quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O LUTADOR (2008)

NOTA 8,5

Drama aborda as dificuldades
para quem já esteve no topo se
adaptar a ser alguém comum ou
optar pelo caminho da superação 
Há momentos em que um ator está em estado de graça e tem a sorte de abocanhar papeis que parecem ter sido talhados a seu perfil, não só em termos físicos, mas também psicológicos e às vezes até as trajetórias de ambos parecem guardar semelhanças. Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo local, portanto, quando isso acontece é preciso aproveitar.  Mickey Rourke surgiu nos anos 80 como promessa de galã e talento e realmente estava atendendo às expectativas, mas na década seguinte sua decadência aconteceu em velocidade impressionante. No entanto, suas próprias experiências de vida é que elevam o nível de O Lutador que apesar do título não é um filme focado em combates, mas sim em contar uma história humana e universal baseada em conceitos de superação. O ator dá vida à Randy “The Ram” Robinson, um lutador de enorme sucesso há alguns anos, mas duas décadas depois do seu auge sua imagem nada lembra os tempos de glória. Sem dinheiro, sozinho e sendo consumido pelo remorso de ter abandonado sua única filha, Stephanie (Evan Rachel Wood), ele sobrevive participando de lutas amadoras e para público sádico e reduzido que lhe garantem o dinheiro para pagar seus vícios e vida louca. No entanto, um enfarto o obriga a se aposentar dos ringues de vez e nesse momento ele busca consolo no colo de Cassidy (Marisa Tomei), uma stripper que o compreende perfeitamente porque também já está em uma idade que mais cedo ou mais tarde lhe custará a dispensa. Ela o aconselha a ir procurar sua filha e dar novos rumos profissionais à sua vida e assim começa a grande luta de Randy na qual o adversário é ele mesmo que precisará se conscientizar de que os tempos mudaram e que ele não é sequer uma boa lembrança no mundo dos esportes. É interessante observar que além dos dois ganharem dinheiro com o corpo e a idade ser um empecilho para continuarem com suas atividades, ambos usam nomes falsos profissionalmente, escondendo as reais identidades de Robin e Pam. Ela assume outra personalidade por vergonha de seu trabalho, mas para ele o fardo é maior. Ostentar o codinome é uma forma ilusória de acreditar em sua importância, mesmo sendo um ilustre desconhecido que para pagar suas contas também se dedica a um emprego de carregador em um supermercado. No entanto, com a aproximação do aniversário de vinte anos da luta que o consagrou, surge o convite para um novo embate com seu maior rival, Aiatolá (Ernest Miller), o que lhe deixa tentado a desobedecer as orientações médicas.

Estreando como roteirista, a trama é uma adaptação de Robert Siegel para um de seus próprios livros onde narra a história de superação de um astro ficcional da luta-livre, porém, tal história, obviamente com algumas modificações, também poderia ser a biografia do próprio Rourke que durante um bom tempo abandonou a carreira artística para se dedicar ao boxe e abraçar todos os malefícios da nova profissão (físico desfigurado, problemas com anabolizantes, drogas e bebidas). Tanto o ator quanto o personagem reforçam o estereótipo de quem se vê refém de um estilo bizarro de vida que caracteriza a cultura dos esportes praticados em submundos onde quanto mais violência e insanidade tiverem melhor. As pessoas vibram ao ver os lutadores caindo, apanhando e até sangrando e para quem está dentro dos ringues sair vitorioso desse vale-tudo é a glória das glórias. Apesar de ostentar manchas e cortes pelo corpo que simbolizam sua garra no esporte, o profissional do ramo tem suas vaidades afinal de contas a imagem do corpo musculoso é essencial para transmitir confiança para o público e até mesmo ao atleta. Fora o dinheiro contado para o aluguel, que muitas vezes não é pago, o que não gasta com mulheres e em bares Randy usa para comprar drogas para inflar seus músculos, óleos e preparados bronzeadores e ainda tintura de cabelo para oxigenar suas longas e maltratadas madeixas que lhe garantem o apelido de “carneiro”, mas que na hora da luta se transforma em um “touro indomável”. Hoje as coisas podem não ser como antes, mas o brucutu gosta de se alimentar de lembranças talvez na esperança de que um dia poderá recuperar todo o seu prestígio. Ele dirige uma velha caminhonete com um boneco dele mesmo pendurado no espelho da frente, os bancos do carro são forrados de fotos e recortes de jornal que de certa forma documentam sua fase áurea e ainda se diverte com o videogame cujo personagem principal é inspirado em sua própria figura. Ele ama lutar, mas por diversos fatores se vê obrigado a se afastar dos ringues e, o pior, encarar definitivamente a rotina de uma vida comum. Seu principal medo na verdade é ser reconhecido e apontado como aquele que um dia foi um grande lutador, mesma razão que provavelmente impedia seu intérprete de voltar a atuar, ainda mais desprovido da beleza que outrora prometia rivalizar eternamente com Tom Cruise e outros galãs de sua época. Aliás, o papel estava destinado à Nicolas Cage que já havia assinado contrato e estava se preparando para as filmagens, mas em um gesto bastante generoso concordou em entregar o personagem à Rourke ao tomar conhecimento de que a trajetória do protagonista e do ator guardavam íntimas semelhanças, o que só agregaria qualidades ao projeto. Certamente com outro homem vivendo a realidade de Randy o filme não seria o mesmo e talvez nem fosse merecedor dos elogios e indicações a prêmios que conquistou.

Após várias plásticas para amenizar um pouco dos efeitos negativos conquistados no esporte, Rourke ensaiou sua volta aos holofotes em Sin City e agarrou com unhas e dentes o papel de Randy que em uma rara coincidência parece ter sido escrito para (exclusivamente) ele mesmo interpretar. Dotando o filme de alma e retratando um universo que lhe é tão íntimo, o ator oferece uma das interpretações mais naturais e sinceras dos últimos tempos recompensada com o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar. A própria obra arrebatou o Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza reascendendo o poder de atração do nome de Darren Aronofsky. Elevado a potência do cinema alternativo logo em seus primeiros trabalhos, Pi e Réquiem Para um Sonho, o diretor decepcionou com o presunçoso Fonte da Vida e já corria o risco de ser enquadrado nos casos de sorte de principiante. O Lutador é seu trabalho mais simples até então no sentido de atingir o emocional dos mais variados tipos de público, porém, sem abrir mão do conteúdo. Adotando um estilo documental e utilizando em vários momentos a câmera na mão, atores amadores nos papéis secundários e até mesmo representantes do próprio mundo das lutas, o cineasta teve a preocupação de se cercar de elementos capazes de lançar o espectador rapidamente ao melancólico cotidiano de Randy. Realmente não é muito entusiasmante o visual do protagonista e tampouco seu universo, assim participar da trama tem que ser uma decisão tão rápida quanto aplicar um golpe no adversário. Uma vez baqueado a tendência é se acostumar com a dor e é assim que acompanhamos a trama, com um misto de amargura e excitação para saber qual a próxima boa ideia de Aronofsky. Existem dois momentos bastante simbólicos e que devem mexer com o público, principalmente para aqueles que já precisaram abrir mão de sonhos em prol da sobrevivência. Quando é impedido de vez de lutar por conta dos excessos que pontuaram sua vida, Randy recebe uma promoção no supermercado e de carregador passa a atender no balcão de cortes de frios. Enquanto entra no local, ouvimos o público ovacionando-o como se ele estivesse em seus dias de glória, uma ironia interessante pela frustrante situação. Ainda é possível sentir o turbilhão de sentimentos que passam dentro dele ao ouvir os comentários dos fregueses que insistem em dizer que ele lembra a alguém famoso. E é essa a grande discussão do filme. Mostrar as dificuldades de alguém que já esteve no topo se acostumar a galgar novamente os degraus do sucesso com o agravante de ter que se adaptar a um novo caminho. Ou é possível correr atrás do prejuízo e restabelecer sua posição onde sua fama foi construída? Rourke aproveitou a chance, embora aparentemente sua carreira ainda esteja emperrada pelas limitações que seu visual surrado acarreta, mas o final do filme em aberto serve como metáfora a vida de seu intérprete e a de qualquer ser humano, afinal todos buscamos um momento ápice em nossas trajetórias. Quando alcançamos o que fazer? Se contentar com a satisfação momentânea ou buscar novos desafios que nos motivem a viver?

Drama - 109 min - 2008 

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