terça-feira, 28 de outubro de 2014

O PROCURADO

NOTA 6,0

Para quem leva a sério o papo de
imagem é tudo este longa de ação é
um prato cheio, entretém visualmente
como poucos, mas entedia com trama tola
Há anos os filmes de ação são garantia de lucros, mas com o tempo os velhos clichês das perseguições de mocinhos a bandidos precisaram ganhar certa sofisticação. Além de narrativas mais complexas, os avanços dos efeitos especiais também serviram para manter o gênero entre os mais rentáveis. A combinação é ainda mais bombástica quando é possível se reunir um elenco de astros e a história ser baseada em algum material prévio, como quadrinhos ou livros. A combinação de todos estes elementos acabou resultando no sucesso de O Procurado, ficção que aborda uma sociedade secreta que a mais de um século assassina em prol de um bem maior caçando pessoas que caso continuassem vivas estariam ligadas a acontecimentos que fariam do mundo um lugar pior. O roteiro de Michael Brandt, Derek Haas e Chris Morgan é baseado na HQ “Wanted” criada por Mark Millar e J. G. Jones cujo argumento já foi adaptado para o cinema diversas vezes de forma não-oficial. Quem nunca assistiu a um filme protagonizado por um Zé ninguém que de uma hora para a outra é transformado em herói ou descobre ser peça fundamental de algum esquema secreto? Wesley Gibson (James McAvoy) é um jovem que aos vinte e poucos anos sente-se um fracassado em todos os sentidos. Não gosta de seu trabalho em uma empresa de contabilidade, é constantemente humilhado por sua supervisora Janice (Lorna Scott) e ainda se faz de cego ao fato de seu melhor amigo Barry (Chris Pratt) fugir do trabalho diversas vezes para ir dar uma rapidinha com sua namorada Cathy (Kristen Hager). Contudo, ele não tem forças ou coragem para dar um basta em tudo isso e simplesmente se acostumou com sua rotina pacata e frustrante, porém, tudo muda completamente quando é recrutado para fazer parte de um impiedoso grupo de assassinos e assim ocupar o lugar que era ocupado por seu pai antes de morrer, mas obviamente ele não sabia bulhufas sobre este passado obscuro.  Ele conhece a bela e enigmática Fox (Angelina Jolie) quando ela o salva de ser assassinado por Cross (Thomas Kretschmann), que tudo indica que foi o responsável pela morte de seu pai, Pekwarsky (Terrence Stamp). Todos eles têm ligações com uma fraternidade de assassinos fundada por um grupo de tecelões que cumprem as profecias que visualizam em um tear.

Sob o comando de Sloan (Morgan Freeman), Wesley é convencido a juntar-se ao grupo e desenvolver as habilidades que possivelmente herdou do pai, a chance que o rapaz esperava para mudar de vida e sentir-se útil eliminando Cross que vivo só continuaria trazendo mal ao mundo. Ele não era predestinado a ser um zero à esquerda, mas pelo fato de não ter conhecido seu pai acabou como um estranho no universo que habitava e em sua criação não foi incentivado a ser alguém de destaque. Contudo, não espere discussões profundas de cunho existencial. Como já dito, o argumento do cara desprezado que de uma hora para a outra passa a ser respeitado e/ou idolatrado já foi tão explorado no cinema que o diretor Timur Bekmambetov nem pensou em explorá-lo ligeiramente. O protagonista simplesmente se transforma da água para o vinho sem nenhum tipo de desconforto e quem estava acostumado com seu jeito palerma de ser agora tem que engolir na marra seu perfil marrento. Isso se deve ao fato que o filme indiscutivelmente visava apenas lucros e a ordem era manter a adrenalina nas alturas, o bastante para encher os cinemas e garantir vida útil ao título em mídia doméstica. Não é a toa que os roteiristas são os mesmos de alguns títulos da franquia Velozes ou Furiosos, ou seja, especializados em ludibriar o público com cenas impactantes, dotadas de velocidade e conteúdo nulo, mas neste caso ainda eles tiveram a boa vontade de tentar dar um passo a frente, ainda que recorrendo a recursos manjados. Por diversas vezes o protagonista “conversa” com o espectador através de narração em off ou olhando diretamente para a câmera como na cena final em que deixa uma pergunta para o espectador refletir (inclusive soa como uma irritante provocação deflagrada pela sensação de superioridade que adquire), um recurso perigoso visto que boa parte do público deste longa não deve compreender com perfeição o enredo e acreditar que para ser alguém na vida é preciso sair por aí violentando ou matando desafetos. Não seria errado dizer que a construção da personalidade de Wesley traz resquícios de Peter Parker que se transforma no Homem-Aranha, mas ao contrário do herói aracnídeo o assassino do bem não é tão carismático e toda sua lenga-lenga de ser feito de gato e sapato pelos outros não causa comoção alguma. Todavia, McAvoy, na época em alta por elogiados trabalhos como Desejo e Reparação e O Último Rei da Escócia, surpreendentemente consegue convencer mesmo com sua cara de bom moço que não teria coragem para matar uma mosca. Ele aperta o gatilho sem dó e nem piedade.

A falta de empatia com o protagonista e com os demais personagens é um problema narrativo, mas também pode ser visto como uma qualidade por muitos. Como a preocupação é realmente entreter, a trama não perde tempo desenvolvendo personalidades e apenas apresenta o mínimo necessário para entender os rumos que a vida de Wesley tomará e sobre o universo em que ingressará. Para quem gosta de ação, porém, com um texto mais apurado, realmente esta não é a melhor opção. Agora para quem preza imagens sensacionais, cortes de imagens frenéticos e muito barulho seja bem-vindo ao mundo de O Procurado que pode não ter chegado a fazer o barulho de Matrix, mas visualmente praticamente propõe uma nova revolução no uso dos aparatos tecnológicos. O tempo todo o longa desafia as regras da física e abusa das perseguições impossíveis, dos carros que conseguem fazer manobras mirabolantes em alta velocidade e até acompanha as balas de pistolas que conseguem traçar trajetos curvilíneos para não errar os alvos. Contudo, informações sobre a HQ (praticamente desconhecida em boa parte do mundo) indicam que fora a premissa o filme praticamente reescreve a trama original que na realidade seria uma provocação ao universo dos super-heróis convencionais, diga-se de passagem, bem mais rentáveis e de fama que os personagens dos quadrinhos classificados como próprios para adultos. Visando atingir um público maior, optou-se por simplificar a trama deixando em cena os tipos mais próximos da realidade, embora o visual esteja sempre nos puxando para uma espécie de realidade paralela onde tudo é possível. Esteticamente o resultado final é semelhante ao de um moderno videogame, valendo um puxão de orelha pelo excesso de cortes que causam vertigens ao espectador. Por outro lado, pergunte a qualquer um que já tenha assistido a esta produção e possivelmente o resumo será o mesmo: “é o filme daquele carinha que mata a torto e a direito, que as cabeças estouram e os tiros fazem curvas, mó da hora!”. Sim, é essa pífia lembrança que o longa deixa e já esperando isso parece que Bekmambetov usou todos os recursos que podia para impactar o público com imagens, mas repetiu ou até mesmo extrapolou os erros que já havia cometido em seus trabalhos anteriores, as fitas russas de ficção Guardiões da Noite e Guardiões do Dia. Ah, e claro que também fica na memória a imagem da bela Jolie fazendo caras e bocas e literalmente vestida para matar. Pena que na época já estava em um estágio da carreira em que o próprio público cobrava mais de seu talento e também para justificar sua fortuna.

Ação - 110 min - 2008 

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3 – 4 Regular, serve para passar o tempo
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