sexta-feira, 29 de agosto de 2014

PERFUME - A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO

NOTA 9,0

A premissa parece absurda,
mas suspense épico revela-se
uma grata surpresa que recicla
o perfil do assassino em série
As qualidades técnicas dos filmes avançaram tanto nos últimos anos que pensar no cinema como uma simples atividade visual ou auditiva é coisa do passado. Câmeras de alta definição tratam de captar com perfeição as imagens de tal forma que é quase possível se ter a sensação do toque em um tecido ou sentir a textura de uma parede, por exemplo. Com o apuro visual e capricho da direção de arte também é possível buscar em nossas memórias gustativas o sabor que teria as iguarias servidas em banquetes e festas dos filmes. E quanto ao cheiro? Seria possível trazer essa sensação das telas para o espectador? Bem, hoje em dia temos salas de cinema que oferecem climatizações, sacolejos nas cadeiras e uma borrifada de essências em momentos estratégicos para perfumar o espaço já não espanta mais ninguém. Não duvide que logo surja alguma engenhoca para reproduzir as mesmas sensações no aconchego do seu lar. Bem, tomara que as coisas não cheguem a tal ponto, caso contrário produções como Perfume – A História de um Assassino perderão boa parte de seu charme e qualidades. A obra é baseada no romance “Das Parfum” do alemão Patrick Süskind lançado em 1985 e que rapidamente tornou-se um best-seler e vendeu mais de 15 milhões de cópias em todo o mundo ao longo de duas décadas, mas certamente os números devem ter aumentado consideravelmente com o lançamento do filme em 2006. Se o livro era um sucesso desde a primeira tiragem, por que a demora para sua adaptação para o cinema? Os bastidores poderiam render um filme à parte (como de fato aconteceu), mas antes de mais nada vamos esmiuçar o fascinante roteiro de Andrew Birkin, Bernd Eichinger e Tom Tykwer, este que também assina a direção e tinha a difícil missão de surpreender o público tal qual fez com o cultuado Corra, Lola, Corra. Com narração pontual do início ao fim como uma fábula, a história se passa em Paris, na França, em meados do século 18 e narra a trajetória de Jean-Baptiste Grenouille (Ben Winshaw) desde seu difícil nascimento. Sua mãe vendia peixes em uma fétida feira e pariu o filho ali mesmo, mas sem ter como sustentar a criança estava decidida a abandoná-lo. Delatada por outros comerciantes, ela acabou sendo executada na forca. Esse detalhe é importante porque a morte sempre rondou a vida deste rapaz que cresceu em um orfanato, mas aos 13 anos foi vendido para trabalhar em um curtume. Sempre que se separava de alguém esta pessoa vinha a falecer, no entanto, Grenouille parecia ser dotado de características especiais que lhe ajudavam a vencer adversidades como a dura vida na fábrica de couros cujas químicas empregadas limitavam a vida de um trabalhador para no máximo cinco anos, mas ele quebrou tal paradigma e se tornou um exemplo de superação.

Grenouille logo descobre que possuía um dom incomum sendo capaz de diferenciar os mais variados odores à sua volta e tratou de aperfeiçoar tal característica a tal ponto de distinguir cheiros distantes ou de objetos aparentemente inodoros. Esses primeiros anos de sua vida são resumidos de forma rápida, mas realçando o essencial para compreendermos a sua estranha trajetória quando adulto. Nessa fase, ele torna-se aprendiz do italiano Giuseppe Baldino (Dustin Hoffman), um alquimista cujas misturas já não atraem freguesia como antes, mas logo ele supera seu mestre na arte de manipular essências e revitaliza seu comércio. Apesar das constantes discussões para medir quem sabe mais, é com o veterano que o jovem aprende uma importante lição sobre as doze essências imprescindíveis para a composição de um perfume de qualidade, mas o mestre afirma não saber como bloquear o processo de envelhecimento das substâncias. Assim, ao dominar os cheiros mais comuns, Grenouille decide partir para a cidade Grasse, a capital mundial da perfumaria, onde buscava se aperfeiçoar na profissão, mas estranhamente seu objetivo acaba se tornando uma doentia obsessão. Quando se sentiu atraído pelo odor natural de uma garota ele acabou instintivamente a matando-a na esperança de preservar o seu cheiro, porém, logo percebeu que seria necessária uma técnica especial para não deixá-lo se esvair com o passar do tempo. Ele tem o desejo de criar uma fragrância inédita e duradoura a partir da mistura das essências capturadas de mulheres cujos cheiros lhe atraiam por algum motivo, só que para ter acesso a tal material ele se torna um assassino serial que passa a aterrorizar Grasse. Através de banha de porco aplicada aos corpos seria possível absorver aromas, mas obviamente não haveria voluntárias e matar era a única forma de saciar o desejo do rapaz que guardava cuidadosamente em pequenos frascos o material extraído das gorduras. Após algumas mortes misteriosas, e sempre de mulheres virgens, é outorgado o toque de recolher para as damas, mas mesmo com todos os cuidados Antoine Richis (Alan Rickman) teme que sua filha Laura (Rachel Hurd-Wood) seja uma das próximas vítimas e automaticamente este homem torna-se um potencial rival de Grenouille. Apesar da excessiva carga dramática, o jovem Winshaw surpreende com uma atuação segura e que tinha tudo para beirar o ridículo afinal de contas não é fácil convencer alguém que o vidro tem odor característico, por exemplo. Seu personagem foi criado sem bases morais ou que lhe ensinassem a distinguir as consequências de atos brutais, mas ainda assim consegue transmitir com perfeição inocência e perigo simultaneamente o que coloca o público a seu favor. Mesmo cientes de que ele está matando para satisfazer um capricho próprio nos custa apontá-lo como um frio assassino quando estamos embriagados por seu narcisismo. Ele não é masoquista e tampouco pervertido, simplesmente tornou-se vítima da insanidade e do ego. Quando saiu de Paris percebeu estar fadado a solidão eterna e que não significava nada para ninguém, assim só um grande feito poderia tornar sua passagem pela vida válida e memorável. É então que o personagem assume sua porção maligna capaz de cegá-lo e influenciá-lo a cometer crimes em nome da satisfação pessoal.

O tema obsessão em si já não é fácil por conta de sua natureza, patologias e ansiedades de ordem pessoal, mas é ainda mais complicado de ser abordado quando acarreta problemas sociais e para desenvolvê-lo com perfeição é preciso ter talento, conhecimento a respeito e tempo. Muitos reclamam da excessiva duração da fita (cerca de duas horas e meia), mas o que poderia ser limado do conjunto seria uma quantidade mínima de cenas que pouca diferença faria. Cortes mais bruscos, por exemplo, de cenas sem diálogos poderiam comprometer e muito a essência da obra (desculpem a redundância). Cada detalhe narrativo ou visual parece ser de suma importância e resumir o enredo à uma simples trama de serial killer é um erro gravíssimo, a começar pelo fato de ser uma trama que envolve todo um contexto histórico e psicológico para fazer sentido, o que agrega à obra certo valor intelectual e inerentemente restringe seu público. A demora em o livro virar filme se deve as negativas do próprio Süskind. Tim Burton, Martin Scorsese, Ridley Scott e Milos Forman foram alguns dos diretores interessados na adaptação, mas o escritor afirmava que só tinha interesse em ceder sua obra à Stanley Kubrick que chegou a se envolver em uma negociação, mas concluiu que a transposição do conteúdo para as telonas era algo impossível por um claríssimo detalhe: cinema não tem cheiro. Mesmo um cineasta tão visionário que poderia já prever as citadas experiências que um espectador viveria futuramente nas salas de exibição como citadas no início do texto tinha consciência de que o grande atrativo da trama é fazer com que o expectador através de imagens e sons consiga trabalhar sensações olfativas. A tarefa é complicadíssima e mesmo hoje com o auxílio da tecnologia o resultado poderia ficar aquém do esperado por conta do artificialismo empregado. Com a morte de Kubrick, o autor do livro conscientizou-se que seu sonho teria que esquecido ou entregue a outro cineasta. Vendidos os direitos a um produtor independente, felizmente a obra pôde ser feita por um cineasta europeu, geralmente mais sensíveis e menos materialistas, e filmada em terras do velho continente. Embora coprodução entre a França, a Espanha e a Alemanha, para conseguir capital para bancar uma das produções mais caras de todos os tempos da Europa foi preciso recorrer ao apoio de investidores norte-americanos que exigiram que o filme fosse falado em inglês, parte do elenco composto por rostos famosos e tivesse um pouco de nudez feminina para acentuar a aura de “conto de fadas” para adultos, tudo para ajudar nas vendas internacionais. Tykwer deu seu jeitinho de fazer concessões, mas sem vender grotescamente o projeto. Hoffman é o nome mais conhecido do elenco, mas Rickman é famoso entre os “pottermaníacos” e Winshaw e Rachel já fizeram vários trabalhos em Hollywood, mas de repercussão baixa ou modesta. A nudez é inserida de forma mórbida já que as mulheres objeto de desejo do protagonista em sua maioria surgem como cadáveres, mas o inesperado clímax de tudo propõe uma alusão às obras de arte renascentistas com uma orgia disfarçada. Perfume – A História de um Assassino exige sensibilidade apuradíssima a quem se dispor a assisti-lo. Repleto de qualidades visuais, sonoras, interpretativas e um texto original, esta é uma obra atípica e que merecia estudos aprofundados tanto por seu conteúdo quanto pelo que representado como cinema. Tal qual uma fragrância que agrada e desagrada em proporções semelhantes, não se espante com a quantidade de elogios e críticas negativas à produção. Só experimentando para ter sua opinião definitiva. 

Suspense - 147 min - 2006 

-->
PERFUME - A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO - Deixe sua opinião ou expectativa sobre o filme
1 – 2 Ruim, uma perda de tempo
3 – 4 Regular, serve para passar o tempo
5 – 6 Bom, cumpre o que promete
7 – 8 Ótimo, tem mais pontos positivos que negativos
9 – 10 Excelente, praticamente perfeito do início ao fim
Votar
resultado parcial...

Nenhum comentário:

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...