quinta-feira, 2 de outubro de 2014

DIAS DE GLÓRIA

NOTA 8,0

Longa resgata a história de
soldados africanos que defenderam a
França na Segunda Guerra Mundial,
mas para variar foram esquecidos
Quantas pessoas perderam suas vidas ou jamais voltaram a serem as mesmas após lutarem em guerras? A temática é provavelmente infinita. Não importa quanto tempo passe sempre será possível encontrar histórias do tipo, até porque infelizmente guerras se fazem presente até hoje no cotidiano mundial. Sem dúvidas um dos períodos mais prolíficos para a sétima arte é a Segunda Guerra Mundial e felizmente cada vez mais países estão oferecendo obras a respeito de seus olhares particulares sobre o conflito, dessa forma podemos formatar um painel mais completo deste episódio do que o básico que aprendemos em aulas de História. Dias de Glória traz a toma eventos que mereciam um capítulo exclusivo nos livros: a participação de países africanos na guerra. Em meados de 1943, a França era tomada pela Alemanha e o governo local em exílio tentava organizar um exército para enfrentar os nazistas. O primeiro grupo de soldados recrutados foram cerca de 130 mil homens provenientes das colônias francesas na África que ajudaram a libertar uma pátria-mãe que até então só conheciam por nome. Entre eles estavam Said (Jamel Debbouze), Messaoud (Roschdy Zem), Abdelkader (Sami Bouajila) e Yassir (Samy Naceri), que precisaram aprender a lidar com o preconceito existente ao mesmo tempo em que lutavam pela vitória da França. Com direção do então estreante Rachid Bouchareb, que assina o roteiro em parceria com Olivier Lorelle, a história começa mostrando o recrutamento dos africanos que se alistaram voluntariamente deixando para trás suas famílias, amigos e rotina. Mesmo não sabendo para onde seriam enviados e tampouco se retornariam para casa, estes soldados foram motivados pelos salários oferecidos e pela expectativa de que teriam seus esforços reconhecidos pelo governo francês. Contudo, eles são enviados para a batalha com um mínimo de treinamento, a maioria não sabendo nem como manejar uma arma, e suas roupas vagabundas e os pés calçados com sandálias demonstravam visualmente o despreparo do batalhão. Tratados quase de forma sub-humana, estes homens de origem humilde e pouca ou nenhuma instrução partem para a guerra determinados a vencer, o que de fato aconteceu em diversas batalhas isoladas, mas o número de mortos é dolorosamente maior que o de triunfos.

Bouchareb resgata este episódio, um dos diversos recortes que compõem a Segunda Guerra Mundial, apoiando-se em um registro realista dos fatos, algo que fica claro desde os créditos iniciais ilustrados com cenas documentais. Além de oferecer o trivial de bons filmes do gênero, ou seja, o apuro técnico na recriação de batalhas, o diretor também faz uma denúncia a respeito do descaso da França com seus verdadeiros heróis que lhe propiciaram a libertação, com direito a um manifesto explícito antes dos créditos finais. Há quem aponte que os próprios africanos se fizeram passar por submissos, mas é importante ressaltar a condição de inocentes como eles se aliaram ao conflito, aparentemente tudo que fizeram e suportaram foi na esperança de uma condecoração que no final das contas jamais foi oferecida. Entre os soldados de segunda linha estavam também muçulmanos, habitantes de países arábicos colonizados pela França, mas o alto escalão militar francês preferia se referir ao grupo de forma homogênea, todos eram africanos (também chamados de indígenas como no título original) aos seus olhos e consequente e preconceituosamente indignos de regalias como é mostrada na marcante cena em que um negro é impedido de se servir de tomates e um árabe se revolta e pisoteia os alimentos para que ninguém mais tivesse direito. Todavia, o Sargento Martinez (Bernard Blancan) pede a seus subordinados que não rotulem ninguém e limite-se a chamar os “diferentes” de homens ou soldados. Ele próprio é um africano, mas renega suas origens para conseguir se manter e quem sabe até crescer na hierarquia militar, porém, tem fé que os rapazes que recrutou dariam a própria vida para salvar a pátria-mãe, só que é da natureza deles não aceitarem injustiças. A condição de serem representantes de colônias não é necessariamente o problema, afinal eles próprios não têm o entendimento muito claro do que isso significa, mas a revolta diz respeito ao fato de sempre serem preteridos em prol dos soldados legitimamente franceses. Contudo, demora a terem consciência da posição subserviente que eles mesmos adotaram.  Boa parte do tempo os personagens africanos exaltam a França com hinos, fazem planos para ao fim da guerra fincarem raízes no país e traçam comparativos entre o local de origem e o novo território de oportunidades a serem exploradas. Em contrapartida, são os primeiros a serem convocados a atacar os inimigos contando mais com a coragem do que qualquer outra coisa, assim o batalhão de franceses nativos avança com sua artilharia pesada quando os rivais já estão cansados e não raramente saem consagrados. Uma hierarquia um tanto injusta não?

Retratando contradições e deslumbramentos dos soldados das colônias, o filme, embora procure apresentar os fatos com fidelidade à realidade, acaba de certo modo glorificando a França, mas não é proposital. Com a ansiedade de serem lembrados como heróis ou se sobrevivessem que ganhariam o respeito em terras parisienses, estes homens enfrentaram todas as adversidades agarrados a um objetivo e só com o cessar fogo é que veio a compreensão da realidade. Enquanto a população francesa festejava um evento coletivo, seus verdadeiros realizadores combalidos foram obrigados a voltar para suas miseráveis vidas ou se ficassem arcar com os ônus de viverem em um país onde o preconceito seria constante. Isso sem falar no peso na consciência das várias baixas que o grupo sofreu. Histórias assim existem aos montes, mas o grande diferencial de Dias de Glória é investir na construção de personagens com perfis envolventes, um ponto geralmente falho em filmes de guerra. Said é um camponês que acaba se tornando submisso às ordens de um sargento argelino; Yassir é um mercenário que se alistou unicamente pensando no dinheiro que poderia receber; Messaoud alimentou-se da esperança de viver tempos melhores em solo francês; e, por fim, Abdelkader assumiu uma posição mais contestadora já que era um dos poucos que sabiam ler e escrever no grupo das colônias, assim tendo mais consciência do que o conflito envolvia. Os esforços dos intérpretes foram recompensados com uma premiação em conjunto no Festival de Cannes do qual todos saíram com o prêmio de melhor ator. O filme teve o mérito de revelar de forma direta e digna uma passagem da História francesa e também da Segunda Guerra Mundial que por muitos anos ficou mantida em segredo. Era a primeira vez que a participação de soldados argelinos no conflito foi lembrada no cinema e de quebra corrigiu uma grande injustiça. Finalmente os heróis tiveram seu merecido destaque, mesmo com a melancólica conclusão que não é difícil imaginar qual é. A produção foi realizada em meio a uma polêmica em torno das ameaças do governo francês em cortar a pensão dos veteranos de guerra africanos e em meados de 2005 as periferias de Paris foram tomadas por manifestações que explicitavam que estas feridas tão antigas ainda não estavam cicatrizadas. Onde estavam os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade tão propagadas pelo país outrora? O longa só não é excelente porque não oferece personagens franceses com perfis e conflitos bem delineados, o que acaba enfraquecendo a rixa com seus subalternos. Fica a impressão que em alguns momentos os indígenas brigam apenas por objetivos individuais, não pelo respeito e valorização do grupo.

Drama - 120 min - 2006

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