sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A BRUMA ASSASSINA

NOTA 7,5

Fita clássica de terror envelheceu
bastante, mas a nostalgia só agrega
pontos positivos a uma obra que visa
apenas assustar, porém, sem apelações
Ter medo da escuridão é coisa do passado? Sabemos que esta é uma das fobias mais comuns, mas será que no início da década de 1980 ela já estava saturada no cinema? Sem dispensar os temores causados pela ambientação noturna, John Carpenter cravou seu nome como realizador de filmes de terror e suspense graças a uma fumaça maldita quando lançou A Bruma Assassina, produção simples, mas muito eficiente (pelo menos para a época). Hoje ela é aquela obra que aguça a curiosidade de amantes do cinema e alimenta a nostalgia de muitos. Não chega a ser considerada um marco do gênero como foi The Evil Dead - A Morte do Demônio de Sam Raimi, mas as bases são parecidas: causar pânico gastando pouco e abusando da criatividade. Sem apelar para a sanguinolência e mutilações explícitos, Carpenter na época já não era um estreante nesta arte, mas foi a partir deste trabalho que veio a se tornar uma referência para o cinema fantástico e de horror. Roteirizado por ele mesmo em parceria com Debra Hill a partir de um conto do cultuado escritor americano Edgar Alan Poe, a trama se desenvolve na pitoresca e turística Anthony Bay, uma pequena cidade do litoral dos EUA prestes a completar o centenário de sua fundação. Enquanto a população se prepara para comemorar a data, o tranquilo povoado começa a vivenciar estranhas situações. Durante a noite um intenso nevoeiro avança rapidamente pelo mar e chama a atenção que vem acompanhado de estranhas luzes sempre surgindo após a meia-noite, considerada por muitos como a hora dos mortos. Por coincidência, no dia seguinte moradores relatam fatos curiosos e desaparecimentos e o fenômeno volta a se repetir nas madrugadas seguintes, sempre com a movimentação da névoa sendo relatada pela radialista Stevie Wayne (Adrienne Barbeau) que trabalha no alto de um farol. Entre uma música e outra, ela é responsável por informar sobre as condições climáticas noturnas à navegantes e motoristas insones como Nick Castle (Tom Atkins) que dá uma carona à Elizabeth Solley (Jamie Lee Curtis), com quem logo vai para a cama apressadamente sem nem mesmo fazerem as apresentações formais.

Bem, tentar escrever uma sinopse ou esmiuçar os perfis dos personagens é perda de tempo já que todos assim como as situações são reféns do aparecimento do tal nevoeiro. Temos a presença luxuosa de Janet Leigh, de Psicose, como Kathy Williams, a prefeita da cidade e simbolizando uma homenagem ao mestre Alfred Hitchcock que morreu no mesmo ano de lançamento do filme. Já Hal Holbrook interpreta o Padre Malone cujo perfil é enfraquecido por logo de cara ser revelado que o segredo para os eventos estranhos estão guardados consigo. Os personagens não são aprofundados e a narrativa não sofre desdobramentos, mas isso pouco importa. Carpenter não queria rodeios, mas sim ir direto ao ponto construindo uma narrativa de horror sucinta e objetiva que no final revela que bem mais assustador que as assombrações pode ser a crueldade do ser humano e sua ganância. Reza a lenda que os festejados fundadores de Anthony Bay, que viriam a ganhar um monumento em praça pública, construíram o povoado com dinheiro roubado de um naufrágio e muitos perderam suas vidas por negligência neste episódio. Já dá para imaginar o que isto tem a ver com a tal névoa. Quando ela surge traz junto algo desconhecido e a ideia era justamente manter a incógnita, deixar para o espectador concluir o que provocava as mortes. Fantasmas? A fumaça seria tóxica? A visão prejudicada levava as pessoas a sofrerem acidentes fatais? No entanto, atendendo a pedidos do estúdio, o diretor acabou tendo que adicionar algumas cenas que revelam parte do mistério, algo que enfraquece ligeiramente a obra, mas combina com o estilo de produção em voga na época e que alguns anos mais tarde ajudaria a rotulá-la como um legítimo filme B, porém, dos bons. O que ameaça a cidade é apresentado de forma velada, como vultos e luzes vermelhas que surgem em meio a névoa platinada, mas ligando aos fatos sobre a suspeita fundação do local fica fácil matar a charada, ainda mais para quem assistiu ao tenebroso (no mau sentido mesmo da palavra) remake A Névoa que abusou de efeitos especiais que não deixaram qualquer resquício do clima intrigante do filme oitentista, mesmo ele sendo dotado de efeitos especiais capengas, porém, que ajudam a caracterizar a obra. Aliás, a simplicidade devido ao curto orçamento pode ser encarada como um trunfo.

Assim como a maioria dos filmes com temáticas fantasiosas criados nos anos 80, as trucagens visuais denunciam o quanto a produção envelheceu. A abundância e a rapidez com que a fumaça impregna nos cenários dá a sensação de que a grande ameaça é alguma substância tóxica ou algo do tipo, embora não se pode negar que as cenas em que mostram ela avançando o oceano em direção à faixa de areia da cidade sejam enigmáticas, ainda mais com o sutil efeito sonoro que as acompanham. Aliás, a trilha incidental a base de instrumentos eletrônicos e sintetizador acentuam a nostalgia. Se a filmografia de Carpenter hoje inspira novos diretores, dá para notar que ele mesmo teve a quem se espelhar. Assim como o diretor italiano Dario Argento, embora este adore tingir a tela com generosas doses de sangue, o norte-americano prefere valorizar a construção de uma atmosfera de horror e a história deve estar a serviço deste objetivo, o que justifica o clima surrealista de A Bruma Assassina. Todos os personagens têm pouco a dizer e não tardam a agir unicamente em função do pânico, o velho truque para o espectador se entreter prevendo quem sobrará para contar história. Ainda assim, não vemos uma gota sequer de sangue e a cena de horror mais comum é uma tola sequência em que a personagem de Curtis, vindo do sucesso de Halloween - A Noite do Terror, leva um tremendo susto quando um cadáver em decomposição despenca em cima dela. Fora isso, tudo é sugestionado para induzir o pavor, o que eleva o nível da obra consideravelmente. Como não se faz um filme só de sustos e o enredo propriamente dito era tão mole quanto gelatina, Carpenter ainda teve que atender mais uma exigência do estúdio e criou um prólogo para aumentar um pouquinho a metragem da fita. Curiosamente, tal sequência adicional é o que há de mais memorável na produção, pois é a que melhor deixa explícito seu objetivo: causar medo sem a necessidade de justificativas plausíveis. Para tanto, o diretor recorreu ao velho clichê do acampamento em que algumas crianças se reúnem em torno de uma fogueira, não por acaso em torna da meia-noite, para ouvirem uma história de arrepiar contada por um idoso com voz soturna. Nada mais convidativo para quem desde pequeno curte uma sessão coruja e tem nostalgia ou curiosidade a respeito de um tempo em que crianças e adolescentes tinham medo de crendices e não da realidade. 

Terror - 80 min - 1980 

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