domingo, 14 de setembro de 2014

NA PONTA DOS PÉS

Nota 6,0 Longa procura quebrar preconceitos contra anões, mas esbarra na superficialidade

Um rapaz bonitão e de estatura alta esconde da namorada que sua família é composta por nanicos, mas será forçado a contar a verdade em nome de um bem maior. Por esta sinopse simplificada é bem provável que muitos torçam o nariz ou façam comentários irônicos, mas o conflito destacado no drama Na Ponta dos Pés merece respeito e reflexão. Obviamente a trama escrita por Bill Weiner aborda o preconceito praticado contra os anões, um mal que pode existir até mesmo dentro do próprio núcleo familiar. Steven (Matthew McConaughey) é um homem bem sucedido profissionalmente, bonito, de porte atlético e que está feliz da vida namorando a jovem e carismática Carol (Kate Beckinsale), mas ele evita falar de seus parentes alegando que eles são problemáticos. O casal se entende tão bem que nem rola ciúmes quando ele sai para passear e deixa a companheira em casa, mas ele não vai a procura de diversão com outras garotas. Com mais de 1m80 de altura, Steve inevitavelmente chama a atenção quando vai a uma festa familiar, uma espécie de comemoração particular realizada anualmente pelos anões onde ele reencontra seu irmão gêmeo Rolfe (Gary Oldman – com seu tamanho impressionantemente reduzido e crível) que chega em companhia do amigo Maurice (Peter Dinklage), este que descolou no caminho uma namorada “tamanho família”, a espevitada Lucy (Patricia Arquette). Apesar de esconder suas origens, Steven tentava viver em harmonia com seus parentes e amigos baixinhos, mas as coisas tomam outro rumo quando descobre que sua garota está grávida. Ao receber a visita surpresa de seu desconhecido cunhado, Carol demonstra educação e compreensão, tanto que decide por conta própria se encontrar com a família do namorado, mas não consegue esconder sua preocupação em colocar um anão no mundo. Todavia, a parentada leva numa boa a situação, pois por mais bem resolvidos que sejam eles sabem que o mundo é preconceituoso e até a aconselham a procurar tratamentos para tentar fazer com que o bebê nasça completamente “normal”. O problema é convencer o pai que existe essa possibilidade. Steven até tenta encarar a situação com maturidade em nome do amor que sente pela namorada, mas não seria o nascimento de um filho que o faria superar anos de assuntos mal resolvidos, uma espécie de bloqueio que o impede de aceitar o nanismo de sua família.

Admitindo que preferia que a gravidez fosse interrompida e substituída pela adoção de um bebê livre de qualquer tipo de fardo, o personagem Steven perde um pouco seu impacto pelo fato do diretor Matthew Bright não explorar seus inegáveis traumas de infância e adolescência, assim seus medos ganham ainda mais a conotação de atitudes preconceituosas. Mesmo com profundo conhecimento de causa, não sentimos aquela preocupação sincera de um pai que só quer a felicidade do filho, mas sim a intenção de escapar de ser apontado nas ruas como o responsável pela criação de uma “aberração”. Carol também não é um perfil bem construído. Sua preocupação de mãe é perceptível, mas por mais descolada que fosse sua integração com o universo dos pequeninos acontece muito rapidamente, principalmente a amizade com Rolfe. O enredo até tenta criar uma tensão de ciúmes entre os protagonistas a certa altura, no entanto, a sensação no conjunto é de uma relação insossa que se sustentava apoiada na ideia de liberdade que o casal vivia antes de descobrir que teriam um laço para toda a vida. Paralela à trama principal, temos o romance entre Maurice e Lucy que evidencia as dificuldades físicas e psicológicas dos anões. Seus órgãos costumam ser maiores que seus frágeis esqueletos podem suportar, o que lhes acarreta severos problemas precoces, e a vontade de se sentir fazendo parte da sociedade acaba rendendo situações constrangedoras. Maurice, fazendo o estilo pegador, está louco para transar com Lucy, mas na hora H de o sonho de estar com uma gostosona se realizar ele acaba ficando nervoso e falha. Com muitos homens isso acontece, mas para ele a humilhação é ainda maior, como se dependesse de sua libido para ter sua dignidade respeitada. Já Sally (Bridget Powerz), ex-namorada de Rolfe, mesmo com seu diminuto tamanho conseguiu atrair a atenção de um marmanjão, mas este claramente a deseja pelo que ela pode lhe oferecer financeiramente. Este gancho mostra como o “excluído” é suscetível a aceitar o cumprimento de qualquer um que lhe estenda a mão sem analisar suas reais intenções. Com toques de humor, Na Ponta dos Pés é um drama que sugere vários temas a serem refletidos e debatidos, mas é uma pena que eles sejam desenvolvidos de forma superficial. Dá a impressão de que o próprio diretor tinha medo de ser dramático demais ou acabar ridicularizando a temática e simplesmente jogou os assuntos na tela.

Drama - 90 min - 2002

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