terça-feira, 30 de setembro de 2014

FOOTLOOSE

NOTA 7,0

Remake de sucesso dos anos 80
carece de mais música e vibração,
além de uma lapidação do conteúdo
para atender seu público-alvo e época
Sempre que surgem boatos sobre uma refilmagem automaticamente também vem à tona especulações a respeito de preocupações quanto a manutenção do espírito da obra original. A lista de remakes que decepcionaram é bastante extensa, mas temos que ter consciência que por mais fiéis ao texto que sejam estas segundas versões precisam driblar um pequeno detalhe que pode fazer toda a diferença: os tempos mudam. Um diretor tem que estar muito seguro ao assumir um projeto do tipo, tanto para ousar em adaptar a narrativa para os tempos atuais quanto para manter a ação em épocas passadas. Em ambos os casos a rejeição é um risco inerente e o diretor Craig Brewer, de Ritmo de Um Sonho, provavelmente estava ciente do vespeiro em que se meteria ao anunciar o remake de Footloose (sem o antigo subtítulo “ritmo louco”), um dos filmes-ícones dos anos 80 e xodó de muito marmanjo. Após recusar duas vezes dirigir o projeto, ele acabou cedendo às pressões, porém, como mais um ferrenho fã do longa, ele queria praticamente refazer a obra de 1984 de cabo a rabo apenas fazendo alguns reparos que julgava necessários para tornar a trama mais redondinha, porém, acabou realizando um trabalho que mistura épocas. Se era para fazer uma homenagem ao original a tentativa não foi bem executada, inclusive pela considerável redução no número de canções executadas. A trama escrita por ele mesmo em parceria com Dean Pitchford, também autor do roteiro do primeiro filme, se passa em Bolmonte, uma pequena e pacata cidade no sul dos EUA que ficou abalada após um trágico acidente de carro envolvendo adolescentes no qual não houve sobreviventes. Como os jovens voltavam de uma festa, os dirigentes da cidade tomaram atitudes radicais. Além do toque de recolher a noite, proibiram menores de idade de frequentar locais onde pudesse haver consumo de drogas e álcool, atividades lascivas e até mesmo de ouvirem e dançarem ao som de música alta e vibrante, mas aos poucos praticamente todos na cidade passaram a acatar a decisão. É claro que sempre tinham aqueles rebeldes para infringir as leis e se exporem ao “comportamento de risco”, mas durante três anos a situação se manteve sob controle. Isso até a chegada de Ren McCormick (Kenny Wormald), um adolescente que após vivenciar a dor de ver a mãe morrendo aos poucos por conta de uma severa leucemia agora quer dar novos rumos para sua vida. 

Acolhido pelos tios, Lulu (Kim Dickens) e Wesley Warnicker (Ray McKinnon), o jovem da cidade grande tem um pouco de dificuldade para se adaptar a rotina de um lugar que parece parado no tempo. Por outro lado, não demora muito e Ren já está espichando o olho para Ariel (Julianne Hough), a jovem e rebelde filha de Shawn Moore (Dennis Quaid), o respeitado reverendo da cidade. Embora devesse servir de exemplo aos demais adolescentes, até porque um dos jovens mortos no tal acidente era seu irmão, a garota adora infringir as regras e vai encontrar um parceiro a altura e também disposto a brigar pelo direito de todos se divertirem com liberdade. O único senão é que a moça espevitada namora com o valentão Chuck Cranston (Patrick John Flueger), que logo que percebe o interesse do mais novo morador da cidade passa a testar sua coragem em desafios típicos de lugares onde não há nada para se fazer. Acostumado as liberdades de Boston, para conseguir sobreviver às provações que Bolmonte lhe impõe, sendo que logo que consegue por as mãos em um velho carro já arranja problemas com a polícia por conta do som alto, Ren vai contar com a ajuda do espirituoso Willard (Miles Teller) que também não vê a hora das baladinhas voltarem a ser liberadas. Completando o quadro de personagens temos também Rusty (Ziah Colon), a amiga de todas as horas de Ariel, Vi (Andie MacDowell), a bondosa esposa do reverendo, Andy Beamis (L. Warren Young), o dono da fábrica de algodão que dará emprego ao protagonista, e, por fim, Roger Dunbar (Brett Rice), o diretor do colégio que também fica no pé dos estudantes para mantê-los na linha. Apesar do invólucro de musical, reforçado pelas cenas em que o jovem elenco começa a dançar seja em um galpão ou na rua, mas ao menos não transformando diálogos em cantoria como nos clássicos do gênero, este filme se enquadra melhor em um drama romântico. Além de uma história de amor marcada por conflitos típicos da adolescência, como a rebeldia e a autoafirmação, o longa aborda a repressão de direitos e as diversas maneiras como as pessoas podem lidar com a dor da perda. Fica claro que o meio em que vivem influencia em muito no comportamento. Por ter crescido na cidade grande, ambiente com mais possibilidades e acesso à informação, Ren conseguiu lidar de forma razoável a respeito da morte da mãe, estava ciente que fez tudo o que podia para ajudá-la e que agora sua vida tinha que seguir. Já o acidente que marcou Bolmonte não foi bem digerido por seus habitantes em geral conservadores, mas isso não poderia impedir que suas novas gerações evoluíssem. O erro de alguns deveria servir de exemplo para precaução, não para a censura, até porque o proibido parece sempre atrair mais atenção do que está dentro das normas.

Música, dança, romance, drama leve e gente jovem e bonita, esta produção teoricamente tinha todos os ingredientes para ser um grande sucesso, seguindo um pouco a linha de No Balanço do Amor ou Ela Dança, Eu Danço. O próprio Wormald teve como primeira experiência profissional a participação em Sob a Luz da Fama – O Poder da Paixão, mais um musical contemporâneo teen tentando repetir o sucesso que produtos do tipo fazia nos anos 80. Footloose ainda contava com a grande publicidade de ser a refilmagem de um filme querido por muitos adultos que hoje devem fazer questão que seus filhos e netos assistam ao menos uma vez para captarem um pouco do que vivenciaram na juventude. Contudo, o mundo mudou. Perdemos a inocência que ainda prevalecia em 1984 e a rebeldia dos jovens hoje em dia não se justifica mais tanto pela necessidade de serem ouvidos, mas sim pela sensação de estarem inseridos em um grupo onde uma minoria reivindica direitos e a maioria se preocupa em tirar fotos na multidão para colocarem em redes sociais. O cinema também era outro, estava aprendendo a lucrar, a aproveitar novas possibilidades e a fabricar astros. Na época o período áureo dos musicais já havia passado, mas tentando pegar carona no estilo de Os Embalos de Sábado a Noite o diretor Herbert Ross apostou suas fichas em uma trama água-com-açúcar embalada por músicas vibrantes que rapidamente caiu no gosto popular e de quebra lançou um rebolativo Kevin Bacon que apesar dos esforços tornou-se apenas mais um ator que tenta sobreviver na selvagem Hollywood, mas ainda assim teve mais sorte que sua parceira Lori Singer que caiu no ostracismo. Wormald e Julianne ao que tudo indica também não vingaram no ramo e não é tanto culpa do casal, mas do próprio filme que nem de longe chegou a ter um mínimo da repercussão do original. Embora tenha começado bem o remake explorando a história do acidente que desencadeia o grande conflito da trama, algo apenas citado na primeira versão, Brewer fica com um pé no passado e outro no presente, o que acarreta um aspecto estranho ao conjunto. Ao mesmo tempo em que é citado que as pessoas estão fazendo uso de celulares e internet, os carros que ocupam as ruas de Bolmonte são de 1900 e bolinhas, assim como os figurinos que parecem transpirar cheiro de naftalina. O famoso hit homônimo ao filme foi adaptado para uma versão em estilo country bacana e ainda com resquícios da matriz, porém, que ganha pouco tempo de tela. Em contrapartida, temos que aguentar uma longa e quase constrangedora sequência em que os adolescentes se exibem e se esfregam ao som de hip hop. Muita coisa poderia ser mais bem lapidada nesta refilmagem, mas o saldo final é razoavelmente positivo, ainda mais considerando que a proposta é fisgar o público jovem que tem aqui uma opção levemente acima da média.

Romance - 113 min - 2011 

-->
FOOTLOOSE - Deixe sua opinião ou expectativa sobre o filme
1 – 2 Ruim, uma perda de tempo
3 – 4 Regular, serve para passar o tempo
5 – 6 Bom, cumpre o que promete
7 – 8 Ótimo, tem mais pontos positivos que negativos
9 – 10 Excelente, praticamente perfeito do início ao fim
Votar
resultado parcial...

Nenhum comentário:

Leia também

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...