005)

Nota 6,5 Química dos protagonistas, ou talvez sua ausência, eleva comédia previsível e batida

Relações familiares. Está aí uma temática que não sai de moda e que rende muitos argumentos interessantes, mas ao mesmo tempo em que é bom ter várias produções do tipo também é prejudicial para elas mesmas. A repetição de assuntos prejudica suas avaliações e acirra as comparações. Quantos filmes você já não viu a respeito do abismo existente na relação entre um pai e um filho? É nesse resultado que Coisas de Família perde muito, sendo até uma produção descartável. Agora se você assistir sem ficar se lembrando que este ou aquele outro filme era melhor pode até se divertir, mesmo com toda a previsibilidade. O que torna o projeto mais interessante é saber que ele foi criado especialmente para homenagear o saudoso Peter Falk. Quem? A turma mais vivida ou adepta de nostalgia deve se lembrar deste nome por conta do seriado “Columbo” no qual ele interpretou o personagem-título por mais de três décadas. Com uma carreira praticamente toda dedicada à televisão, suas poucas atuações no cinema não são muito famosas, mas tudo o que fez certamente inspirou o ator Paul Reiser a seguir o mesmo ofício. Conhecido pela série de TV “Mad About You”, o próprio ator assina o roteiro que felizmente pôde contar com a presença do veterano intérprete em seu derradeiro trabalho. Falk interpreta Sam Kleinman, um idoso que aparece de surpresa no apartamento do filho, o escritor Ben (Reiser), para informar que a esposa fugiu sem mais nem menos deixando um simples bilhete de despedida. O marido tenta minimizar o problema, mas o filho imediatamente começa a ligar para suas irmãs para saber se elas têm alguma notícia e até se surpreende ao perceber que para uma delas agrada se a separação realmente aconteceu. Nitidamente incomodado com a presença do pai, Ben ia desistir de uma viagem rápida que faria para encontrar uma casa no campo para comprar, mas Rachel (Elizabeth Perkins), sua mulher, o convence a levar o idoso junto para distraí-lo, no fundo torcendo para que eles voltassem a ter um bom relacionamento. No entanto, o que era para ser um dia agradável acaba se tornando uma viagem prolongada e com muito assunto a ser esclarecido.

sábado, 9 de agosto de 2014

COMPORTAMENTO SUSPEITO

Nota 5,0 Complô para homogeneizar jovens é tratado de forma superficial em detrimento a sustos

Transformar adolescentes rebeldes em modelos de disciplina e sucesso, este é um pesadelo dos jovens norte-americanos? Seria o sonho de seus pais? O cinema ianque está sempre de olho nesse dilema para lucrar, mas quase nunca se aprofunda no tema. Seja ensinando que quem sai da linha é morto por psicopatas ou até mesmo recorrendo a intervenções cirúrgicas e psicológicas, muitos filmes já apostaram na fórmula do estudante novato que se vê em meio a uma comunidade perfeita, porém, a sensação de que algo está errado é inerente. Comportamento Suspeito segue à risca a receita mostrando a adaptação de Steve Clark (James Marsden) à pacata rotina da pequena cidade de Cradle Bay cujos acontecimentos mais importantes parecem girar em torno de um conceituado colégio. Como em qualquer instituição de ensino, o local abriga diversos grupos de estudantes que se unem por conta de afinidades. Tem a turma dos baladeiros, das patricinhas, dos skatistas e os Blue Ribbons (na tradução “os jaquetas azuis”), um grupo de jovens metidos a conservadores, super estudiosos e envolvidos em campanhas de caridades, o sonho de qualquer pai ou educador. Logo de cara, Steve não se identifica com a turma dos perfeitinhos e acaba fazendo amizade com a rebelde sem causa Rachel (Katie Holmes) e com Gavin (Nick Stahl), este que afirma ter visto com seus próprios olhos atitudes suspeitas de um dos engomadinhos acobertadas por um policial. Não demora muito e estes amigos descobrem que os adultos da cidade compactuam com as experiências do Dr. Caldicott (Bruce Greenwood), um sujeito maluco que convence os pais com filhos problemáticos a permitirem que seus pimpolhos sejam submetidos a uma clandestina intervenção cirúrgica, uma espécie de lobotomia, para eliminar o que há de “podre” em suas cabecinhas. A transformação, no entanto, tem como efeito colateral a propensão a surtos de violência quando os ânimos se alteram, seja uma tensão sexual ou por provocações feitas ao novo estilo de vida que adotam. Gavin está apreensivo porque descobre que será o novo contemplado da ação e seu novo amigo mal pode acreditar quando o vê de cabelo penteadinho com gel e trajando a tal jaqueta azul. É hora de investigar a fundo a questão.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

TITUS

NOTA 6,0

Adaptação de texto pouco conhecido e
super violento de William Shakespeare
tem visual e narrativa originais, mas o
conjunto é estranho e nauseante
Willian Shakespeare ganhou fama com histórias que retratavam conflitos comuns a sua época, todavia, temáticas atemporais que até hoje inspiram atualizações de suas obras. Carregadas de poesias, suas tramas eram marcadas por diálogos propícios para serem declamados com altivez e a linguagem retórica escamoteava inteligentes metáforas e conceitos. “Hamlet”, “Sonho de Uma Noite de Verão” e “Romeu e Julieta” são algumas de suas maiores obras e obviamente as que mais renderam à indústria de bens culturais com suas diversas versões para o cinema, teatro e televisão, além de render um bom dinheiro no campo da literatura e das artes plásticas. E sobre a experiência do autor desbravando o antigo Império Romano, o que dizer? Isso mesmo. Poucos sabem dessa particularidade da carreira do escritor, mas quem assistiu ao filme Titus certamente sabe o porquê do romance ser ignorado pela maioria. Shakespeare declaradamente era chegado a uma tragédia, mas neste trabalho superou-se e criou uma alucinante e angustiante trama que aborda questões psicológicas e comportamentos, sem dúvidas uma das mais sangrentas e cruéis que escreveu, sem esquecer o fator sexual que motiva boa parte dos personagens. Baseado em “Titus Andronacius”, o longa marca a estreia na direção de longas metragens de Julie Taymor, também roteirista da obra e que mais tarde viria a fazer relativo sucesso com Frida e Across the Universe. Ela já havia dirigido em 1994 a adaptação teatral do texto e passou cinco anos dedicando-se ao material para levá-lo às telonas, mas sem perder o clima de encenação. Anthony Hopkins dá vida ao personagem-título, um general romano de sucesso que volta à sua terra natal após derrotar inimigos do Império. Tamora (Jessica Lange), a rainha de um povo inimigo, os godos (bárbaros que dariam origem ao povo germânico), o acompanha neste retorno. Ela é sua prisioneira, assim como seus três filhos e para vingar a morte de seus herdeiros e soldados Titus decide assassinar o primogênito dela e faz questão de queimar suas vísceras em público. Com o imperador morto e como prova de gratidão por seus esforços há mais de quatro décadas, o irmão do general, o presidente do senado Marcus (Colm Feore), o indica para assumir o cargo de governante de Roma, mas o valente prontamente recusa a honra e a cede para Saturninus (Alan Cumming), o filho mais velho do antigo monarca.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

UM HOMEM BOM

NOTA 8,0

Com caprichada reconstituição
de época, o nazismo é abordado sob
ótica diferenciada através de um
homem comum seduzido pelo poder
O período marcado pelas atrocidades do nazismo é uma vergonha histórica, mas que rende muito ao cinema. O Pianista, O Leitor e O Menino do Pijama Listrado são algumas obras dos anos 2000 que abordaram a temática e contaram com o apoio da mídia para divulgação, uma sorte que não teve o cineasta brasileiro Vicente Amorim quando lançou Um Homem Bom, uma produção de origem inglesa e que merece consideração pela abordagem diferenciada que apresenta. Baseado na peça do escocês Cecil Philip Taylor, este drama acompanha alguns anos da vida do pacato professor de literatura John Halder (Viggo Mortensen), um pai de família introspectivo que suporta Helen (Anastasia Hille), sua esposa problemática, um sogro intrometido (Ralph Riach), uma mãe doente (Gemma Jones) e com pouco tempo livre para se dedicar aos filhos. Em 1937, em pleno alvoroço que se encontrava a cidade de Berlim, na Alemanha, com a ascensão do ditador Adolf Hitler, o tal homem bom do título decide escrever um romance de ficção defendendo a eutanásia, a prática de induzir pessoas à morte para acabar com o sofrimento de anos vegetando por conta de alguma doença crônica ou sem cura. O próprio vivia esse dilema em casa com a mãe senil. Ele é chamado para uma conversa com o presidente do comitê de censura que analisa todas as obras literárias para ver se elas atendem as normas éticas e morais defendidas pelo governo. Apreensivo com a convocação, Halder tem uma grande surpresa ao saber que seu trabalho agradou as autoridades políticas, inclusive sendo convidado a fazer parte do grupinho de Hitler. É aí que o filme mostra seu diferencial, já que os nazistas sempre são retratados como vilões, verdadeiras máquinas de matar, mas esta obra aborda um lado mais humano e eufórico da questão, algo raro, porém, também um caminho perigoso a ser percorrido. O grande trunfo do roteiro de John Wrathall é lançar um olhar interno sobre o nazismo, mostrar suas entranhas e revelar como cidadãos comuns eram seduzidos a fazer parte dele. Em determinado momento da narrativa, uma das alunas do protagonista, diante de uma passeata do partido nazista repleta de civis entusiasmados, faz uma indagação-chave para a compreensão do enredo: algo que deixa as pessoas tão felizes pode ser ruim?

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

LEIS DA ATRAÇÃO

NOTA 4,5

Reciclando clichês e forçando
a química entre protagonistas,
longa desperdiça bom argumento e
gancho principal não convence
Quem não conhece o clichê do casal que não se bica, mas que no fundo segura a tentação de revelar seus verdadeiros sentimentos? Uma hora a coisa explode, os dois se entendem e vivem felizes para sempre. Bem, a comédia romântica Leis da Atração buscava justamente desfazer a mágica do final feliz, mas por mais que dê voltas acaba sendo previsível do início ao fim. Aqui a intenção do diretor Peter Howitt, do bem mais divertido Johnny English, era mostrar como um casal poderia viver um amor sem dar o braço a torcer, principalmente quando há interesses profissionais em jogo. Os advogados Daniel Rafferty (Pierce Brosnan) e Audrey Woods (Julianne Moore) são especialistas em casos de divórcios e conhecem todas as artimanhas para saírem vitoriosos dos tribunais. O defensor é novo em Nova York, mas sua fama de vencedor já chegou aos ouvidos da advogada que apesar da imagem autoconfiante na verdade morre de medo de falhar, principalmente perder uma causa para um novato no pedaço. Quando surge a oportunidade de eles terem que defender pontos divergentes de uma mesma questão as coisas pegam fogo e as rusgas começam desde quando se apresentam. Ela, muito hipócrita, se gaba de praticar seu ofício seguindo rigorosamente os mandamentos da lei, mas não hesita em invadir o escritório do rival em busca de algum material comprometedor sobre os processos. Ele, por sua vez, sempre tem uma carta na manga e usa todo seu poder de persuasão para conquistar uma sentença vantajosa aos seus clientes, mesmo que para tanto precise ser desonesto. Logo na primeira audiência em que se cruzam, Rafferty mostra que é muito perspicaz e sabe até fazer sua publicidade junto a imprensa, vencendo o primeiro round de um caso em que Audrey foi trapaceada pela própria cliente que lhe omitiu certos segredos sobre sua vida particular. Com segundas intenções, a advogada até tenta fazer amizade com o rival com o objetivo de conhecer seu estilo de trabalho para estruturar melhor suas defesas, mas seu jeito explosivo acaba levando-os a um bate-boca que termina, ironicamente, na cama. Sim, depois de uma noitada logo pela manhã eles voltam a brigar nos tribunais e Rafferty discretamente se aproveita do segredinho sobre o que vivenciaram horas antes para acuar a rival que acaba perdendo a ação.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O ACOMPANHANTE

NOTA 5,0

Suspense com clima noir faz críticas à
política, homofobia e à hipocrisia, mas
boa interpretação de Woody Harrelson
torna-se mais importante que o enredo
O título é curto e enigmático. Simplesmente O Acompanhante. Quem é este homem? O que ele faz? Qual o seu passado? Seu nome é Carter Page III (Woody Harrelson), um quarentão bem apessoado e culto que tem como passatempo predileto fazer companhia às esposas de homens importantes, políticos e personalidades influentes na cidade Washington, nos EUA. Quanto ganha por seus serviços? Teoricamente nada. Ele não faz companhia para essas senhoras na cama, mas usufrui do luxo e prestígio que seus nomes e posições propiciam, assim ele as ajuda a escolher tapetes, tecidos para estofados ou dispensa horas jogando cartas com elas. Homossexual assumido, ele é alvo de maledicências de muitos homens, no entanto, não representa perigo aos maridos de suas amigas, assim tem passe livre para entrar em suas casas e compartilhar dos segredos de mulheres como Lynn Lockner (Kristin Scott Thomas), Natalie Van Miter (Lauren Bacall) e Abigail Delorean (Lily Tomlin). Ele próprio brinca que seus ouvidos são como estações de tratamento de esgoto, já que todos os podres que envolvem políticos chegam até ele. O cotidiano aparentemente calmo e glamoroso é estremecido quando ele se vê envolvido em um caso de assassinato. Casada com o senador Larry Lockner (Willem Dafoe), Lynn mantinha uma relação extraconjugal com um lobista, mas certo dia se surpreende ao entrar na casa do amante e encontrar seu corpo esfaqueado. Page, sempre a acompanhando, é o primeiro a saber da tragédia, mas também o primeiro a ser apontado como suspeito e terá que provar sua inocência custe o que custar. Para proteger a amiga que não poderia ser acusada de adultério e manchar a reputação do marido, ele a oculta da história. O próprio bon vivant chama a polícia, diz que foi procurar a vítima para tratar de negócios e o encontrou morto, mas seu passado o condena e o detetive Mungo Tenant (William Hope) parece querer tirar algum proveito do caso. Filho e neto de políticos e empresários influentes, Page sobrevive às custas do nome famoso reforçado pelo título terceiro que agrega ainda mais tradição, no entanto, o envolvimento em um escândalo também seria prejudicial para ele visto que seus antepassados são sinônimos de homens de sucesso e boa índole, fama que deveria levar adiante ao menos para garantir seu padrão de vida até a sua morte.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

FOCUS

NOTA 8,0

Longa mostra o quão assustadora
era a perseguição a judeus na
década de 1940 e um simples detalhe
visual poderia condenar alguém à morte
É impressionante, mas quando parece que não há mais o que ser explorado acerca do período da Segunda Guerra Mundial, incluindo fatos da fase pré e pós-conflitos, sempre surge alguma nova história para elucidar um pouco mais sobre este triste episódio. É claro que as mais lembradas são aquelas que concentram ações nos campos de batalha ou que vão fundo nas questões acerca do nazismo, mas imagine quantas milhares de histórias interessantes e impactantes aconteceram e ninguém ficou sabendo. É uma pena que as memórias vivas da época já não estão mais entre nós, contudo, o cinema assume um papel tão importante quanto os livros para manter ativos tais registros e quem sabe até produzir novos documentos. Não eram apenas as pessoas que estavam em meio ao furor do fogo cruzado que corriam riscos, mas até quem estava quietinho dentro de casa e a muitos quilômetros de distância também podia sofrer com respingos desta onda de violência e intolerância. O drama Focus fala justamente sobre esse período de medos, ódio e insegurança de não saber se estaria vivo no dia seguinte. Baseado no livro homônimo de Arthur Miller, a trama roteirizada por Kendrew Lascelles se passa em Nova York em meados da década de 1940. Lawrence Newman (William H. Macy) é um homem maduro, introspectivo, inseguro e defensor de convenções. Sem esposa, filhos ou amigos, sua rotina se resume a ida ao trabalho e a volta para casa onde vive com sua idosa mãe (Kay Hawtrey). Comprovando que sua vida sem graça pode ter algo a ver com problemas na infância, as primeiras cenas do filme mostram um carrossel que gira rapidamente até que o protagonista acorda assustado e suando. O sonho na verdade é um pesadelo corriqueiro e que o faz se levantar. De poucas palavras, mas muito observador, do alto da janela de seu quarto ele passa a admirar um casal aparentemente se divertindo na rua, provavelmente matando sua curiosidade já que o amor carnal não parece fazer parte do seu universo. De repente, o homem e a mulher passam a agir estranhamente, como se ele quisesse forçá-la ao sexo, mas a visão fica comprometida por conta de um carro estacionado. Ao invés de prestar socorro ou chamar a polícia, Newman restringe-se a voltar para a cama, mesmo estando inquieto emocionalmente. No dia seguinte fica sabendo pelo vizinho Fred (Meat Loaf Aday) que a mulher estava acompanhada de outro morador da rua, ambos embriagados, mas que nada demais aconteceu.

domingo, 3 de agosto de 2014

AMOR E MORTE

Nota 7,0 Embora não se aprofunde nas polêmicas, drama trata a paixão obsessiva de forma leve

Geralmente ligamos a ideia de obsessão a algo ruim, objetivos que podem destruir vidas quando beiram a loucura, mas uma ideia fixa também pode trazer benefícios dependendo do ponto de vista. Apesar do título, o drama Amor e Morte aborda de forma leve fixações, aversão à modernidade e até homossexualismo contando a história de transformação vivida por Giles De’Ath (John Hurt), um escritor inglês maduro que parece ter parado no tempo. Apesar da fama conquistada com seus livros, o viúvo não suporta nada que é moderno ou que faça referências à cultura de massa e bens de consumo. Intelectual ao extremo, nem mesmo um aparelho de TV tem em casa, assim a única vez que cedeu uma entrevista a um programa acabou se sentindo mal como se tivesse traído princípios imutáveis. Amante de um cinema de qualidade e conteúdo, certo dia ele se interessa pelo cartaz de um filme e decide ir assistir, mas acaba entrando na sala errada onde era exibida uma comédia adolescente com apelo sexual. Imediatamente ele se levanta irritado, mas algo surge na tela grande que o faz permanecer na sessão tortura: o rosto do jovem e belo ator Ronnie Bostock (Jason Priestley), um ídolo das adolescentes americanas. Fascinado pelo rapaz, Giles pouco a pouco se sente aguçado a desbravar sua trajetória profissional e principalmente fatos sobre a vida íntima. Ele enfrenta a ironia do bilheteiro do cinema para encarar mais uma sessão da comédia, passa a bisbilhotar as bancas de jornal em busca de revistas que tragam ao menos uma nota sobre o ator e enquanto monta uma pasta de arquivos com tudo referente a ele até se imagina participando de um fútil programa de perguntas sobre a vida de celebridades respondendo a tudo de forma rápida e correta. O autor até decide comprar um videocassete para se deleitar com os vários filmes do galã no aconchego de seu lar, o que o obriga a ceder e adquirir uma televisão. O gosto por assistir repetidas vezes um mesmo filme para admirar um ídolo inclusive se transforma em objeto de estudo em uma de suas palestras e aqueles que conhecem o escritor tem a certeza de que ele está perturbado, só não sabem as razões. Ao descobrir que Ronnie mora em Chesterton, em Long Island nos EUA, Giles impulsivamente decide viajar para conhecê-lo, mas seu interesse não é de um simples fã. Ele está apaixonado.

sábado, 2 de agosto de 2014

ROMASANTA - A CASA DA BESTA

Nota 6,5 Apesar do subtítulo nacional, suspense reinventa o mito do lobisomem com originalidade

Um título mal escolhido pode levar um filme ao fracasso e Romasanta – A Casa da Besta comprova isso. Remetendo a uma temática sobre exorcismo ou algo do tipo, na realidade esta produção espanhola revisita o mito do lobisomem, mas em nada lembra Grito de Horror, Um Lobisomem Americano em Paris ou coisas do tipo. Praticamente ignorando elementos de horror e prendendo-se ao suspense com toques dramáticos, a trama desenvolvida por Elena Serra e Alberto Marini se passa na cidade de Galícia, na Espanha, no ano de 1852 quando a população está alvoroçada com o grande número de pessoas desaparecidas em contraponto a elevada concentração de cadáveres encontrados dilacerados. Tais atrocidades poderiam estar sendo causadas por ataques de lobos, tanto que o governo está oferecendo recompensas para cada exemplar da espécie capturado.  No entanto, há indícios de que um lobisomem estaria cercando a região, hipótese desmentida pelo Professor Philips (David Gant) que supõe que um assassino necrófilo seja o autor das mortes. Detalhe, ele é atraído para a cidade para analisar os corpos de quatro vítimas, mas estas são apenas aquelas que foram descobertas por populares. Na verdade há dezenas de cadáveres escondidos, todos destrinchados de forma semelhante. Há sinais de cortes com lâminas e a gordura de algumas partes dos cadáveres foram removidas. Tais desconfianças levam ao nome de Manuel Blanco Romasanta (Julian Sands) um caixeiro viajante que também ganha alguns trocados vendendo sabão que faz com banha em sua própria casa. Sua esposa María (Maru Valdivielso) e a filha Teresa (Luna McGill) foram mortas também, mas este homem parece pouco ligar para o ocorrido e rapidamente passa a assediar Barbara (Elsa Pataky), sua cunhada que cada vez mais parece corresponder ao repentino desejo. A moça escapa de um acidente sendo salva por um estranho que diz q um dia ousou olhar nos olhos do diabo, no caso o Mal é representado pela figura do lobo. Desde então, Antonio (John Sharian) tem sido condenado a viver uma vida infernal na qual não consegue suprimir seus instintos de caça e forçado por Romasanta a matar, como uma espécie de discípulo.

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