terça-feira, 7 de outubro de 2014

ADEUS, LÊNIN!

NOTA 9,0

Longa é uma eficiente mistura de
ironia, drama e fatos históricos que
comprova que o cinema alternativo e
comercial podem caminhar lado a lado
A queda do muro de Berlim em novembro de 1989 é um marco da História não só da Alemanha, mas também de todo o mundo. Os alemães orientais que viviam sob o regime comunista então se atrelaram aos germânicos da parte ocidental e ao seu capitalismo e consumismo. Contudo, a unificação do país com o tempo deu sinais negativos e uma onda de nostalgia pelo antigo regime político começou a tomar o povo que então estava desanimado com a alta taxa de desempregos e a precária situação econômica. O movimento ficou conhecido como Ostalgie e pregava uma volta ao passado usando como armas a mídia, publicidade e bens de cosumo, e nessa onda também poderíamos citar a comédia dramática Adeus, Lênin!, um dos maiores sucessos de todos os tempos do cinema alemão e que felizmente chegou a outros países com razoável pompa graças aos prêmios e indicações que colecionou em alguns festivais. Escrito e dirigido por Wofgang Becker, o filme começa narrando fatos que aconteceram algumas poucas semanas antes da queda do muro. A professora Christine Kerner (Katrin Sass) é uma apaixonada colaboradora do regime comunista, mas sofre um grande baque quando presencia uma manifestação nas ruas na qual seu filho Alex (Daniel Brühl) acabou sendo espancado por policiais e preso. Com o nervoso que passou ela sofreu um colapso e entrou em coma, o que de certa forma foi bom já que o tempo que ficou desacordada a impediu de ver o trunfo do regime capitalista. Entretanto, alguns meses depois, já em meados de 1990, ela desperta, mas está com a saúde abalada, principalmente o coração. Contrariando orientações médicas, o filho quer levá-la imediatamente para casa para assim ela passar seu aniversário junto a família e amigos, mas temendo as reações dela quando descobrisse que sua amada Berlim Oriental está ligeiramente modificada (aliás com a unificação a divisão de lados caiu em desuso) e sob ordens de um governo capitalista, o rapaz se esforça para ao menos dentro do apartamento da família manter as lembranças da Alemanha comunista bem vivas. Enquanto a mãe permanece convalescendo na cama, Alex não tem muitos problemas para forjar a realidade e manter as influências externas longe do santuário socialista em que transformou sua casa.

Alex conta com a ajuda da namorada Lara (Chulpan Khamatova), da irmã Ariane (Maria Simon) e de alguns conhecidos para manter a farsa. Eles usam roupas fora da moda, se alimentam de comida ocidental estrategicamente acondicionada em frascos de produtos extintos da Alemanha Oriental e precisam se policiar para em meio a conversas não trazerem informações atualizadas. O mesmo cuidado é exigido de amigos e alunos da professora quando vão visitá-la. Até quando ela pede uma televisão no quarto para se distrair Alex dá um jeitinho. Recorre a fitas de vídeo com gravações de programas jornalísticos de um ano atrás e quando a fonte seca ele próprio parte para a produção de conteúdo amador, mas com certo apuro técnico graças ao apoio de Denis (Florian Lukas), seu amigo que sonha em ser diretor de audiovisuais. O problema é quando impulsivamente Christine levanta da cama e resolve desenferrujar as pernas indo até a porta do edifício. Além da mudança de novos vizinhos vindos da parte ocidental do país, como explicar, por exemplo, a enorme peça publicitária da Coca-Cola que agora adorna a fachada de um prédio? Alex continua investindo em falsos telejornais, mas no fundo sabe que a mãe mais cedo ou mais tarde vai saber toda a verdade. Mesclando muito bem drama e humor, é muito interessante e envolvente a forma como Becker utiliza a relação entre mãe e filho para expor conteúdos históricos e sociais a respeito da Alemanha antes e depois da queda do muro. É importante ressaltar que toda a preocupação de Alex, além do amor natural que sente pela mãe, é porque ele tem consciência que ela já sofreu muito e ele próprio se sente responsável por seu último baque. Quando os filhos eram pequenos, Christine foi abandonada pelo marido e sofreu uma síncope. Foi depois disso que se tornou uma ferrenha ativista socialista, mas quando viu seu filho em meio a uma manifestação teve um choque em dose dupla. Além da violência que o rapaz sofreu, também lhe doeu saber que ele estava no meio da confusão justamente para lutar contra todos os conceitos que ela defendia e lá se vai mais um ataque cardíaco. Um terceiro poderia ser fatal, por isso Alex praticamente abdica de sua vida para se dedicar ao máximo aos cuidados com ela, mas o que parecia ser divertido no início acaba se tornando estressante visto que é impossível fazer o tempo parar e as notícias voam rápido. Essa é uma grande reflexão do filme adornada por detalhes da História de um país cuja cultura geralmente é conhecida de forma folclórica, porém, o cotidiano se assemelha ao de brasileiros, americanos ou japoneses. Todos têm problemas, sonhos e momentos felizes em menor, igual ou maior número.

O longa está repleto de boas ideias como o fato da irmã do protagonista estar feliz por trabalhar como atendente de uma lanchonete e vestir-se com roupas descoladas, totalmente integrada ao estilo de vida capitalista. Alex também não veria problemas em conviver com essa cultura do consumismo e da massificação, tanto que trabalha vendendo TVs a cabo, um símbolo da mudança dos tempos para o país, a porta para a população expandir seus conhecimentos. Contudo, percebe que a nova política não vai lhe oferecer nada mais que subempregos, mas nem por isso se torna um chato de galochas. A interpretação sincera de Brühl nos faz ficar ao seu lado nesta brincadeira do Bem e sua relação com a mãe é cativante. Não podia ser diferente. Apesar das críticas e metáforas políticas e ideológicas, a essência da trama está na relação de amor e confiança entre mãe e filho, assim não seria errado dizer que a narrativa traz resquícios de A Vida é Bela. No premiado drama italiano um pai escondia do filho pequeno os horrores da guerra induzindo-o a acreditar que estavam participando de um jogo em um campo militar. Enquanto Roberto Benigni investiu no tom caricatural para contar uma história um tanto emotiva, Brühl mostra-se mais sóbrio para compor sua farsa aparentemente divertida, mas no fundo melancólica. O ator, talvez o nome de maior projeção da cinematografia alemã contemporânea, interpreta de forma natural, rapidamente parece um velho conhecido do espectador e seu desempenho só tende a melhorar quando há um entrosamento maior com a personagem de Katrin Sass, esta que tinha tudo para descambar para uma atuação típica de dramalhão. É sensível que sua Christine sabe que pode falecer a qualquer momento, mas não se deixa abater e procura aproveitar positivamente esta nova chance para viver dure o tempo que durar. Usando imagens de arquivos da época, mas também investindo em sua recriação (lembrando que a ação principal se passa em 1990), Adeus, Lênin! é o que se pode chamar de um produto perfeito, onde tudo funciona. Além do texto, direção e interpretações em sintonia máxima, a parte técnica também não deixa nada a dever a produções hollywoodianas. Aliás, embora fale de temas universais como amor em família, consumismo e a chance de corrigir erros do passado, produtores ianques só não correram atrás dos direitos de refilmagem porque o pano de fundo histórico é essencial para a trama, tanto que o filme acabou se tornando uma boa ferramenta de trabalho para professores pela fácil comunicação que o longa estabelece com o público jovem, mas deveria ser um programa obrigatória para qualquer um que aprecie cinema de qualidade. Quem disse que os alemães são sisudos? Assista ao filme e reveja seus conceitos.

Comédia - 118 min - 2002 

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