quarta-feira, 22 de outubro de 2014

SINÉDOQUE, NOVA YORK

NOTA 3,0

Não se pode dizer amém a um
filme só por causa de um nome de
peso por trás, afinal não bastam ideias
brilhantes, é preciso saber executá-las 
Você já ouviu falar em Quero Ser John Malkovich, Adaptação ou Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças? Nenhuma das alternativas anteriores? Bem, se você tiver curiosidade e for atrás de informações sobre esses títulos irá descobrir que eles foram muito badalados em premiações em suas respectivas épocas, inclusive no Oscar, e que possuem em comum o fato de serem dotados de narrativas originais provenientes de uma mesma cabeça pensante: Charlie Kaufman. Rapidamente ele se tornou um dos roteiristas mais elogiados dos últimos tempos e certamente por seu histórico teria potencial para seu nome ser elevado a potência de grife cinematográfica tal qual Woody Allen ou Pedro Almodóvar. Faltava se arriscar atrás das câmeras para chegar a tal ponto e foi justamente em sua estreia como diretor que ele derrapou. Sinédoque, Nova York é uma produção que até as plateias mais intelectuais devem ter dificuldades para se envolver, simplesmente uma chatice do início ao fim, porém, que hoje pode se tornar um produto de cinéfilos fetichistas não só por fazer parte da coleção Kaufman, mas também por ter como protagonista Phillip Seymour Hoffman que mesmo com uma passagem relativamente curta no universo cinematográfico acabou se tornando um ícone das produções alternativas e angariando uma legião de fãs. Ele dá vida à Caden Cortard, um diretor de teatro que está envolto aos preparativos de uma nova peça ao mesmo tempo em que está enfrentando problemas pessoais. Sua esposa, a artista plástica Alede Lack (Catherine Keener), resolveu deixá-lo e ir viver em Berlim levando consigo a única filha do casal, a pequena Olive (Sadie Goldstein). Madeleine Gravis (Hope Davis), sua terapeuta, aparenta estar mais interessada em divulgar o livro que acabara de escrever do que em ajudá-lo, mas Caden tem consciência de que está mal de saúde e sua vida totalmente sem rumo, mas descobre uma maneira de fazer uma autoterapia. Aproveitando-se de uma boa soma de dinheiro e carta branca que recebe de um investidor para realizar uma peça da maneira que bem entendesse, ele reúne um grupo de atores em um armazém em Nova York para ensaiarem um texto onde poderia dar vazão à sua criatividade e paralelamente contar uma história com eventos e sentimentos que fizessem alusão à sua própria vida. Lançando mão do recurso da metáfora, se a vida do protagonista é insossa, sua peça idem e o filme por tabela também não estabelece vínculos com o espectador, embora conte com todos os ingredientes de um típico filme alternativo, aquele formato que muita gente enche a boca para falar que adora, mas na verdade gasta seu dinheiro com superproduções em 3D ou de super-heróis.

Cotard é o perfeito cara problemático que costuma vivenciar situações dramáticas, mas que o estilo de cinema alternativo capta com ironia e Hoffman encarna com perfeição. Ele sente um grande mal estar com a vida em todos os aspectos, mas não sabe explicar o porquê. Poderia ser uma depressão que o impedisse de levantar com disposição da cama, mas seu quadro deve ser mais grave visto que tem demonstrado interesse pela seção de obituários do jornal e se atiça ao descobrir que uma nova epidemia está surgindo em um país distante. A saúde física também está comprometida. Suas fezes e urina estão com alterações de cor e como bom hipocondríaco que é está sempre batendo ponto em consultórios médicos e como diz o ditado quem procura acha. A terapia pouco lhe ajuda, principalmente depois que resolve levar Adele para uma das sessões buscando restaurar a harmonia perdida do casal. A mulher simplesmente confessa que às vezes fantasia com a morte de Cotard, o que para ela seria benéfico já que não teria que carregar a culpa de abandoná-lo. A verdade dói, mas talvez tais palavras não o tenham ferido tanto quanto o fato da esposa simplesmente ignorar a estreia de sua montagem do clássico texto de Arthur Miller “A Morte do Caixeiro Viajante”, isso bem antes da tal peça literalmente autoral em que poderá transformar sua miserável existência em arte intelectual e enfim descobrir o valor da sua existência. Apesar de o protagonista estar imerso em um universo pessimista, é interessante que a narrativa sempre coloca um contraponto irônico como, por exemplo, quando ele descobre ter sicose, uma doença de pele, mas como o personagem explica à sua inocente filha para virar psicose basta adicionar uma letra na frente desta palavra, o suficiente para ele achar que estar à beira da morte. Kaufman também se aproveita de simbolismo para pontuar seu longa. O fato de a trama começar com a encenação da citada história de Miller tem tudo a ver com o eixo principal do roteiro. Tanto na peça quanto no filme os protagonistas perdem o senso da realidade a partir do momento em que passam a acreditar na felicidade de suas existências. Quando Cotard aluga o galpão para ensaiar aquela que seria sua grande obra, o local acaba se tornando um simulacro doentio de sua própria existência que jamais lhe trará lucros ou fama. Em contrapartida, Adele tem tudo isso fazendo justamente miniaturas artesanais. Ele pretende refazer seu mundo no palco nos mínimos detalhes para poder observar a si mesmo e tentar compreender suas relações com aqueles que o cercam. O problema é que o homem é um ser em constante transformação e uma simples palavra pode nos fazer mudar a maneira de pensar ou agir, assim seu trabalho se torna uma viagem sem data para acabar. Sammy Barnathan (Tom Noonan), um ator não profissional, é escalado para ser o alter-ego do autor por conhecê-lo razoavelmente bem e, apesar de ainda deixar latente que sonha com a volta da esposa, a peça ganhará dois personagens femininos importantes com quem Cotard flerta: Claire (Michelle Williams), que se destacou na última peça do autor, viverá ela mesma na nova encenação, enquanto Hazel (Samantha Morton), a bilheteira de um teatro, será interpretada por Tammy (Emily Watson).

À medida que Cotard avança no roteiro da peça, ao mesmo tempo ele retrocede ou fica preso ao presente, tudo depende de como os acontecimentos de sua vida pessoal são desenvolvidos, assim ele é obrigado a demitir, trocar ou até mesmo cancelar a participação de alguns atores, mas a essa altura já tem até intérprete envolvido além do necessário com o personagem da vida real que inspirou o seu. Chega um momento que o próprio autor da peça vira personagem de sua obra, ironicamente como coadjuvante. Confuso, não? Bem, dificilmente alguém procuraria assistir esta produção se não fosse pelo interesse na filmografia de Kaufman que então assinando apenas seu sexto roteiro já ostentava o rótulo de sinônimo de originalidade. Quem curtiu seus trabalhos anteriores já sabe que não se deve exigir lógicas de suas histórias, muito menos compromisso com noções de tempo e espaço. Sua praia é o surreal e o bizarro, mesmo no fundo querendo abordar temas universais como amor, solidão, memórias, guerras, fobias, enfim, falar sobre a vida. Com a peça dentro do filme, Kaufman, usando Cotard como ater-ego seu, ao mesmo tempo em que busca o sentido da vida do protagonista também estende seu objetivo para justificar a existência da humanidade, o que explica a figura de linguagem contida no título. Sinédoque é uma palavra ou expressão que substitua outra através de uma relação de inclusão ou quantitativa entre elas, por exemplo, se citamos que a cidade está em festa estamos nos referindo a comemoração de seus habitantes. No caso do filme o microcosmo construído no galpão reflete a grandiosidade de Nova York ou como o protagonista se sente nesta metrópole. Autocentrado em suas próprias neuroses, na realidade seu grande problema é um ego gigantesco que busca extravasar brincando de Deus em sua peça. Para todos os atores ele entrega pequenos bilhetes que revelam detalhes de experiências pessoais e a respeito de sua personalidade para direcionar o elenco, mas seu perfeccionismo passa dos limites e os ensaios se prolongam por vários anos sem previsão de término. Para viver um personagem tão complexo, que ao mesmo tempo em que expande seu universo ficcional parece cada vez mais se anular para a realidade, Hoffman revelou-se o ator ideal. Mesmo contido, é possível acompanhar seu mal estar com a vida e sua degradação psicológica e emocional pouco a pouco com alguns poucos relances de positivismo graças a ajuda de algumas pessoas, o que acaba inerentemente fazendo com que ele brilhe mais que o restante do elenco, até porque é uma narrativa-mosaico na qual todos os caminhos convergem em função das vontades de seu personagem. Compreender o enredo de Sinédoque, Nova York teoricamente não é complicado, é mais uma história de alguém querendo fugir de problemas criando um mundo paralelo para refugiar-se, mas Kaufman se perde na exploração do recurso da metalinguagem, exagera na liberdade de expressão e acaba fazendo um emaranhado de boas ideias que não funcionam por um simples motivo. Assim como o protagonista se fechou em um galpão criativo, o festejado roteirista também acabou embriagado pelo universo que criou e se esqueceu de adicionar ou cortar elementos que permitissem o envolvimento do público que com muita boa vontade pode elogiar a obra como um exercício cinematográfico, já como entretenimento... Até para intelectuais deve ser dose para leão.

Drama - 124 min - 2008 

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