quinta-feira, 18 de setembro de 2014

TRÁFICO HUMANO

NOTA 7,0

Feita para a TV, produção tenta
explorar os mais variados ganchos
que envolvem o tráfico de mulheres
e crianças para o mercado do sexo
Nos EUA e em vários países da Europa é muito comum a produção de telefilmes e de séries curtas, mas embora tenham como primeira janela de exibição a TV a maioria destes projetos são dotados de qualidades técnicas e texto apurado dignos de cinema. Bem, isso de alguns anos para cá após o boom dos canais pagos. Além de serem materiais que podem ser reprisados diversas vezes, seguindo a tradição desta mídia, os produtores obviamente levam em consideração os lucros que tais obras gerariam também em DVD. É uma pena que parece que criamos a cultura de repudiar produtos do tipo. Se estão em exibição na televisão até podem passar despercebidos, mas se sabemos de suas origens e lançamento em mídia física sem passagem pelos cinemas o pé atrás parece inevitável, ainda mais quando o produto beira as três horas de duração. Logo nos vem à cabeça os diálogos super decorados, as situações esquemáticas e os indesejáveis cortes de entrada para comerciais que geralmente não são excluídos na edição para consumo doméstico. Embora pouco conhecido e raridade, o suspense dramático Tráfico Humano é uma ótima opção para revermos conceitos, a começar pelo tema polêmico e indigesto que em um filme comum não seria tão bem explorado. O tráfico de pessoas é um dos maiores negócios dos tempos atuais para as facções criminosas e rende incontáveis milhões por ano. O pior de tudo é saber que quem alimenta este mercado ilícito e deprimente são pessoas com posses e teoricamente esclarecidas, justamente o que o filme recrimina em seu término. É lembrado que essa “modernização” da escravidão tem como principais apoiadores o próprio EUA cuja cultura local cria uma demanda para isso e incentiva outros países ao mesmo comportamento. Quem não conhece o clichê do pai que leva o filho aos “inferninhos” quando adolescentes para provar sua masculinidade e que inerentemente propaga a ideia de que o prazer sexual deve vir acompanhado da promiscuidade e do proibido? E alguém duvida que estes mesmos jovens se tornem os velhotes safados que continuarão alimentando o comércio do sexo? Esse é apenas um dos problemas que o roteiro de Carol Doyle e Agatha Domink nos deixa para refletir, mas a narrativa aponta para vários caminhos que a certa altura nos angustiam, quase perdemos a vontade de continuar assistindo de tão ordinário que é este submundo. Impossível não pensar que uma filha, sobrinha ou amiga pode sem saber estar na mira de quadrilhas, mas mesmo assim temos a curiosidade de saber até onde vai este circo de horrores.

A trama já começa com uma garota sendo negociada para passar uma hora satisfazendo as vontades de um grotesco homem, mas ela prefere o suicídio. Em cerca de dois meses esta seria a terceira morte de uma jovem de origem europeia a acontecer em uma grande metrópole americana envolta a circunstâncias semelhantes, o que chama a atenção da investigadora Kate (Mira Sorvino) que procura o Departamento de Segurança Nacional para se candidatar a colaborar em casos do tipo. Ela está certa que se trata de moças trazidas a força para os EUA para se prostituírem, mas para ser aceita como membro de tais operações precisa convencer o chefe da divisão, o veterano Meehan (Donald Sutherland), da sua competência. Graças a sua persistência é que a polícia local vai começar a investigar a vida do russo Sergei Karpovich (Robert Carlyle), um milionário que vive em Nova York aparentemente em dia com seus impostos e que lucra com um site de relacionamentos e uma agência de modelos. É justamente com a ilusão de que poderia levar garotas a estamparem capas de revistas e peças publicitárias por todo o mundo que ele consegue engambelar a ingênua Nadia Taganov (Laurence Leboeuf) que mesmo sendo menor de idade e sem passaporte consegue sair da Ucrânia e ir parar em Nova Jersey, mas sem saber contraiu uma dívida gigantesca. Ela terá que se prostituir para pagar os custos da viagem com altíssimos juros, mas caso recuse alguma ordem ou tente fugir alguma pessoa que ela gosta muito pagará o pato. Esse é o grande medo também de Helena (Isabelle Blais), uma jovem mãe solteira da Rússia que cai na conversa de um homem galanteador e aceita ir com ele passar um fim de semana em Viena, na Áustria, mas ao invés de viver um sonho com um homem que parecia amá-la de verdade ela vai é participar de um grande pesadelo. Com medo de que façam algo contra sua pequena filha, ela não revida as humilhações e é enviada para a mesma casa de prostituição que Nadia, mas o fato de ter tido uma educação melhor a torna uma pessoa de confiança de Karpovich a quem ele pede para fazer relatórios financeiros sobre os negócios sujos, mas não a libera de vender o corpo. Com a jornada dupla ela somente diminuiria seu tempo de permanência no submundo quitando sua dívida mais rapidamente, porém, suas chances de levar uma vida normal seriam mínimas. Não poderia contar para absolutamente ninguém sobre o que vivenciou e carregar tal sofrimento também seria um fardo, o que justifica a expectativa de vida de no máximo cinco anos para quem faz parte deste universo. Se não é morto para calar a boca o próprio indivíduo se encarrega de tirar a vida. Paralelamente, também é tocado no assunto da prostituição infantil. Nas Filipinas, Annie Gray (Sarah-Jeanne Labrosse) estava passando férias com os pais quando foi sequestrada em lugar público e à luz do dia. Ela foi entregue aos cuidados de Tommy (Vlasta Vrana), um asqueroso cafetão que pretende lucrar alto com a virgindade da garota, assim como também pretende explorar a inocência de Jasmine (Jeanne Lauzon) uma nativa vendida pelos próprios pais por uma mixaria. Muito sofrimento? E olhe que o roteiro não aborda o tráfico de menores para adoção e apenas esbarre na polêmica de meninos usados na prostituição.

Pelas afinidades, tanto profissionais quanto de ausência de caráter, Karpovich e Tommy mantém contato, se protegem, pagam policiais corruptos para ignorar suas atividades e até indicam clientes. Nas Filipinas, na República Tcheca, na Áustria, na desértica região do Novo México ou em praticamente todos os cantos da terra do tio Sam, não importa o lugar, a rede de prostituição possui diversas ramificações. Em cada ponto o russo tem um braço direito ou procura manter relações amistosas com o grande cafetão local, isso até que exista seu interesse na parceria, é óbvio. Realmente o diretor Christian Duguay procurou esmiuçar todos os podres que movimentam o submundo e deve ter tido estômago para tanto, o mesmo sangue frio que é exigido ao espectador, mas a verdade dói. Sabemos que essas crueldades existem, mas preferimos tapar olhos e ouvidos para não sofrer. Os pedófilos ou até os hipócritas tarados que acham que está tudo certo se o sexo é praticado com uma garota já com seus 18 anos, mesmo constatando o sofrimento da parceira, podem ser seus vizinhos, amigos, colegas de trabalho ou até mesmo familiares. Revoltante, por exemplo, a sequência em que o Dr. Smith (Larry Day), médico pessoal de Karpovich, revela que irá às Filipinas passar umas férias com uns amigos e pede dicas de onde se “divertir” mesmo sendo um chefe de família. Violência, humilhação, vidas controladas, doenças, corrupção, pedofilia, promiscuidade, tratamento desumano, nada parece escapar aos olhos do diretor que até mostra uma enojada festa de filhinhos de papai, o tráfico de crianças feito através de containers de cargas e a obrigação de mulheres a participarem de vídeos caseiros para alimentarem sites de pornografia. Claro que ainda existem os shows em boates (que aparecem apenas para esconder o que há de sórdido nos porões destas casas), o vício em bebidas e drogas, os testes para escolher as garotas, a rivalidade entre chefões do crime e por aí vai. É muito assunto ligado ao tema, mas Duguay tentou abordar o máximo possível deles e o resultado é um tremendo nó na garganta do espectador, mas Tráfico Humano não é perfeito. Além das rápidas passagens que não exploram os conflitos em todo seu potencial, ficam algumas coisas mal explicadas no ar como o fato de Helena cair na lábia de um farsante tão facilmente, afinal ficou grávida com a mesma conversa, e o fato de Viktor (Rémy Girard), o pai de Nadia, conseguir se infiltrar no grupo de exploradores para salvar a filha uma vez que as aliciadas tiveram seus contatos de parentes e amigos averiguados para poderem ser chantageadas. Todavia, o pior mesmo é ver Sorvino bancando a mocinha ingênua para pegar Karpovich e seu bando na reta final. Aliás, por tudo que o longa aborda, seu clímax fica muito a dever em emoção e parece feito às pressas, um contraponto negativo em comparação a crescente tensão que a narrativa trabalhava até então. Todavia, vale uma conferida como alerta do inferno que pode se tornar a vida de alguém ao dar um passo em falso.   

Suspense - 176 min - 2005 

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