quarta-feira, 20 de agosto de 2014

FOI APENAS UM SONHO

NOTA 8,0

Reencontro dos astros de Titanic 

desnuda a intimidade de jovem casal em
crise, m
as o medo de assumir o fracasso
 é maior que a vontade de ser feliz
Os grandes pares românticos do cinema, principalmente aqueles da chamada Era de Ouro de Hollywood, são lembrados por trocarem um beijo apaixonado ao término de seus filmes invocando o famigerado felizes para sempre. O tempo passou e as histórias românticas sofreram transformações, assim outras formas de manifestar o amor, diga-se de passagem, mais realistas, também originaram cenas memoráveis, como abrir mão de um relacionamento em nome de um bem maior ou dar continuidade ao sentimento mesmo após a morte. Neste último caso poderia ser rotulado o mega sucesso Titanic, mas uma obra de tanta importância e opulência deixou um sabor amargo para os seus milhares de fãs com seu triste final. Durante muitos anos foi alimentada a expectativa de que Kate Winslet e Leonardo DiCaprio voltassem a formar par romântico e desta vez com direito a um final feliz, assim foram criadas muitas expectativas em torno de Foi Apenas um Sonho, produção que reuniria os astros que não se cruzavam em cena há mais de dez anos. A julgar pela demora para esse reencontro acontecer, o burburinho positivo da crítica e as menções em premiações, estava na cara que esta produção não se tratava de um romance água-com-açúcar qualquer. Aparentemente o maior trunfo da fita é também seu maior pecado. Se você ainda se esvai em lágrimas mesmo conhecendo a tragédia do transatlântico de traz para frente com riqueza de detalhes e continua sonhando em ver concretizado o romance das estrelas do filme, ainda que só na ficção, certamente irá se decepcionar com esta segunda parceria. Do drama-espetáculo eles ressurgem em uma obra intimista e angustiante que aborda o vazio existencial que assola os casais quando a relação cai na rotina e a euforia cede espaço à frustração. Adaptado do romance “Revolutionary Road” (título original do filme), primeiro livro do autor Richard Yates lançado em 1962 e quase cinco décadas mais tarde incluído na lista dos cem melhores de todos os tempos da revista “Time”, o enredo gira em torno do casal April (Winslet) e Frank Wheller (DiCaprio) e narra fatos de suas vidas desde o primeiro encontro. É preciso estar atento que em sua primeira metade os eventos são narrados de forma não-linear. Estamos na década de 1950 e eles já casados aparentemente transbordam felicidade a ponto de se julgarem pessoas especiais e dignas de um padrão de vida mais elevado.  Todavia, tal obsessão também significará a ruína desta união.

Frank trabalha como vendedor de seguros, mas está insatisfeito profissionalmente embora seu salário banque uma vida confortável aos dois filhos pequenos e à esposa, esta que é uma atriz frustrada que acabou se conformando com a vida de dona-de-casa. Já percebendo que a relação estava estremecida, o casal busca uma chance de recuperar o entusiasmo dos tempos de namoro em um novo lar e compram uma casa na rua de sugestivo nome Revolutionary Road, o que já funciona como uma alusão a revolução que tomará de assalto suas vidas. Os primeiros tempos na residência são muito bons e massageiam o ego dos Wheller que realmente se sentem pessoas privilegiadas, mesmo habitando uma rua requintada em uma região de subúrbio, algo enaltecido pela corretora de imóveis Helen Givings (Kathy Bates) que se encanta pelos jovens pombinhos logo que eles vão procurar seus serviços. Fazendo amizade, a vendedora passa a visitá-los com frequência ao lado do marido (Richard Easton) e do filho John (Michael Shannon), um ex-matemático com alguns problemas mentais que sofreu com os tratamentos desumanos disponíveis na época e que precisava de amigos na mesma faixa etária para se readaptar a sociedade. É justamente a insanidade deste rapaz, no sentido de não ter papas na língua, que dá o pontapé inicial para a crise dos vizinhos. Considerados por todos no bairro como exemplos a serem seguidos, John parece ser o único na vizinhança a perceber que os Wheller não são felizes e a compreender seus anseios, tanto que, entre outros tantos conselhos, alerta Frank que para ser um adulto de verdade é preciso ter um trabalho e a constatação dita por alguém “mentalmente comprometido” soa como um golpe certeiro, mas necessário. Até então na companhia de seguros ele simplesmente tinha uma ocupação para sustentar a família que formou precocemente, mas não gostava do que fazia e no meio da multidão sumia facilmente. Para alguém que se acha o último e disputado biscoito do pacote, não há nada mais frustrante que descobrir que não é melhor ou pior do que ninguém, simplesmente é um ser humano comum que abriu mão dos sonhos para sobreviver às adversidades. As frustrações profissionais do marido e da mulher acabam acarretando problemas para a relação conjugal, tanto que Frank possui uma amante no trabalho, mas vendo o casamento balançar April propõe que eles tentem recomeçar a vida abandonando o conformismo e apostando no acaso. Eles concordam em ir morar em Paris onde as estatísticas indicam que ela poderia ter um emprego bem remunerado em algum órgão do governo e assim o marido poderia se dedicar aos estudos visando uma carreira mais promissora e que lhe agrade, no entanto, alguns contratempos acontecem e adiam irremediavelmente a mudança.

Quantas pessoas seguem infelizes suas trajetórias com medo de apostar suas fichas em algo incerto, mas com chances de ser extremamente benéfico? Sonhar é muito bom, mas transformá-lo em realidade não é simples. Mais difícil ainda é se conformar quando eles são praticamente impossíveis de serem concretizados. Os Wheller vendiam a imagem de casal invejável, mas no fundo eles mesmos sabiam que não atingiram tal sonho. Nos anos 50 o mundo começou a voltar suas atenções para o chamado “american way of life” ou em bom português o estilo vencedor dos norte-americanos traduzido em belos cenários, porém, insossos e que escamoteiam seus vazios existenciais. As casas em tons claros, com belos jardins e desprovidas de cerca transmitem uma falsa impressão de felicidade e sucesso, ideias que o próprio casal protagonista comprou provavelmente na ilusão de que isso poderia resolver seus problemas guardados em segredo. Desmantelar esse pensamento narcisista e utópico parece ser uma obsessão do diretor Sam Mendes que em seu trabalho de estreia, Beleza Americana, já abordava a temática sem medo algum, ousadia que rendeu ótima bilheteria e muitos prêmios, inclusive oito Oscars, o que prova que as novas gerações da terra do tio Sam não querem mais propagar mentiras. Todavia, Foi Apenas um Sonho não seguiu o mesmo caminho de sucesso. Talhado para ser lembrado nas principais premiações, o longa estava indo bem na caminhada em busca de láureas, mas os votantes da Academia de Cinema praticamente ignoraram a produção oferecendo apenas três menções, entre elas a indicação de Shannon a Melhor Ator Coadjuvante. Seu personagem realmente se destaca por parecer o único que não vive de aparências e o responsável por trazer os protagonistas para a realidade, propositalmente fazendo seus comentários paradoxalmente pertinentes e incômodos em meio a jantares e reuniões sociais para desmanchar falsos sorrisos. É uma pena que o roteiro de Justin Haythe não dê mais espaço ao rapaz. Este era para ser um filme de Winslet e DiCaprio e assim foi feito. A dupla agarrou seus papéis com unhas e dentes e conseguem transmitir com segurança e credibilidade todas as nuances de um casal em crise. O rancor, as desconfianças e as tentativas para reconquistar a harmonia se fazem presente, mas duas horas de filme é pouco para tudo que a narrativa poderia render, ainda mais pela opção em se ater as brigas dos Wheller. De qualquer forma, assistir a uma série de discussões sob clima pesado e claustrofóbico, apesar do cenário de sonhos, poderia ser torturante, mas diante de interpretações tão vigorosas ironicamente isso se torna um grande prazer. 

Drama - 119 min - 2008

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Um comentário:

renatocinema disse...

Amo esse filme.....Triste, denso e real.

Abraços


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