sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A CASA

NOTA 4,5

Apesar dos poucos recursos longa
compensa com a criatividade, mas na
reta final derrapa tentando explicar
 o que era melhor deixar em suspenso
Para fazer um filme basta uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Será mesmo? A famosa frase até faz sentido, mas deveria ter um elemento acrescido: também é preciso ter uma boa estratégia de marketing a seu favor. O terror A Casa já tinha como diferencial o fato de ser uma produção do Uruguai, país de pouca produção cinematográfica, mas também contou com a publicidade de ser o primeiro filme do gênero filmado em um único plano-sequência. Aos leigos, isso quer dizer que a obra foi inteiramente filmada com a câmera ligada ininterruptamente, mas na verdade trucagens foram realizadas para dar essa sensação de que nada escapou aos atentos olhos do diretor estreante Gustavo Hernández que mesmo com poucos recursos e até mesmo experiência levou adiante seu sonho de fazer um filme afinal criatividade não lhe faltava. De qualquer forma, a sensação do plano único é preservada boa parte do tempo graças ao envolvente clima de tensão crescente, mas quando o cineasta se lembra do detalhe que todo o filme precisa ter uma conclusão o macabro encanto se esvai. A trama, a primeira também escrita por ele, conta com apenas três personagens. A jovem Laura (Florencia Colucci) e Wilson (Gustavo Alonso), seu pai, foram contratados por Néstor (Abel Tripaldi) para fazerem a limpeza e a manutenção de uma velha e isolada casa de campo pertencente a sua família, mas que agora será colocada à venda. Com janelas praticamente sem uma fresta aparente por conta de tábuas e sem energia elétrica, pai e filha dependem de lampiões para enxergarem alguma coisa em meio ao breu, mas nem terão tempo de começar o serviço. Chegaram no finzinho da tarde e pretendiam dormir cedo na sala mesmo, mas estranhos barulhos vindos do segundo andar da residência despertam a curiosidade da garota que acorda seu pai para verificar. Como ele demora a voltar, ela mesma resolve explorar os cômodos, mas a cada passo que dá mais seu medo aumenta diante do desconhecido, um pesadelo que terá de enfrentar sozinha provavelmente até o dia clarear. O enredo é baseado em fatos reais ocorridos em meados da década de 1940 no interior do Uruguai quando foram encontrados em uma casa de fazenda os corpos de dois homens brutalmente torturados. No local também existiam fotografias de forte impacto que ajudaram a polícia a solucionar o caso. Com esta ideia estrategicamente elaborada para ampliar a tensão, Hernández pegou uma câmera digital emprestada com um amigo e em apenas quatro dias filmou uma produção que possui certas características que o aproximariam do estilo do elogiado terror espanhol Rec, mas sua repercussão foi bem menor e justificável.

Seus problemas começam pela publicidade de ser uma obra pioneira por usar a gravação sem cortes, mesmo com o adendo de ser a primeira no gênero terror. Bem, o rótulo nos lembra a gritaria, sangue, vísceras ou no mínimo sustos impactantes acompanhados de trilha sonora estridente e edição rápida, tudo o que Hernandéz não oferece ou o faz em doses minúsculas. Catalogar como um suspense seria mais correto, mas a julgar pelos caminhos que a história segue a alcunha de projeto experimental venderia melhor o filme e ajudaria a encontrar seu verdadeiro público-alvo. Quanto a filmagem sem interrupções, é difícil acreditar. Se as filmagens duraram quatro dias é óbvio que houve paradas, além disso, o próprio nome do diretor surge nos créditos também assinando a edição. O que acontece é que ele optou por trabalhar com sequências longas e foi bastante habilidoso e perspicaz para adicionar alguns poucos cortes sempre com muita discrição. Além de a ambientação escura ajudar a esconder o momento em que a câmera foi desligada e quando a filmagem foi retomada, Hernandèz trabalha com jogos de imagens focados em objetos, como espelhos ou mobília, para confundir o espectador. Como estamos acostumados que trucagens do tipo sempre são usadas para revelar alguma ameaça em um momento de distração dos personagens, é um pouco frustrante perceber que nada de anormal surge, mas ainda assim a respiração ofegante e o choro nervoso da protagonista mantém o nível de tensão nas alturas. É impressionante como Florencia, uma atriz estreante, consegue dominar as cenas com total desenvoltura e noção dos sentimentos que sua personagem experimenta, alternando medo, coragem e histeria, mas é uma pena que as coisas sigam ladeira abaixo a partir do momento em que Laura consegue uma rápida fuga da casa. Como manda a cartilha do gênero, uma das portas que antes parecia trancada a sete chaves magicamente se abre, a garota foge e se vê no meio do nada aparentemente perseguida por uma alma penada que avistamos rapidamente e a distância, mas logo Néstor surge para tentar socorrê-la. Detalhe, a escuridão da noite então já cede lugar à palidez de uma manhã nublada, mais um ponto a desmentir a tal história do único take. Quando os dois voltam ao interior da casa e o diretor se vê na obrigação de preparar terreno para um desfecho a sensação que temos é que ele não sabia o que fazer. Sua intenção era fazer um experimento no campo do horror e estava indo muito bem, mas a partir do momento que tenta dar explicações aos fenômenos acaba se enrolando e a trama segue um caminho que de certa forma invalida praticamente tudo o que vimos antes, mas nem por isso não nos deixa com um ponto de interrogação na mente.

Pelo fiapo de história, estética claustrofóbica e produção barata e que vende a ideia de uma situação de horror verídica, este filme poderia ser enquadrado na mesma seara de produtos como A Bruxa de Blair ou Atividade Paranormal, mas acaba tendo como diferencial o fato da câmera não se preocupar tanto em mostrar a protagonista, mas sim o que ela está vendo ou percebendo guiada pela luz de seu lampião, objeto que assume quase a importância de um personagem iluminando detalhes cênicos que dão a impressão de que a qualquer momento algo inesperado pode surgir para atacar a garota. A música incidental pode passar despercebida quando estamos envolvidos nesta atmosfera apavorante, mas também é de suma importância para a construção do clima que ainda conta com o velho truque dos flashes de fotografias, elas, aliás, evocadas na reta final para tentar dar algum sentido ao enredo que revela-se esquisitíssimo. É mais do que provável que A Casa jamais chegará a ser uma obra tão famosa quanto Festim Diabólico do mestre Alfred Hitchcock que neste trabalho também já tentava colocar em prática a filmagem sem cortes, mas para a sua época era ainda mais difícil e também precisou recorrer a trucagens que davam a ilusão deste efeito. Todavia, apesar da fragilidade, o longa de Hernandèz deverá ser lembrado por suas qualidades técnicas e criatividade. Com orçamento pequeno, mas muita vontade de trabalhar, o diretor foi esperto ao optar pelo campo de terror, gênero que não demanda muitos investimentos. O fato de ter a disposição uma única câmera acabou sendo benéfico ao longa. Com ela seguindo Laura a todo instante, como se estivesse presa a seu corpo, a iminência de perigo ganha proporções ampliadas e o espectador fica refém do que chama a atenção da garota, assim tememos o que pode estar escondido nos espaços que fogem ao enquadramento da câmera. Ficamos tão atrelados à personagem que quando surge um barulho ou sombra diferente nos sentimos impotentes em não poder ajudá-la, mas é certo que muito tempo é gasto com cenas desnecessárias, como o momento em que ela explora o segundo andar e começa a tirar os lençóis que cobriam alguns quadros com imagens que nada agregam à trama. É uma pena que comercialmente soluções técnicas “caseiras” não chamem a atenção como a publicidade de um filme em 3D, por exemplo, mas como experimento a produção tem seu valor, tanto que o longa foi exibido em Cannes, Sundance e até no Festival do Rio. Hollywood, por sua vez, logo correu atrás dos direitos para fazer sua versão batizada de A Casa Silenciosa.

Terror - 96 min - 2010 

-->
A CASA - Deixe sua opinião ou expectativa sobre o filme
1 – 2 Ruim, uma perda de tempo
3 – 4 Regular, serve para passar o tempo
5 – 6 Bom, cumpre o que promete
7 – 8 Ótimo, tem mais pontos positivos que negativos
9 – 10 Excelente, praticamente perfeito do início ao fim
Votar
resultado parcial...

Nenhum comentário:

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...