quinta-feira, 16 de outubro de 2014

100 ESCOVADAS ANTES DE DORMIR

NOTA 3,0

Baseado no livro de jovem
italiana que conta suas experiências
sexuais, filme é apimentado para
adolescentes, mas insosso aos adultos
Muito se fala sobre as apavorantes traduções ou troca de títulos feitas no Brasil, muitas vezes parecendo que os responsáveis sequer chegaram a assistir o filme para compreenderem o tema. Sendo assim, merece aplausos a escolha do nome 100 Escovadas Antes de Dormir para narrar o drama de uma adolescente descobrindo a sexualidade. A opção soa enigmática e ao mesmo tempo poética, mas é uma pena que o conteúdo da obra não faça jus a nenhum destes vieses. Deixando hipocrisias de lado, parece que o mercado literário viveu um período inclinado a explorar tramas com temáticas sexuais, mais especificamente publicar diários nos quais adolescentes precoces contam suas aventuras libidinosas, e o sucesso de tais publicações obviamente chamou a atenção da indústria cinematográfica. Enquanto no Brasil a ex-garota de programa Bruna Surfistinha colhia os frutos das vendas de seu livro e sua adaptação para as telonas dava os primeiros sinais, na Itália outra ninfeta já estava à sua frente. Melissa (María Valverde) era uma adolescente virgem que logo no início do filme aparece se masturbando delicadamente, porém, seu momento de prazer é interrompido por sua mãe que chega a seu quarto de supetão para lhe acordar, mas ela consegue disfarçar o que estava fazendo, já devia estar acostumada.  Seu pai é ausente devido ao trabalho e sua mãe Daria (Fabrizia Sacchi) é uma dona de casa que finge não perceber que a filha cresceu. A única que parece se importar com ela é Elvira (Geraldine Chaplin), sua avó que lhe ouve e aconselha, mas não demora muito para a idosa ser internada em um asilo e assim a garota perde seu chão. Antes desse baque ela já demonstrava uma paixão avassaladora por Daniele (Primo Reggiani), um dos garotos de sua escola mais atraente, rico e... Inescrupuloso! Certo dia durante uma festa na casa dele, o rapaz consegue levá-la para um canto isolado e a convence a praticar sexo oral nele que a usa descaradamente como um objeto aproveitando-se de sua ingenuidade e paixão platônica, mas para ela o momento é sublime e lhe rende a esperança de que ele pode vir a amá-la, havendo a promessa de um beijo na boca em uma próxima vez. Depois disso ficou na expectativa de um sinal qualquer de interesse da parte dele, chegando a ter orgasmos durante as aulas pensando no garoto.

O segundo encontro demorou um pouco a acontecer, mas quando rolou Daniele já foi disposto a tirar-lhe a virgindade e de quebra submetê-la a mais uma sessão de humilhação. Percebendo a entrega total da parceira, dias depois ele a chama para um novo encontro, mas desta vez está acompanhado de seu amigo Arnaldo (Elio Germano). Embora lhe caia a ficha de que está sendo usada, para se colocar de igual para igual na esperança de conquistar de vez seu amado, Melissa diz que não vai fugir da raia e vai provar seu fôlego e apetite sexual e assim ela transa com os dois e inicia seu caminho pela devassidão. Suas aventuras, na verdade a maneira que encontra como válvula de escape para suas frustrações, incluem orgias, masoquismo, pedofilia e sexo virtual, tudo registrado com riqueza de detalhes em um diário, documento que depois foi transformado no livro “One Hundred Strokes of the Brush Before Bed” escrito pela própria Melissa Panarello que empresta seu pseudônimo ao título original do filme, “Melissa P.”. A publicação tornou-se um best-seller na Itália e também foi sucesso de vendas em todos os países que foi lançado, carreira obviamente impulsionada pelo conteúdo sexual do produto. Os homens podem ver a obra com curiosidade fetichista, assim como as mulheres, mas para elas ainda há o acréscimo do interesse em ver materializados seus desejos de também poderem ter diversos parceiros e liberdade para se aventurarem sexualmente. Todavia, se o diretor Luca Guadagnino tinha alguma intenção a mais que fazer um descartável pornô soft, suas ideias se perderam no meio do caminho. O filme simplesmente despeja na tela conteúdo sexual sem se preocupar em tecer reflexões acerca de arrependimentos, dúvidas e tampouco sobre a repercussão da vida depravada da protagonista entre os que a cercam. Há apenas uma rápida sequência no colégio que mostra um leve burburinho, depois só na reta final o diretor volta a dar sanidade à personagem. Aliás, a conclusão é feita de forma apressada, previsível e maniqueísta, colocando uma indesejável calda de açúcar sobre o conteúdo amargo servido até então, embora fora alguns rápidos takes que mostram os seios da garota (obviamente a atriz é mais velha que sua personagem), tudo fica na base da insinuação e peca contra a obra que tinha potencial para explorar cenas picantes e nudismo. A inocência vai contra o realismo esperado e no conjunto a produção parece não saber com qual público quer se comunicar. O conteúdo obviamente interessa à adolescentes, mas abrandar as coisas para alcançar tal plateia acabou originando um filme insosso tanto para jovens quanto para adultos.

Chega a ser ridículo ouvir a narração em off da protagonista justificando seus atos como uma espécie de vingança contra os homens, um argumento já um tanto batido e que não cola para uma garota contemporânea e que já devia estar acostumada com os famosos “pé na bunda” que já a algum tempo também podem ser oferecidos via torpedos ou emails agilizando o “andamento da fila”. Cada cabeça é uma sentença e é certo que em meio a jovens desencanados é comum existirem um ou outro que ainda acredite no amor à primeira vista ou no felizes para sempre, mas incomoda o fato de além de sonhadora Melissa também creditar seu comportamento devasso a ausência dos pais em sua educação, mesmo com a mãe sempre solícita. A humilhação entre os colegas de escola devido a um ato sexual divulgado e a criação relapsa que teve também foram usados como justificativas para os caminhos percorridos pela protagonista do drama Bruna Surfistinha. Ambas as jovens mostravam-se fortes e insaciáveis durante os encontros, mas quando ficavam sozinhas choravam o quanto podiam para em seguida vestir a armadura e irem à luta novamente, um círculo vicioso. A única diferença é que Melissa bobeou e não quis lucrar com o sexo, apenas satisfazer vontades que no fundo a martirizavam. Roteirizado pelo próprio Guadagnino em parceria com Barbara Alberti e Cristiana Farina, o título 100 Escovadas Antes de Dormir vêm do hábito da avó da garota de lhe pentear suas longas madeixas exageradamente todas as noites, uma metáfora ao fato da pessoa se sentir totalmente livre de aflições quando seus cabelos estão desembaraçados. Não por acaso as melhores cenas são as conversas entre avó e neta durante este ritual. Se o roteiro se concentrasse mais nesta relação o resultado poderia ser bem diferente e digestivo, mas para forçar a redenção da protagonista lá pelas tantas a personagem de Chaplin tem que sair de cena para trazer a outra de volta à realidade. O problema é que no final já estamos fatigados de uma narrativa frouxa levada por uma protagonista que não consegue despertar simpatia no público. Todavia, há de se elogiar o desempenho da espanhola María Valverde pelas cenas fortes, mas o perfil da personagem não a ajudou. No final das contas, a sensação é que o longa poderia ser um daqueles que marcam época por sua ousadia, mas acabou sendo apenas mais um que instiga a curiosidade e depois busca desesperadamente alguma solução careta para forçar uma lição de moral. Nem a própria autora do livro aprovou o filme alegando que muita coisa foi modificada e não se reconheceu na tela. De qualquer forma, este é mais um produto tentando alertar sobre o bloqueio comunicativo entre pais e filhos e suas consequências. Pena que a temática fique em segundo plano. Saber qual será a próxima peripécia sexual da Lolita moderna acaba virando o grande atrativo.

Drama - 100 min - 2006

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