quarta-feira, 27 de agosto de 2014

DANÇA COMIGO?

NOTA 7,0

Apesar do pano de fundo do
mundo da dança, longa fica
devendo em alegria e emoção, mas
ainda assim agrada as mulheres
Hollywood não admite que exista cinema rentável ou criativo fora de seus domínios? Seria puro bloqueio criativo dos profissionais ianques que precisam abastecer o mercado cinematográfico mesmo que à base de repetecos? Podem ser as duas razões, mas o fato é que os executivos norte-americanos do ramo não podem ver uma produção estrangeira fazendo sucesso, seja de crítica e/ou público, que logo correm atrás dos direitos sobre o texto para agilizar um remake. A medida objetiva descaradamente lucrar com facilidade já que se investe em um produto previamente testado, com publicidade engatilhada e com o bônus (ou seria ônus?) de algumas vezes o filme original pertencer ou cair no gosto do circuito alternativo, o que traz certa aura de intelectualidade à refilmagem. Se esse último item alimenta o ego dos espectadores de filmes-pipoca, para os mais “cabeças” já é um motivo para dispensar uma conferida na nova versão e foi mais ou menos dessa maneira que o público se comportou diante de Dança Comigo?, comédia romântica decalcada de um longa homônimo japonês lançado em 1996. Seja lá qual era a empresa ou empresário que detinha na época os direitos de explorar o filme original, o fato é que ele não foi disponibilizado no mercado para aproveitar o gancho de uma versão ianque ou talvez foi proibido de circular justamente para evitar comparações já que as refilmagens costumam ser adaptadas para a realidade da terra do tio Sam e servidas com elenco estrelar para escamotear defeitos. Bem, a estratégia deu certo e o longa caiu rapidamente no gosto popular, principalmente o feminino, e deu o pontapé inicial a uma frutífera corrente de produções cujo mundo das danças serviu para alicerçar tramas previsíveis e açucaradas. Baseado na obra de Masayuki Suo adaptada por Audrey Wells, do também cultuado pelas mulheres Sob o Sol da Toscana, o roteiro traz Richard Gere aproveitando sua fama de pé de valsa pouco tempo depois de colher elogios pelo musical Chicago. Ele dá vida ao advogado John Clark que está passando pela famosa crise da meia-idade e levando uma rotina da casa para o trabalho e vice-versa. Apesar de bem-sucedido profissionalmente, amar sua esposa Beverly (Susan Sarandon) e se dedicar ao máximo aos filhos, ele acredita que está faltando algo em sua vida para ser feliz completamente.

Desde pequenos somos condicionados a seguir alguns passos que determinariam o sucesso de um indivíduo, mas parece que depois de formar sua própria família e ter estabilidade na profissão os planos começam a se extinguir. Viver é jamais deixar de sonhar, mas Clark chegou naquela fase onde acredita que já conquistou tudo o que necessitava, mas pensar dessa forma só faz mal. Quantas pessoas você já não ouviu dizer que venceram a depressão ou até outras doenças de cunho emocional a partir do momento em que se viram engajadas em atividades esportivas, trabalhos voluntários ou qualquer tipo de hobby? Pois bem, o advogado recobra sua alegria de uma forma que nem ele mesmo poderia um dia imaginar: dançando. Certa noite inesperadamente ele decide descer do trem após o trabalho e entrar em uma academia de danças que passava em frente frequentemente e onde lhe chamava a atenção a imagem de uma bela mulher na janela. Ela é Paulina, uma das professoras que embora trabalhe em um ambiente teoricamente alegre deixa transparecer uma imagem triste e melancólica. Decidido a se aproximar da moça, Clark decide secretamente se matricular no curso e quando percebe está completamente envolto a um novo mundo onde há movimentos, sons, amizade e amor. Contrariando expectativas, o longa não estreita os laços entre aluno e professora. O cinquentão vai percebendo que foi atraído ao local por pura curiosidade, até porque a bailarina corta rapidamente qualquer esperança de que eles possam ter qualquer envolvimento amoroso, mas o acaso foi benéfico para ele mesmo que se tornou um homem mais relaxado e divertido. No entanto, ao notar sua mudança de comportamento e seus atrasos constantes, Beverly decide contratar um detetive particular, pois desconfia que está sendo traída. Com direção de Peter Chelson, do simpático romance Escrito nas Estrelas, a trama em si é puro clichê, mas reduzir o texto original a isso foi difícil. Parece irônico, mas é verdade. Na versão japonesa um contador entediado com sua vida sem graça resolve ter aulas de dança escondido da família, ou seja, mesma premissa do longa americano, mas o argumento em produção oriental oferecia um conflito melhor. O povo nipônico, em sua maioria, é conhecido pela introspecção e recato, assim um homem do tipo sério assumir o gosto pela dança é uma ousadia e tanto, o que explica o sucesso do filme japonês entre os amantes de filmes alternativos, mesmo sendo um lançamento praticamente com os pés no século 21. Tradição é tradição, mas a questão cultural é praticamente exterminada na refilmagem.

Ainda que exista o preconceito de separar as atividades masculinas e femininas, nos EUA assim como em boa parte dos países ocidentais o tabu de que um homem não pode dar umas reboladinhas no salão já é ultrapassado há tempos o que nos faz voltar às indagações iniciais deste texto.  Além de não tolerar o sucesso alheio, Hollywood já está em crise há muitos anos e seu desespero para se manter a leva a negar certas obviedades. O argumento original só tem serventia dentro de contextos específicos, tanto que foi criado um personagem coadjuvante, o executivo Link (Stanley Tucci), que além de ser apaixonado pela dança ainda tem problemas quanto a sua sexualidade. Usando uma peruca para esconder sua identidade dos momentos em que revela quem realmente é, tal tipo é o que salva a produção do marasmo ao lado de Bobbie (Lisa Ann Walter), uma gordinha sem papas na língua.  Eles é que justificam o rótulo de comédia romântica porque se dependesse dos protagonistas... Na verdade esta é uma história a respeito do renascimento emocional através de alguma atividade, ou seja, busca inspirar o espectador a almejar o mesmo. Contudo, a mensagem seria melhor transmitida caso o papel de Clark fosse entregue a um ator de pouca fama ou até mesmo esquecido pelo público. Gere tem a imagem de sucesso estampada no rosto, mas se esforça para convencer na transição do homem deprimido para o confiante e feliz. Nesta construção conta muito também a participação da personagem de Sarandon que ganhou mais espaço que no longa japonês. Ainda que seja um papel bastante secundário, o carisma e a naturalidade da atriz contam muito para seu destaque, o contrário do que acontece com Lopez que pela milésima vez repete o perfil da garota bonita com cara de choro. A jovem na época estava em um período conturbado tanto na vida pessoal quanto profissional e perdeu ou não lhe deram a chance de se reerguer com este trabalho. Paulina surge nos primeiros minutos de forma enigmática, mas logo se torna desinteressante, talvez reflexos do próprio clima dos bastidores já que a atriz se desentendeu com Gere e até se recusou a participar dos eventos de divulgação da produção. Sem nem mesmo contar com uma canção-símbolo como Flashdance ou Dirty Dancing, realmente Dança Comigo? está longe de transparecer a alegria ou a emoção de um espetáculo de dança, nem mesmo seu clímax em estilo show garante o grand finale arrebatador, mas de qualquer forma é aquele filme com chances de sobreviver a implacável ação do tempo graças a sua temática e censura livre.

Comédia romântica - 106 min - 2003

-->
DANÇA COMIGO? - Deixe sua opinião ou expectativa sobre o filme
1 – 2 Ruim, uma perda de tempo
3 – 4 Regular, serve para passar o tempo
5 – 6 Bom, cumpre o que promete
7 – 8 Ótimo, tem mais pontos positivos que negativos
9 – 10 Excelente, praticamente perfeito do início ao fim
Votar
resultado parcial...

Nenhum comentário:

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...