quarta-feira, 8 de outubro de 2014

FOGO SAGRADO

NOTA 6,0

Inicialmente anunciando uma
extravagante comédia com pegada
intelectual, a certa altura o drama
psicológico e o tédio reinam absolutos
Quando um diretor, roteirista ou ator realiza um bom trabalho é comum que chovam novas oportunidades ou os mesmos se sintam desafiados a realizar algo no mínimo no mesmo patamar, mas não pode demorar muito para a fama não esfriar. A diretora Jane Campion é uma exceção. Mais preocupada com qualidade do que quantidade, ela não se deixou deslumbrar pelo sucesso de O Piano que lhe rendeu um Oscar pelo roteiro e a indicação de melhor direção, sendo a segunda mulher na História da premiação a ser lembrada em tal categoria. Com apenas um único filme intermediário, o mal avaliado Retrato de Uma Mulher, esta neozelandesa radicada na Austrália voltou a ter seu nome iluminado por holofotes, ainda que contando com bem menos refletores que outrora, com o lançamento do drama Fogo Sagrado. Além de carregar o peso da assinatura da cineasta, o longa também trazia Kate Winslet ainda colhendo frutos de Titanic, mas aqui com uma interpretação bem diferenciada, uma obsessão que passou a permear a carreira da atriz que sabiamente não quis se tornar um sinônimo de cifrão para Hollywood. Entre uma ou outra produção comercial, ela está sempre engajada em projetos independentes ou que visam conteúdo, assim não é a toa que se tornou uma figurinha carimbada das premiações. Todavia, sua interpretação como Ruth Barron foi praticamente ignorada pela crítica assim como o longa que investe em uma temática psicodramática adornada por misticismo. A protagonista é uma jovem que mora com os pais e os irmãos em um pequeno vilarejo australiano, mas considera que sua vida é incompleta, mais especificamente ela não se sente parte da cultura interiorana. Dessa forma, ela decide viajar para a Índia para realizar um retiro espiritual e expandir seus conhecimentos, porém, acaba aficionada pelos hábitos e crenças locais e se integra à legião de seguidores de um guru religioso conhecido como Chidaatma Baba (Dhritiman Chatterjee). Logo ela está vestindo sáris, o traje típico das mulheres indianas, adota o nome Nazni e passa a sonhar com seu casamento com o tal mentor que já acumula um punhado de companheiras. Gilbert (Tim Robertson) e Mirian (Julie Hamilton), seus pais, mal a reconhecem por fotografias e se preocupam com os relatos de uma amiga que acompanhava a garota na viagem.

Ao perceberem que estavam prestes a perder a filha não para um homem e sim para uma seita da qual não sabiam bulhufas, os pais resolvem contratar os serviços de um famoso conselheiro espiritual norte-americano, P. J. Waters (Harvey Keitel), especialista em resgatar pessoas à normalidade após lavagens cerebrais de cunho religioso. Assim, Miriam vai até a Índia buscar Ruth na marra para submetê-la ao tratamento, mas isso não é uma tarefa fácil. A moça afirma que algo indescritível aconteceu na viagem e pede para a mãe conhecer o tal guru para ter a mesma sensação de paz e sanar qualquer tipo de insegurança. Embora pareça um tanto amalucada, a jovem tem consciência de que a tão desejada união é apenas espiritual, mas o fato de se sentir protegida por alguém de alma elevada é o bastante para sua felicidade. Outro sinal de que ainda tem um pouco de juízo é que ela acaba aceitando voltar com a mãe quando é enganada a respeito do estado de saúde do pai acreditando que ele está à beira da morte. Ao descobrir a farsa ela se irrita e decide voltar imediatamente para a Índia, mas é forçada pelos familiares a ir ao encontro de Waters que a espera em uma cabana isolada da qual será liberada após três dias. Para convencê-la ele promete que depois ela poderá viajar, mas para a família assume o compromisso de devolvê-la em absoluto estado de normalidade. O tratamento de choque tem a finalidade de isolá-la do mundo exterior e assim o conselheiro conseguir a sua confiança e respeito a ponto dela naturalmente se livrar dos pertences e lembranças que a ligam ao guru. Entretanto, no segundo dia ocorre uma inversão de poderes e a mocinha ingênua revela-se inteligente e persuasiva. Mesmo tendo idade para ser seu pai, ela seduz Waters que se vê completamente apaixonado e manipulado pela jovem a ponto de realizar suas bizarras vontades que no fundo soam como humilhações. Até o momento em que está tentando fazê-la esquecer de suas convicções recém-adquiridas o longa é razoavelmente interessante, mas depois que os protagonistas acabam se entregando ao sexo a trama escrita pela diretora em parceria com sua irmã Anna Campion ruma ladeira abaixo. O filme fica chato, preso a diálogos filosóficos e culmina em um final desinteressante. Até os personagens secundários, todos com alguma característica distorcida, porém, sem desenvolvimento, acabam surgindo vez ou outra apenas para encher linguiça. Salva-se como boa lembrança o visual da fita no qual tons alaranjados e ocres predominam e parecem ressaltar a aridez que no fundo permeia uma trama que começa tingida de cores carnavalescas. As aparências enganam, assim como o mote principal.

Começando com ares de comédia alternativa, desbancando para o drama existencialista e retornando ao humor para a conclusão, parece que Jane tinha uma boa proposta, mas não soube escolher os rumos para trabalhá-la. Mais uma vez optou por retratar o universo feminino, mas diferentemente de O Piano ela deixa de lado questões a respeito da repressão sexual do passado para investir na discussão da posição de poder e prazer desfrutada pela mulher contemporânea. O filme é de 1999, ou seja, a liberdade almejada, ou melhor, agora defendida pela protagonista sintetiza a trajetória do sexo feminino que ao longo do século 20 (falando assim parece uma coisa tão antiga) lutou por direitos e respeito. Todavia, essa questão pode passar despercebida, assim como a crítica à alienação a qual é submetida fanáticos religiosos. O que fica mais latente ao longo das duas horas de duração, que, diga-se de passagem, poderiam ter uns trinta minutos enxugados na edição, é a questão da sexualidade e do prazer atrelado à dor. A tensão psicológica entre os personagens cresce em virtude de suas ações, mas a ambientação desértica colabora para que percam a noção e vivam experiências únicas, porém, para o conselheiro tão seguro de si o episódio trará consequências bem mais perturbadoras. Ele aparenta ter total controle sobre suas emoções e com seu equilíbrio acredita ser o dono da verdade, contudo, cada missão é um desafio diferente e não há como negar que aceitou “desprogramar” Ruth motivado pela atração por sua beleza e jovialidade. Aos poucos é estabelecida uma relação de agressividade versus submissão que desmascara Waters, que revela-se suscetível a sentimentos. Há uma inversão de expectativas quanto a quem realmente precisa de ajuda, mas nem Ruth consegue se manter como dominadora ininterruptamente e também tem seus momentos de ceder à pressões. Boa parte do tempo claustrofóbico por se prender praticamente a um mesmo cenário e pelos diálogos psicologicamente tensos, Fogo Sagrado não tem um conteúdo de fácil assimilação, o que pode justificar o fracasso da obra. Todavia, não se pode negar as grandes interpretações de Winslet e Keitel que se entregam de corpo e alma às suas personagens rendendo cenas marcantes como a que Waters é obrigado a se vestir de mulher para agradar a paciente ou quando ela caminha pelo campo deserto que rodeia a cabana totalmente nua e urina sem pudor algum. É até estranho que a produção não tenha caído nas graças do circuito alternativo e passou despercebida, hoje sendo uma raridade encontrar.

Drama - 114 min - 1999 

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Um comentário:

Gilberto Carlos disse...

Assisti o filme há algum tempo e gostei bastante. Kate Winslet dá um show e ainda protagoniza cenas bem ousadas.

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