quinta-feira, 30 de outubro de 2014

MONTADO NA BALA

NOTA 5,5

Baseado em conto de Stephen
King, longa tem argumento
interessante, mas seu desenvolvimento
confuso deixa a desejar quanto a tensão
O negativismo atrai coisas ruins e é isso que aprenderá o protagonista de Montado na Bala em uma única e bizarra noite que lhe obrigará a dar mais valor à vida. Baseada no conto “Riding the Bullet” do cultuado escritor norte-americano Stephen King, a narrativa é entrecortada por devaneios de Alan Parker (Jonathan Jackson), um estudante de artes que por vezes desenha figuras sinistras, algo que lembra o espectro da Morte como popularmente conhecemos. A fixação pela temática é tanta que ele chega até mesmo a sonhar com seu próprio funeral, mas as coisas pioram quando é abandonado pela namorada Jessica (Erika Christensen) bem no dia de seu aniversário. Estamos em 1969 e às vésperas do sugestivo Dia das Bruxas, data na qual muitos acreditam que as portas do além se abrem e permitem a comunicação entre vivos e mortos. Como a maior parte dos artistas, Parker se sente diferente dos outros, um excluído que encontra conforto apenas com sua garota, mas agora que tinha perdido seu porto seguro qual sentido teria sua vida? Deprimido, o rapaz tenta se matar cortando os pulsos com uma lâmina de barbear e para sua surpresa tem uma visão do além que acredita ser a própria Morte que veio lhe buscar. Todavia, tudo não passava de uma brincadeira de seus amigos, inclusive o rompimento com Jessica, mas na hora do susto Parker realmente acaba se ferindo e indo parar no hospital. A introdução é digna de filme de quinta categoria, mas o restante do longa melhora razoavelmente. Recuperado como em um passe de mágica, Parker se anima ao ganhar de sua amada ingressos para um esperado show de rock em Toronto, no Canadá, e como ela não poderia acompanhá-lo deu passe livre para ele convidar dois amigos. Boazinha ela não? Contudo, a viagem mela quando ele recebe um telefonema avisando que sua mãe Jean (Barbara Hershey) acabara de sofrer um derrame, o que o obriga a mudar os planos e seguir para a cidade de Lewiston. O início da viagem o faz relembrar a infância, os momentos tristes que sua mãe viveu e a perda precoce de seu pai, porém, sua noite será repleta de tensão e momentos estranhos.

Nos anos 60 era muito comum que andarilhos conseguissem caronas nas estradas, apesar dos riscos serem os mesmos de hoje em dia tanto para quem pede quanto para quem oferece tal ajuda. Se ficou popular o termo de a morte pede carona, neste caso há uma inversão e a morte é quem oferece uma mãozinha. Além de ter alucinações com o espírito do seu pai Julian (Barry Levy), Parker viaja na companhia de um falso hippie e no carro de um velho esquisitão, testemunha um acidente e é perseguido em um ferro velho por uma dupla de viajantes embriagados, mas o pior ainda estava por vir. Quando pega carona com George Staub (David Arquette), o rapaz acredita que finalmente encontrou alguém normal, mas não demora muito para descobrir que após sobreviver a alguns atentados agora está diante de uma entidade do além que não está para brincadeiras. Exposto aos seus temores mais íntimos, o jovem terá que revisitar a Bala, uma montanha-russa que o amedrontou durante toda a infância e que ainda povoa seus pesadelos. Dotada de certo poder sobrenatural, é nela que está a chave para ele escapar com vida das garras de Staub, ou melhor, tentar salvar a si mesmo e também sua mãe, já que a entidade é enfática ao dizer que ao menos uma destas almas precisará levar nesta noite. O diretor e roteirista Mick Garris, que já havia trabalhado com material de King pelo menos em outras cinco produções, tem até certa boa vontade em estabelecer alguma ordem no amontoado de cenas esquisitas, mas infelizmente o resultado é mais um trabalho do mestre do suspense ganhando uma adaptação mediana. O escritor redigiu o conto original como um passatempo durante o período em que estava se recuperando de um atropelamento sofrido em 1999, mas mais tarde o incorporou à coletânea “Tudo é Eventual” que foi comercializada exclusivamente pela internet através do formato de e-book. Logo que o texto foi publicado na rede, sua legião de fãs congestionou o acesso ao site que chegou até a ficar fora do ar devido a uma pane (estima-se que 400 mil leitores em todo o mundo fizeram o download do arquivo em menos de 24 horas), sinal suficiente para indicar que o material tinha potencial para ganhar as telonas, porém, a maior parte dos países recebeu o longa diretamente para curtir na telinha de casa.

Como você avalia um filme? Leva em consideração atuações, direção, ambientação, aspectos técnicos ou simplesmente rotula como bom ou ruim de acordo com o nível de entretenimento que ele lhe proporciona? As produções estão se repetindo tanto que o quesito originalidade está praticamente extinto, mas é justamente ele que faz Montado na Bala não ser um completo desperdício. Do começo ao fim é uma obra esquisita, cheia de altos e baixos e que parece não saber se deseja sugestionar o medo ou explicitá-lo com trucagens leves, mas embora pareça um projeto experimental do diretor para testar formatos e ideias, a essência do conto original fora preservada. Insanidade é a palavra de ordem. Em diversos momentos, por exemplo, Parker consegue conversar com sua própria consciência que aparece em cena como se fosse um personagem de carne e osso, o que pode confundir espectadores mais desatentos. É essa voz do subconsciente que ajuda o jovem a se esquivar de uma morte precoce alertando-o sobre as armadilhas implícitas nas conversas dos caroneiros. Apesar da duração enxuta, é certo que alguns momentos poderiam ter sido suprimidos na edição como um desnecessário ataque de um lobo ao protagonista e o momento em que ele chega a um cemitério e nada demais acontece. Por outro lado, Garris tem algumas boas sacadas como nos diálogos entre Parker e Staub, ágeis e repletos de pegadinhas, e merece destaque a sequência em que o fantasma resume seu passado e suas razões para voltar todos os anos em uma mesmo data para levar almas, explicações apresentadas no formato de trailer de cinema. De forma irregular a narrativa vai segurando a atenção do espectador, mas é uma pena que bem no clímax o diretor não saiba trabalhar a tensão. Sob pressão, Parker acaba decidindo pela morte de sua mãe, mas se arrepende e corre contra o tempo para chegar antes de Staub ao hospital, no entanto, os momentos finais não são angustiantes. Com o discurso em estilo autoajuda do encerramento fica uma sensação de frustração, que o argumento poderia render algo bem mais impactante e reflexivo sem forçar a barra com um sentimentalismo barato. Garris perdeu a chance de transformar uma premissa banal em algo no mínimo acima da média para o gênero, afinal quem nunca parou para refletir sobre o direito de interromper uma vida ou prolongá-la? Parker poderia ter brincado de Deus, mas no final das contas participou do jogo como um cordeirinho assustado.

Suspense - 98 min - 2004 - Dê sua opinião abaixo.

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