sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O ORFANATO

NOTA 8,5

Suspense espanhol surpreende

com narrativa que busca fugir
do lugar comum evitando sustos
fáceis e apostando no horror psicológico
O mínimo que se espera de uma fita de suspense com pegada sobrenatural é levar alguns bons sustos e houve um tempo em que Hollywood era referência no assunto, porém, com o passar do tempo, se perdendo em meio a inúmeros clichês ou incapacidade de inovar, a Meca do cinema viu uma luz no fim do túnel para o gênero recorrendo a refilmagens de longas de horror orientais como O Chamado e O Grito. Não demorou muito e a turminha de olhinhos puxados reivindicou seu espaço no mercado internacional e o resultado foi a saturação da fórmula das almas penadas que buscam vingança ou clamam por justiça. Chegou então a vez do cinema latino literalmente assustar a concorrência, ainda que de forma tímida se compararmos com a febre que foi a época dos poltergeists asiáticos. O longa espanhol O Orfanato até foi apontado por alguns críticos como um marco, uma produção capaz de apontar novas diretrizes para os gêneros de terror e suspense. O tempo passou e provou que o entusiasmo era apenas fogo de palha, embora a qualidade da produção ainda coloque a obra em posição de destaque. O roteiro de Sergio G. Sánchez nos apresenta à Laura (Belén Rueda), uma mulher que retorna com sua família ao orfanato onde passou parte de sua infância com a intenção de transformar o casarão em um abrigo para crianças com necessidades especiais. Como jamais retornou para rever seus colegas, sua volta ao local soa como uma espécie de dívida de gratidão. A mudança acaba despertando a imaginação de Simón (Roger Príncep), o pequeno filho adotivo de Laura, que começa a falar sobre amigos imaginários, mais precisamente seis crianças cujos nomes remetem a alguns dos antigos internos, o que deixa a proprietária do casarão inquieta.

Tudo piora quando o garoto desaparece durante a festa de reinauguração do orfanato. A partir de então, a mãe desesperada e Carlos (Fernando Cayo), seu marido, passam a procurar Simón por todos os cantos da casa, uma busca incessante que se arrasta por meses e calcada na suspeita de que os tais amigos imaginários realmente existem e o esconderam em algum lugar. Como desgraça pouca é bobagem, o menino é soropositivo e precisa tomar remédios controlados, diga-se de passagem, uma informação que não é bem trabalhada ao longo da trama. Nesse meio tempo vários acontecimentos estranhos passam a ocorrer, levando o casal até então cético a buscar a ajuda de parapsicólogos (o ator Edgar Vivar, o Sr. Barriga do seriado “Chaves”, participa como um desses auxiliares). A investigação do passado da residência os leva a descobrir fatos intrigantes envolvendo um dos menores que lá residiu. Aliás, a aparição de tal criança com uma espécie de saco de pano cobrindo seu rosto desfigurado é um dos pontos altos do filme, tanto quando sua imagem é revelada em um antigo vídeo caseiro quanto no momento em que Pilar se depara com seu possível espírito. Acreditando nesta hipótese sobrenatural, o casal busca ajuda no espiritismo através da médium Aurora (Geraldine Chaplin) que visita o casarão e suas apavorantes reações são captadas através de monitores que mostram em tempo real seu contato com as almas perturbadas que habitam o local. Diferentemente do estilo hollywoodiano, os mistérios são desenvolvidos sem pressa, as revelações surgem através de jogos propostos pelos tais espíritos infantis e Pilar, por ter ligações afetivas com o local, parece ter sido escolhida a dedo para remexer em amargas lembranças. Como em um suspense à moda antiga, os momentos de tensão são bem dosados e a atmosfera construída ajuda a deixar o espectador em constante estado de alerta, afinal a qualquer momento algo de inesperado pode acontecer.

O diretor Juan Antonio Bayona na época fazia seu debut no cinema com o pé direito conseguindo criar sequências e imagens de dar inveja a muitos cineastas americanos. Como exemplo de seu traquejo temos a já citada passagem da visita da paranormal. Seria muito fácil assustar ou ironicamente constranger o espectador colocando em cena espectros materializados, mas o diretor opta por não registrar as visões da médium e sim manter o foco em suas perturbadoras reações. Mesmo com a tecnologia de câmeras que seguem cada passo dela, não conseguimos enxergar nada de mais nas imagens, mas é quase possível imaginar o que ela vê tamanho o realismo da sequência. Todavia, analisando com mais rigor, Bayona é engenhoso e faz de um trabalho repleto de clichês algo chamativo graças a seu apuro quanto aos aspectos técnicos. Da criança que vê fantasmas e desenha figuras macabras, passando por balanços de jardim que se mexem sozinhos ou portas que se abrem e fecham sem mais nem menos, o arrojo visual faz toda a diferença, afinal o importante aqui é criar um clima propício para envolver o espectador a ponto de ele sentir constantes calafrios. Mesmo sendo antecipáveis, o cineasta consegue oferecer sustos de qualidade com a ajuda da direção de arte, fotografia e iluminação que privilegiam o sóbrio. Visualmente e pelas semelhanças narrativas, não é exagero dizer que a obra lembra muito o excelente Os Outros, mas nem por isso deixa de ter sua própria identidade, a começar pelo fato de ser falado em espanhol e com rostos pouco conhecidos, o que não chegou a ser um entrave para a sua carreira internacional. O abre-alas para a boa aceitação atende pelo nome de Guillermo Del Toro, o diretor mexicano do premiado O Labirinto do Fauno. Atuando como produtor, sua alcunha na publicidade do filme foi o bastante para chamar a atenção e com uma mixaria de dinheiro de certa forma ele conseguiu imprimir seu estilo na obra. Além do casamento de horror e fábula, o diretor evoca um de seus primeiros trabalhos, o esquecido A Espinha do Diabo, ao contar uma nova história envolvendo um abrigo de crianças assombrado. Porém, O Orfanato acerta ao se preocupar mais em enfatizar o terror psicológico da mãe, assim permitindo que sua intérprete demonstre todo seu talento praticamente carregando o filme nas costas. Ela consegue compor uma personagem atípica para o gênero, uma mulher que não desperta simpatia, mas ainda assim nos convence a partilhar de seu drama e a torcer por um final positivo. Será que ele existe?

Suspense - 95 min - 2007 

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2 comentários:

diego disse...

Achei um baita filme, inclusive está na lista dos 100 melhores da década que eu fiz no meu blog...

mas quando eu assisti não reconheci o seu Barriga, por mim passou despercebido, vou de novo pra vê se noto dessa vez! rsrs

Rafael W. disse...

Também adoro, grande suspense.

http://cinelupinha.blogspot.com/

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