quinta-feira, 14 de agosto de 2014

DESAFIO NO ÁRTICO

NOTA 6,0

Drama com mensagens edificantes
sobre amizade e superação em meio a um
ambiente hostil carece de calor humano,
ainda que protagonistas cativem
Histórias de pessoas que sobreviveram a várias adversidades são exemplos de perseverança e autoestima que o cinema adora explorar. Em geral produções do tipo costumam agradar pelas mensagens positivas que carregam, mas a cada novo exemplar fica difícil escamotear a sensação de que você já viu esse filme ao menos uma vez e as comparações com similares são inevitáveis. Conhecido por sua atuação em Os Intocáveis, um clássico dos anos 80, o ator Charles Martin Smith também é diretor e roteirista e, desculpe a redundância, tinha um verdadeiro desafio ao assinar o drama com toques de aventura Desafio no Ártico, adaptação do conto “Walk Well My Brother” de Farley Mowat. Mesmo com um rico material em mãos, o que fazer para a obra não ser apenas mais uma história de superação fadada ao esquecimento? Infelizmente, o tempo comprovou o triste destino da fita, mas a quem interessar fica a dica de que o filme é acima da média. A trama tem como protagonista Charlie Halliday (Barry Pepper), um jovem piloto de avião condecorado por sua participação na Segunda Guerra Mundial, no entanto, seu perfil inicialmente desperta antipatia. Muito seguro de si e mulherengo, em meados da década de 1950 passou a prestar serviços para uma empresa privada de aviação na gélida região de Yellowknife, no noroeste do Canadá, fazendo entrega de bens e pessoas. Certa vez ele é convocado por Walter Shepherd (James Cromwell), seu superior, para testar um novo modelo de aeroplano e durante a realização da tarefa precisaria pousar em uma isolada região para deixar uns barris de combustível. Depois disso, faria um servicinho extra de entrega que o obrigaria a sair da rota original, mas desiste da ideia ao ser procurado por uma família de esquimós, representantes do povo dos Inuits, que lhe oferecem valiosas presas de marfim de animais como pagamento caso aceite levar a filha tuberculosa, Kanaalaq (Annabella Piugattuk), a procurar ajuda em um hospital, o que o obrigaria a voltar para Yellowknife antes do previsto. Entretanto, um problema mecânico acaba fazendo com que a aeronave caia nas águas de uma remota área onde a vegetação é escassa e não há o menor sinal de civilização.

Com o equipamento de comunicação danificado, assim como o monomotor, Halliday e Kanaalaq são obrigados a sobreviver as adversidades do clima, da natureza, da escassez de comida e principalmente vencer a barreira de comunicação entre eles, tudo isso enquanto pensam em uma forma de saírem daquele lugar desértico. Quando a situação chega ao limite, o aviador decide ir sozinho em busca de ajuda qualquer que fosse a distância do vilarejo mais próximo, mas para sua surpresa alguns dias após começar a travessia sem destino certo ele reencontra a garota que prova coragem e segurança suficientes para encarar os percalços da situação, talvez até mais confiante que o rapaz para quem até então aparentemente não existiam obstáculos que pudessem desafiá-lo. Com a convivência eles passam a nutrir uma relação de cumplicidade, uma ligação curiosa na qual os dois demonstram sentimentos como se fossem irmãos, por exemplo. A mensagem edificante vai se intensificando conforme os desafios surgem e vão sendo superados, reforçando a ideia de que os momentos de dificuldades e as companhias podem ensinar muito e transformar vidas. Certamente Halliday sairia transformado deste episódio ou alguém suspeitava de um final diferente? Infelizmente, a estética de filme feito para a TV, embora seja um produto criado para as telonas, denuncia a simplicidade e a previsibilidade da obra, aliás, seu desfecho já é apresentado como cena de introdução. O interesse então seria acompanhar os fatos que levariam até a visão de um homem barbado e esgotado sendo resgatado em meio as montanhas geladas, assim é justificável os poucos minutos (felizmente!) gastos para apresentar quem era o protagonista antes desse literal sumiço do mapa. O playboy arrogante e interesseiro aos poucos cede lugar a um rapaz sofrido e regenerado, tudo como reza a cartilha do drama edificante. Porém, ainda que não entregue uma interpretação digna de prêmios e em alguns momentos se apresente tão frio quanto a ambientação da história, Pepper consegue cativar a simpatia do público. Ele é aquele típico ator que você sabe que já o viu em algum filme, mas não sabe em qual. Geralmente ocupando papéis secundários, interpretar Halliday poderia ser seu grande momento e confiava tanto no projeto que até aceitou se associar a ele como produtor, no entanto, o filme não fez sucesso e o ator voltou a ser um estranho no ninho hollywoodiano.

Sua parceira de cena, Annabella, também foi relegada ao ostracismo e injustamente, pois conquista a audiência com seu carisma e naturalidade, mesmo que sua personagem seja prejudicada por alguns erros narrativos. Além de rapidamente se comunicar com perfeição usando o idioma inglês em substituição aos gestos, se a aproximação com o protagonista se deve ao seu estado crítico de saúde, como em boa parte do filme ela aparenta estar ótima e sem traço algum da tuberculose? É óbvio que o conflito é resgatado na reta final para justificar a trilha sonora elevada e com notas emotivas, mas tirando este deslize a atriz consegue mostrar seu potencial, mas é uma pena que seu rosto com traços ligeiramente exóticos a obriguem a ser listada em um seleto e ingrato grupo de atores, aqueles tipos que só são lembrados para interpretar indígenas, árabes e outros povos com características visuais bem definidas. Apesar das boas atuações de Pepper e Annabella, o que prejudica o desenvolvimento da dupla e consequentemente do filme como um todo é que Smith não consegue transmitir com veracidade a sensação de desespero que é estar no meio do nada e amargando temperaturas abaixo de zero. Entre um rompante de raiva aqui, um temporal ali e um ataque de insetos acolá, a condução do roteiro fica devendo aquele grande momento que faz o público temer pelo que pode acontecer aos personagens, sendo que a trama só ganha um pouco de ação quase no fim quando eles são atacados por uma manada de animais selvagens. Até matam um deles para conseguir alimento e reforçar o instinto de sobrevivência acionado em situações limites. Ainda assim, os confusos sentimentos de um ser humano perdido em meio a imensidão de um cenário desconhecido e isolado não são retratados neste caso em sua totalidade. Por outro lado, felizmente o enredo descarta forçar qualquer situação romântica entre o aviador e a esquimó o que garante alguns pontos positivo à obra que se torna mais crível, não esquecendo também de adicionar algumas cenas de Shepherd e outros colegas de trabalho de Halliday mostrando as reações quanto a seu sumiço e aos resultados negativos das ações de uma equipe de busca. De qualquer forma, o longa garante uma boa sessão da tarde sem apelações e quem decidir assistir a Desafio no Ártico em um dia frio ou chuvoso poderá se envolver ainda mais com a trama. Recorrendo a locações reais e um trabalho de fotografia excepcional, poucos filmes conseguem transmitir com tanta perfeição o clima de um território gélido e inabitado.

Drama - 103 min - 2003 

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