quarta-feira, 24 de setembro de 2014

SUNSHINE - ALERTA SOLAR

NOTA 5,0

Longa é um bem intencionado
projeto, mas perde o rumo em
meio a avalanche de efeitos especiais
e sonoros que dispersam atenção
Alguém ainda se interessa por ficções científicas? Já houve uma época em que as produções que abordavam viagens intergalácticas eram sucesso, mas o gênero está em franco declínio há muitos anos. Ainda assim, vez ou outra algum cineasta ousa investir em temáticas do tipo, muitas vezes acreditando que sua assinatura será o suficiente para chamar a atenção do público e mesmo que a obra não saia perfeita sua trajetória profissional poderia poupá-lo do achincalhe. Com direção de Danny Boyle, dos cultuados Cova Rasa e Trainspotting, o suspense de ficção Sunshine – Alerta Solar coleciona críticas negativas e positivas em proporções semelhantes, mas é certo que o pé atrás com o gênero que a maioria cultiva é um fator que realmente pesa na avaliação. Produtos do tipo acabaram ficando reféns de um nicho específico de público e não adiante o nome de um cineasta ou de algum ator famoso nos créditos para servir de chamariz. Quem não curte o gênero dificilmente embarca na trama e a tendência é resumir o filme a uma simples desculpa para oferecer um espetáculo visual, mas vazio de conteúdo e emoção. Roteirizado por Alex Garland, autor do livro “A Praia” que gerou um longa homônimo (e mal avaliado pelo público) também dirigido por Boyle, a história se passa em 2057 quando o Sol está prestes a se extinguir e consequentemente a humanidade também se vê ameaçada já sentindo os reflexos das baixíssimas temperaturas que assolam a Terra. A última esperança para a sobrevivência do planeta é a espaçonave Icarus II que tem a difícil missão de levar uma potente bomba atômica capaz de reacender a estrela, uma espécie de realimentação de sua fonte de energia. Durante a viagem e sem contato com a base a tripulação descobre o sinal de pedido de socorro da Icarus I, a nave enviada sete anos antes com o mesmo objetivo, mas cujas razões de fracassar são desconhecidas. O grupo então fica dividido. Alguns pensam em voltar à primeira espaçonave para pegarem equipamentos que podem ser úteis e achar explicações para seu sumiço e outra parte defende que seja seguido o planejamento original traçado previamente.  A decisão recai sobre Capa (Cillian Murphy), um especialista em física que escolhe a primeira opção e a mudança de trajetória acaba causando problemas sérios. Mais que lutar pela própria sobrevivência, esses corajosos homens e mulheres sentem a pressão de preservar o futuro da humanidade.

A Icarus II tem como capitão da equipe Kaneda (Hiroyuki Sanada) que conta com o apoio do técnico em mecânica Mace (Chris Evans), do técnico em comunicações Harvey (Troy Garity), da piloto Cassie (Rose Byrne), do navegador Trey (Benedict Wong) e do psicólogo Searle (Cliff Curtis), este responsável por ajudar os tripulantes a manterem a sanidade e o emocional diante das dificuldades. Por fim, a botânica Corazon (Michelle Yeoh) zela pela manutenção de oxigênio dentro da nave obtido através de plantas naturais. Em um primeiro momento, o espectador é apresentado ao universo peculiar da missão, aqueles detalhes técnicos que tendem a deixar a história maçante, mas ao mesmo tempo há o cuidado em desenvolver os perfis dos personagens. Em um grupo tão heterogêneo os temperamentos são diversos e é previsível que a medida que a tensão aumenta as brigas também surjam, algo acentuado pela sensação de claustrofobia da ambientação. Nem todos sobreviverão afinal a luta para vencer adversidades, mesmo que seja preciso dar a própria vida em prol de um bem maior, é uma das marcas do gênero (quando levado a sério). Aliás, aparentemente as intenções de Boyle eram justamente explorar as questões dramáticas do argumento. Estima-se que a viagem de ida e volta até o Sol demoraria cerca de três anos para ser concluída, e todo esse tempo enclausurado dentro de uma nave poderia provocar intensos problemas psicológicos e emocionais, ainda mais durante o trajeto inicial sob a pressão da missão não dar certo. Isso sem falar em outras questões que implicam a visita aos confins do universo. Por mais avanços que os cientistas conquistam (lembrando que o filme é de 2007), parece que o sistema solar será uma eterna e gigantesca caixa de surpresas. Se bem que a própria evolução dos seres humanos merece um acompanhamento constante. Teoricamente a missão da Icarus II é simples, tudo meticulosamente estudado, mas a instabilidade das pessoas envolvidas pode mudar drasticamente os planos. Partindo da ideia que a tripulação já estava há cerca de 16 meses em órbita, é justamente quanto os personagens estão no limite e o filme envereda para o suspense que Boyle perde a mão e deixa de lado a preocupação com o conteúdo. Acondicionar o máximo possível de clichês do gênero e um show de efeitos especiais e sonoros parece ser o grande objetivo. O tripulante mais covarde é limado da trama, existe a briga pelo comando da missão, o computador de bordo se volta contra o grupo e as panes da aeronave abrem caminho para imagens espetaculares que fazem o espectador querer pensar como tudo aquilo foi bolado, no entanto, o excesso e a rapidez das informações visuais acabam tendo um único objetivo: escamotear as falhas narrativas.

Após um início razoavelmente interessante, a trama fica tediosa e talhada para espectadores “moderninhos” que levam ao pé da letra a alienante frase que diz que imagem é tudo. E pelo visto o som também. Embora tente evocar a grandiosidade e a seriedade de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, a segunda metade parece inspirada em Alien – O Oitavo Passageiro, e nessa mistura de referências, que acaba tendo mais semelhanças com O Enigma do Horizonte (o argumento-chave de uma nave perdida pedindo socorro), existe uma discussão filosófica e religiosa que acaba se perdendo. Teríamos o direito de enfrentar Deus e adiar a nossa extinção? Garland queria fazer uma obra com o intuito de ser uma declaração de amor à ficção científica, porém, com abordagem mais intelectual. No entanto, achar o equilíbrio entre conteúdo e o espetáculo que simboliza o gênero não é fácil, tanto que ele chegou a impressionante marca de 35 rascunhos até que conseguiu o texto que julgava mais apropriado e, diga-se de passagem, perdendo um pouco o foco que era especular sobre o que aconteceria após a morte do Sol. Trocou as consequências pela prevenção. Apesar de a preocupação visual diminuir o peso da narrativa, é de se destacar os esforços para criar um ambiente futurista crível e com tecnologia compatível ao que se espera de sua evolução. Também merece elogios a forma como a superfície e a luz emitida pelo Sol são apresentadas já que não existem dados concretos sobre estas visões em ângulos próximos. O astro-rei é praticamente elevado à personagem principal quando surge em alguns momentos com toda a sua imponência ofuscando a visão dos astronautas e é interessante observar o contraste de cores. Enquanto a proximidade do Sol tinge a tela de tons alaranjados, o que traz uma indescritível sensação de calor, dentro da nave imperam as cores frias, mas os ânimos dos tripulantes estão fervendo. Aliás, a presença de Evans não deixa de ser irônica já que na época do lançamento ele aproveitava a fama conquistada em Quarteto Fantástico. O Homem-Tocha tentando reaquecer o Sol! É óbvio que piadinhas do tipo surgiram, mas o ator conseguiu mostrar uma interpretação completamente diferente do herói em chamas, ainda que mais uma vez tenha que rivalizar pelo posto de protagonista que no caso é mais digno de ser ocupado por Murphy que além de uma considerável trajetória profissional é o único do grupo com conhecimentos para operar a tal bomba, esta que também não deixa de ser um elemento irônico: a salvação através de um artefato que geralmente causa catástrofes. Entre boas ideias e muitos clichês, Sunshine – Alerta Solar consegue fugir do rótulo de produção trash que ultimamente parece ter se tornado sinônimo de ficção científica, mas está anos-luz de revitalizar o gênero, sendo um passatempo indicado mais aos aficionados por ele.

Suspense - 107 min - 2007 

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