terça-feira, 12 de agosto de 2014

CAMPEÃO

NOTA 8,0

Baseado em fato reais, drama
aborda a rivalidade de irmãos nas
piscinas e fora delas, tudo incentivado
por um pai inescrupuloso e frustrado
Costumamos reclamar da previsibilidade de alguns filmes, mas para que complicar o que pode ser tão fácil? Às vezes a receita repetida surpreende justamente pela sua simplicidade como é o caso de Campeão, título que reforça o formato convencional de mais uma história imersa no universo esportivo, neste caso, literalmente mergulhado nele. Baseado em fatos reais, o longa resgata as memórias da infância e da adolescência de Tony Fingleton (interpretado nas duas fases citadas respectivamente por Mitchell Dellevergin e Jesse Spencer) que enfrentou muitos desafios dentro e fora das piscinas para vencer na vida. Quando era criança, durante os anos 50 na pequena cidade de Brisbane, na Austrália, a diversão preferida dele e de seus irmãos era aproveitar os dias quentes na piscina de um clube público, mas quando voltava para casa sua alegria cessava por causa do pai, Harold (Geoffrey Rush), um beberrão que fazia questão de ser ríspido com Tony, principalmente por ele não gostar de esportes rotulados masculinos como o futebol ou o boxe. O pai declaradamente preferia seu primogênito, o metido a valentão Harold Jr. (Kain O’Keefe e mais velho vivido por David Hoflin) que adorava provocar seu irmão por causa de seu apreço por coisas mais refinadas como a literatura e o piano. O patriarca só começou a ver Tony com outros olhos quando descobriu seu talento para a natação e passou a incentivá-lo a treinar, mas paralelo a isso ele elege um novo queridinho entre a prole, John (Thomas Davison e quando adulto Tim Draxl), que também se dedicará a esse esporte. Os irmãos mais novos do protagonista, mais um garoto e uma menina, praticamente não tem função na trama, somente quando adultos participam um pouco mais como observadores da degradação da família. Tony e John se davam muito bem, mas a rivalidade entre eles será despertada e explorada ao máximo pelo pai, um tipo traumatizado na infância e que passou anos somatizando tristezas tornando-se um adulto severo e mau caráter. No início, pouco sabemos sobre Harold, mas ao longo da narrativa percebemos a tristeza de suas memórias quando criança e a frustração de não ter vencido na vida, assim ele se afoga nas bebidas e constantemente tem crises de violência, um péssimo exemplo passado aos filhos, principalmente ao Júnior que já demonstrava uma personalidade mais arredia desde pequeno.

Dora (Judy Davis), a matriarca dos Fingleton, vivia atribulada com os afazeres domésticos e se ressentia da má situação financeira do clã já que o marido vivia desempregado e quando conseguia algum dinheiro gastava com bebidas. Ela tentava dedicar-se a todos os filhos igualmente, mas acabava sendo mais atenciosa com Tony por conta do desprezo com que o marido tratava o garoto. Aliás, não raramente ela servia como saco de pancadas do companheiro, mas para a época conservadora uma separação seria um fardo mais pesado de carregar que suportar viver sob ameaças, até porque Harold tinha seus momentos de sobriedade, ainda que acompanhados de mau humor. A certa altura é até mencionado que pessoas como ele não merecem ter filhos, mas já que os teve por que não forçá-los a serem os campeões que ele não foi? Culpando o casamento precoce por não ter conseguido seguir a carreira esportiva, obviamente descontando a raiva na esposa, com sua insistência ele acaba assumindo a posição de vilão da história, pois suas atitudes egoístas acabaram por pouco a pouco desunir a família. Após virar as costas para Junior ao perceber que ele não seria um grande astro do futebol americano, o que poderia levar o primogênito a ser sua cópia cuspida e escarrada, o pai volta suas atenções aos filhos nadadores para formar um campeão, no entanto, não se mostrava satisfeito com as conquistas de Tony que constantemente competia em eventos oficiais contra o irmão. Na verdade, Harold queria que John sempre saísse consagrado das piscinas, mas doía muito mais saber que algumas vezes perdeu justamente para o filho que ele menosprezava. Por que essa predileção por um deles? Isso é um mistério, mas o fato é que as atitudes seletivas do pai acabaram provocando a ruptura entre os irmãos e a frustração do seu queridinho que ao longo da narrativa passa a incorporar características do perfil do pai. Se não fosse o roteiro escrito pelo próprio Tony, que enveredou pela escrita e produções de filmes após se aposentar no esporte, algumas passagens poderiam soar inverossímeis tamanha a crueldade como o fato de Harold fazer um cantinho especial na casa para colocar fotos, troféus e medalhas de John e simplesmente ignorar totalmente o outro nadador que chegou a fase adulta implorando por uma palavra de carinho do pai e treinador. Tony é retratado como um rapaz calmo, amoroso e que sofreu por anos calados, mas seu grito de liberdade coincidiu com sua consagração definitiva nas piscinas como um dos maiores nadadores da Austrália.

Para o espectador embarcar nesta emocionante história não é preciso fazer muito esforço. Os dizeres baseado em fatos reais já é um convite e tanto e quem nunca se sentiu ao menos uma vez na vida preterido por alguém? Se a sensação é ruim esporadicamente, imagine passar anos nesta situação e ainda com o agravante que a obsessão do pai em moldar um campeão acaba por estremecer toda uma família. O diretor Russell Mulcahy, de Highlander – O Guerreiro Imortal, enriquece o roteiro tradicionalíssimo do esportista humilde e sofredor que vence na vida com seus próprios méritos apostando em angulações de câmeras diferenciadas, cortes dinâmicos e divisão da tela em vários quadros para agregar uma bem-vinda agilidade às várias cenas de competições e treinos. O que poderia ser maçante então se torna uma empolgante experiência. O dinamismo impresso nas cenas passadas nas piscinas transporta o espectador para as arquibancas dos ginásios a ponto de sentir a intensidade dos sentimentos ambíguos vividos por Harold ao ver seus filhos competindo. Raiva, entusiasmo, preocupação e desprezo se revezam em mais uma excelente composição de Rush, excelente ator que transita muito bem entre os mais variados perfis, aqui inclusive tendo seus momentos de louco. Aliás, o grande ponto positivo da produção fica por conta das interpretações vigorosas do elenco. Judy Davis pode parecer apagadinha no papel da esposa submissa e mãe exemplar, no entanto, compõem com fidelidade o perfil da mulher simples e respeitável dos anos 50 e 60, aquele tipo cujo grande objetivo de vida é ter uma família feliz. Pode ficar um pouco confuso distinguir no início quem é quem entre os irmãos Fingleton, mas na fase de adolescentes as diferenças ficam mais nítidas graças aos esforços dos jovens intérpretes e até Júnior que perde precocemente seu posto de filho predileto tem um grande momento. Curiosamente, a irmã Diane ganha apenas alguma falas durante a narrativa, mas ela é quem ajudou Tony a escrever o livro que inspirou o filme. Apesar do título genérico, Campeão é muito superior a outros filmes que enfocam o mundo esportivo simplesmente porque seus personagens são verdadeiros e não demonstram saber o que acontecerá no futuro, ao contrário de outras produções em que os atores parecem debochar do espectador enquanto choram lágrimas de crocodilo. Embora saibamos de antemão o final, é impossível não torcer por Tony, sofrer com Dora e detestar Harold, além de vibrar com as sequências de competição. Aparentemente sem ousadias, Mulcahy propõe um contraste interessante: oferece a beleza das cenas aquáticas em contraste ao drama familiar, um lamaçal com profundidade tão ou mais assustadora quanto uma piscina de campeonatos.

Drama - 114 min - 2003 

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