segunda-feira, 6 de outubro de 2014

DOLLS

NOTA 9,0

Drama japonês violenta
espectador com histórias que
machucam psicologicamente, mas
oferece afago com seu belo visual
Filme japonês com quase duas horas de duração para narrar três histórias a respeito do amor e fatalidades com direito a longos momentos de silêncio para refletir sobre a dor dos sentimentos. Alguém se habilita? Embora aborde uma temática universal, realmente Dolls é para um público muito restrito. Mesmo aqueles que apreciam obras alternativas podem neste caso se espantar com a crueldade que o diretor Takeshi Kitano trata seus personagens, ironicamente ele um ex-comediante lançando um olhar amargo sobre os relacionamentos. Tingindo cada cena com exuberantes cores, o longa é bastante poético e com um visual arrebatador, porém, suas tramas são dotadas de violência, não física e tampouco explícita, mas sim decorrentes de amores não correspondidos, escolhas erradas e do próprio destino que vitima os personagens. O roteiro, também criado pelo cineasta, narra histórias inspiradas no teatro Bunraku, uma forma clássica do teatro japonês. Trata-se de peças nas quais fantoches são manipulados por pessoas ao fundo trajando roupas negras e, embora ainda possam ser visualizadas, o efeito acaba atraindo a atenção do espectador para a ação que está sendo desenvolvida diante dos holofotes. A introdução dedica-se a apresentar esta tradição, mas logo o drama representado pelos bonecos é transportado para a realidade e passamos a acompanhar a história de Matsumoto (Hidetoshi Nishijima), um jovem e ambicioso executivo que rompe subitamente seu noivado com Sawako (Miho Kanno), tudo para poder se casar com a filha do seu chefe. Após tentar suicídio, a garota perde a razão e a memória, assim seu ex passa a se sentir culpado e renuncia a tudo para passar o resto da sua vida ao lado mulher que realmente ama, mesmo sabendo que as coisas não serão fáceis. Ligados por uma corda amarrada em suas cinturas, o casal passa a vagar a pé e sem rumo como se fossem mendigos e durante essas andanças vão surgindo as tramas paralelas. Hiro (Tatsuya Mihashi) é um veterano da máfia que agora está doente e relembra sua trajetória avaliando seus erros e escolhas. Ele se recorda de Ryoko (Chieko Matsubara), a namorada que prometeu esperar-lhe todos os sábados em um determinado local, mas ele só voltaria quando tivesse condições financeiras melhores, todavia, jamais cumpriu sua palavra.

A terceira trama (que deve dar um susto nos distraídos por começar com uma música alta e agitada em contraponto a calmaria que até então predominava) nos apresenta à Haruna Yamaguchi (Kyôko Fukada), uma badalada estrela da música pop que após um grave acidente acaba ficando com o rosto desfigurado e passa a viver reclusa e olhando para o horizonte sem objetivos. Contudo, Nukui (Tsutomu Takeshige), um fã completamente apaixonado, não aceita seu ostracismo e fará qualquer coisa para chegar perto dela. Desde o início a obra mostra-se cheia de simbolismos e conforme a narrativa avança percebemos que o objetivo é nos incentivar a prestarmos atenção aos detalhes mais simples do dia-a-dia, o que implica em uma apreciação apurada do visual da produção. É muito interessante, por exemplo, perceber que o casal principal acaba adquirindo características semelhantes a dos bonecos do teatro. Embora Matsumoto esteja guiando a amada durante a longa jornada sem destino, ele próprio parece não possuir vontade própria e ser guiado por alguma força oculta. Não seria errado comparar sua odisseia a uma espécie de penitência pelo seu egoísmo que praticamente destruiu uma vida, tanto é que eles não trocam uma palavra sequer e raramente se tocam ou se encaram. É claro que como fio condutor o drama de Saweko e seu noivo arrependido acaba tendo maior destaque, mas as histórias secundárias complementam o enredo pela combinação de elementos parecidos, tudo para ajudar a enfatizar os temas abordados. Os três ganchos narrativos têm em comum o fato de falarem de um amor não correspondido e sobre o sacrifício de uma pessoa mesmo com a indiferença da outra. As personagens também possuem semelhanças. Além de estarem vivenciando situações infelizes e parecerem querer voltar no tempo para resgatar emoções ou corrigir erros, todas têm seus momentos de loucura, uma forma de extravar sentimentos reprimidos, ainda mais pela solidão que os rodeia. A cantora optou por viver isolada, seu fã tem sua música praticamente como única companhia, o mafioso mesmo rodeado de empregados sente-se sozinho, assim como deve se sentir sua antiga e iludida namorada. Por fim, de Matsumoto e Saweko não se pode considerar nem mesmo uma união física, cada um está em uma conexão diferente ainda que ambos se sentindo deslocados no mundo. Seus corpos simplesmente vagam em direção a um isolamento cada vez maior.

Como estamos acostumados com as narrativa-mosaico típicas de produções hollywoodianas, podemos estranhar a montagem adotado por Kitano. Ele não retalha as tramas e as encaixa de forma que o espectador monte um quebra-cabeça em sua mente, simplesmente introduz as histórias de Hiro e Haruna à medida que desenvolve o conflito do casal principal, todavia, recorre aos flashbacks em todos os casos para mostrar os eventos que levaram os personagens até suas situações atuais. Apesar de todo apuro na construção do roteiro e o evidente deslumbre visual característico do cinema japonês, é possível que até os mais intelectuais não se envolvam totalmente com o filme em um primeiro momento, mas ainda assim fique aquela sensação de que o filme tem mais a oferecer do que belas imagens. O distanciamento pode ocorrer principalmente por causa da ausência de diálogos entre o casal central. Eles conversam nas recordações, mas o silêncio impera no momento atual, mesmo porque a situação impede uma interação maior, mas kitano dispensa os manjados recursos de narração em off para explicar fatos ou apresentar pensamentos limitando sua câmera a agir como um personagem voyeur. Dessa forma, as emoções não chegam mastigadinhas ao espectador e isso ajuda a estimulá-lo a participar da trama como um observador onipresente. É por isso que Dolls é pautado sob um ritmo extremamente lento. É preciso um tempo extra para se admirar o conjunto, até porque em uma primeira exibição o que salta aos olhos é o apuro técnico da obra. Diretor de filmes marcantes no circuito alternativo, como Hana-Bi – Fogos de Artifício e Zatoichi, Kitano consegue aqui seu clímax (até então) quanto a preocupações estéticas. Cada cena parece talhada com o intuito de ser fixada na memória de quem vê como se fosse uma pintura e o uso de cores fortes e vibrantes fazem um interessante contraponto à melancolia do texto, ideia seguida também na escolha dos figurinos. A paleta de tintas e adereços também tem seus significados implícitos como, por exemplo, a corda vermelha que une os protagonistas, uma possível alusão ao cordão umbilical do filho que poderiam ter tido se não houvesse a separação ou um sinal do trágico final que inerentemente os espera. Analisar cada ponto positivo desta obra ou os que podem não ser bem compreendidos mereceria um estudo de páginas e mais páginas, mas o essencial é ter conhecimento de sua angustiante violência psicológica escondida por trás da beleza estética, o que o torna um programa para poucos. Reiterando a proposta, o silêncio desprezado ou achincalhado por alguns, na verdade deve ser interpretado como algo perturbador. 

Drama - 114 min - 2002 

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