quarta-feira, 13 de agosto de 2014

SE ENLOUQUECER NÃO SE APAIXONE

NOTA 7,0

Comédia com pitadas de drama
apresenta visão mais realista da
adolescência através da perspectiva de
um jovem depressivo em busca de ajuda
A adolescência é aquele período da vida em que fazemos descobertas, nos divertimos bastante, fazemos planos para o futuro e, o melhor de tudo, não temos grandes preocupações. Será mesmo? Abordando o universo juvenil de forma ligeiramente original, Se Enlouquecer Não se Apaixone é super indicado também para os pais que às vezes por ingenuidade realmente acreditam que os filhos não têm motivos para infelicidade. Mal sabem eles o turbilhão de dúvidas e emoções que podem pressionar um adolescente. Baseado no romance “It’s Kind of a Funny Story” de Ned Vizzini, a trama gira em torno de Craig (Keir Gilchrist), um jovem de 16 anos que está vivendo um período de depressão aguda e decide se suicidar. Corriqueiramente ele sonha que vai se jogar de uma ponte, mas desperta justamente quando consumaria o ato suicida. Percebendo que precisava urgentemente de ajuda, ele próprio decide procurar uma clínica psiquiátrica. Na consulta de avaliação, embora afirmasse estar um ano sofrendo com a depressão, o garoto não encontra motivos plausíveis para sua insatisfação com a vida. Gostaria de ter motivos sérios como o trauma de ser estuprado ou de uma infância marcada por agressões dos pais, mas na verdade seus conflitos são comuns à adolescência. Acha que o pai trabalha demais e a mãe é superprotetora, além de ambos falarem coisas desnecessárias em momentos impróprios o que acaba o constrangendo. No entanto, não acha que lhe faltou carinho ou as bugigangas materiais que desejava. No momento atual suas maiores aflições referem-se a paixão não revelada que tem pela namorada de um amigo e a pressão que sente para ser aceito em um curso de verão em uma conceituada escola, o que seria importantíssimo para seu futuro regrado: bom trabalho que traria uma vida financeira confortável e consequentemente atrairia mulheres com quem iria se divertir até escolher a ideal para casar e ter filhos. Mais esquemático impossível. Com medo de voltar para casa e fazer uma besteira, ele acaba conseguindo ser internado no hospital, mas terá que ficar cinco dias na companhia dos tipos mais variados, até porque a ala de internos adolescentes está em reforma. Essa é a chance para refletir e compreender o que acredita estar errado em sua vida, mas Craig vai perceber que seus problemas podem ser insignificantes.

Poucas horas no hospital e o adolescente já se arrepende de sua decisão, mas a Dr. Minerva (Viola Davis) diz que ele terá que cumprir o prazo mínimo de internação, período em que participará de atividades recreativas e estimulantes, além de sessões regulares de conversas com ela mesma que oferece apoio psicológico aos pacientes. Entre os vários tipos estranhos que conhece, Craig se encanta logo à primeira vista por Noelle (Emma Roberts), uma garota também jovem que é reincidente na clínica. Está há mais de vinte dias internada, pois os médicos temem que ela volte a tentar se cortar. O porquê de ela estar nesta situação não fica claro, mas em um diálogo rápido parece que sua insatisfação tem a ver com beleza ou aspecto físico, no entanto, o gancho não é desenvolvido. Já o amigo Bobby (Zack Galifianakis) é um sujeito trintão que por vezes parece super sensato, mas em outros momentos se comporta como um adolescente. Prestes a sair do hospital, ele está preocupado em como agir durante uma entrevista de emprego, algo essencial para sua reabilitação e para ter a chance de poder voltar a conviver com sua filha pequena já que a mãe da garotinha continua achando que ele é um irresponsável e insano. É compartilhando experiências que Craig consegue perceber que seu acúmulo de tensão e ansiedade parte de situações universais e teoricamente incontroláveis, como guerras e catástrofes ambientais, mas também de problemas cujo controle só depende de seu empenho, como a decisão de trocar ou não as férias pelo estudo e de afrontar o pecado de cobiçar a mulher do próximo. Seu amigo Aaron (Thomas Mann) não é exatamente aquele companheiro fiel e não perde a chance de ligar para o hospital para zoar o adolescente problemático, então por que ter medo de tentar paquerar sua garota? Ter coragem de ligar para Nia (Zöe Kravitz) e até convidá-la para o visitar na clínica é como uma prova de coragem e sanidade para o jovem, mas o problema é que a garota neste momento é apenas uma questão de honra. Amor mesmo ele está sentindo por Noelle, mas o conflito amoroso não é explorado a fundo. Aliás, a sensação que se tem é que nenhum gancho do roteiro é desenvolvido de maneira plena, apenas pincelado. Paradoxalmente, ainda assim o filme consegue ser agradável e não falta quem se identifique com o protagonista que se sente um estranho em um mundo mais bizarro ainda. O mundo em geral, fique claro. Só para dar uma noção, comparando o comportamento de Nia e o de Noelle, parece que a visitante é a piradinha e a interna é que está em seu juízo perfeito, assim como Bobby também tem seus momentos de conselheiro alertando que Craig não tem motivos para ser infeliz, mas parece fazer questão de procurar problemas.

É uma pena que para cada dez filmes do estilo de American Pie surja apenas um de qualidade visando o público adolescente e com o azar de nem chegar aos cinemas como aconteceu com Se Enlouquecer Não se Apaixone, mesmo contando com Galifianakis que caiu no gosto dos jovens com a trilogia Se Beber Não Case. Aliás, o próprio título nacional busca enfatizar a participação do ator ou no mínimo pegar carona no sucesso alheio. Quem busca mesmices certamente deve se frustrar com a inversão de expectativas, mas quem gosta de surpresas deve aprovar ver o gordinho barbado (será que nunca vai mudar o visual?) fazendo um papel com carga dramática considerável e também se surpreenderá com o filme como um todo. Os roteiristas e diretores Anna Boden e Ryan Fleck, mesma dupla de criadores de Hal Nelson – Encurralados e Perseguindo um Sonho, construíram uma narrativa simples, mas muito eficaz e que desde seus primeiros minutos mostra-se diferenciada. O argumento propício para um melodrama daqueles acaba sendo transformado em uma comédia leve que dispensa cutucar feridas, mas mesmo assim incomoda no bom sentido. Quem nunca se sentiu pressionado para ser o melhor nos estudos ou sofreu por ser preterido por outra pessoa para um relacionamento? Com um universo limitado, praticamente todas as ações se concentram no hospital e são desenvolvidas em poucos dias, compartilhamos com o protagonista a sensação de que cada situação vivenciada pode ser preciosa, um novo aprendizado, assim é muito prazeroso acompanhar a trajetória de Craig interpretado com naturalidade pelo pouco conhecido Gilchrist. Os melhores momentos são propiciados pelos seus comentários em off que narram suas percepções sobre os acontecimentos e a respeito de seu passado, ainda que sua relação com os pais soe artificial devido a facilidade com que eles aceitam a internação do filho. De qualquer forma, poucas vezes um adolescente foi retratado tão bem em um filme rotulado como comédia. Craig não é bobão, tampouco deslumbrado, não é metido e passa longe do perfil “garoto campeão”, mas também não chega a ser um chato de galocha como aqueles jovens deprimidos de comédias independentes. O momento ápice do longa é acompanhado da canção “Under Pressure”, de David Bowie, quando o protagonista na aula de música se imagina como vocalista de uma banda, cena emblemática que revela sua vontade de sair de seu mundo recluso e a canção lhe permite extravasar emoções. Quem se identificar com seus conflitos certamente se arrepiará e também irá se imaginar nesse sonho.

Comédia - 100 min - 2010 

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