quinta-feira, 23 de outubro de 2014

OBSESSÃO (2005)

NOTA 6,0

Drama sintetiza os problemas de
uma mãe possessiva, mas tema é
muito amplo e complexo para pouco
tempo de filme e pretensões do diretor

A palavra obsessão e seus derivados já são tão comumente usados para intitular filmes no Brasil que ela por si só já não causa mais impacto. Geralmente ela é associada a um subgênero do suspense, aquelas historinhas meia-boca sobre relacionamentos rápidos tipo chefe e secretária, mas que para ela é uma paixão para todo o sempre e assim passa a infernizar a vida do amante. Tal conotação talvez tenha ajudado a fazer sumir no horizonte um filme que já não tinha lá grandes chances de conquistar público no Brasil, porém, uma obra com boas intenções e conteúdo. Obsessão é um modesto drama que aborda uma interessante temática sobre psicologia e que marca a estreia na direção de cinema do ator Kevin Bacon (antes, em 1996, ele havia dirigido um telefilme). Com roteiro de Hannah Shakespeare, baseado no livro “Loverboy” de Victoria Redel, a trama gira em torno de Emily Stoll (Kyra Sedgwick), uma mulher bem sucedida profissionalmente, mas cuja vida pessoal é um tanto vazia. No entanto, ela nunca sonhou em ter um lar tradicional e que dividisse com um marido. Seu único desejo era ter um filho, alguém que a amaria incondicionalmente, e após algumas tentativas frustradas de inseminações artificiais ela tomou coragem e foi tentar realizar seu sonho por caminhos naturais. Após tomar conhecimento em um livro sobre a teoria que uma mulher que conseguisse sair com muitos homens em seu período fértil (entenda levar pra cama) teria grandes chances de gerar uma criança com mais qualidades que as demais, ela literalmente passa a caçar amantes casuais para conseguir apenas alguns minutos de relação, obviamente tentando reparar nesses homens as características que lhe chamavam a atenção e que desejava que seu filho tivesse. Ela consegue engravidar acreditando que absorveu o melhor de cada parceiro para seu bebê, mas na décima semana de gravidez ela sofre um aborto espontâneo. Abalada, eis que ela conhece um homem por acaso e no impulso passa a noite com ele e é justamente dessa recaída que finalmente ela conseguirá ter o seu tão sonhado filho. O homem só revela seu nome ao se despedir, Paul (Campbell Scott), não por acaso o mesmo nome que Emily batiza seu filho. 

Os primeiros minutos de projeção podem não ser lá muito animadores, mas as coisas melhoram consideravelmente quando passamos a acompanhar o cotidiano feliz e repleto de brincadeiras, porém, um tanto doentio de Emily com seu “loverboy”, o filho Paul (Dominic Scott Kay) já com seus 6 anos de idade e detestando o modo como a mãe o chamava (no Brasil ficou “meu neném”). É nessa época que o mundo lúdico e aparentemente impenetrável que essa amável mãe construiu para ela e seu filho mostra sinais de vulnerabilidade. Desde que engravidou, Emily saiu da cidade grande e foi morar numa região mais afastada para evitar comentários e qualquer envolvimento da criança com outras pessoas, porém, não conseguiu fugir totalmente da realidade. Aos poucos, Paul passa a questioná-la sobre quem seria seu pai, por que não frequenta a escola e quais motivos de não poder brincar com outras crianças. Sentindo que a situação está se agravando, a mãe super protetora decide fazer uma viagem ao litoral, mas lá também se sente mal ao ver que o filho prefere a companhia de um novo amigo, o geólogo Mark (Matt Dillon), a ficar com a própria mãe. Sentindo que a relação de Paul com esse homem pode interferir drasticamente no estilo de vida que vinham tendo, Emily volta para casa desesperadamente, mas agora precisa lidar com a vontade de Paul ir à escola, algo que implicaria além da convivência com os colegas também uma possível idolatria a professora, ideias que esta mãe possessiva não tolera. Dá para perceber que Emily teve seu filho exclusivamente para ela, não querendo nem mesmo que o garoto tenha um ensino qualificado não pensando no futuro dele, apenas no presente confortável para ela. As raízes dos problemas de relacionamento dessa mãe com as pessoas em geral são apresentadas em flashbacks. Quando pequena ela não recebeu a atenção que desejava dos pais Marty e Sybill, vividos pelo próprio Bacon em companhia de Marisa Tomei, diga-se de passagem, ambos exagerando nas caricaturas de seus personagens hipongas e super apaixonados, o que compromete significativamente a cadência de emoções da narrativa. 

Aliás, é justamente no desenvolvimento emocional da trama o principal erro de Obsessão cujo tema principal é um campo fértil a ser explorado e com inúmeras possibilidades. Está certo que essa é uma produção independente e claramente não visava lucros gigantescos, o que justifica sua curta duração, mas por contar uma história profundamente centrada no psicológico de Emily esperava-se mais. Tudo acontece muito rápido e os personagens secundários não apresentam todo o potencial dramático que deveriam, assim Bacon desperdiçou muitas participações especiais como a de Sandra Bullock que vive a Sra. Harker, a mãe exemplar que Emily sempre quis na infância. De qualquer forma, o longa no conjunto funciona bem, mostrando de forma compacta o comportamento doentio que muitas mães podem estar tendo com seus filhos sem perceber. Através de situações conflituosas e ligeiras, como a visita surpresa de uma vizinha ou a simulação de uma doença do garoto como desculpa para levá-lo embora da escola mais cedo, é possível criar certa intimidade com a temática e a vontade de se aprofundar no assunto. É bacana viver em um mundo lúdico, mas a realidade não pode ser negada e o futuro deve ser pensado. Tentando corrigir os erros que seus pais cometeram no passado, Emily não se deu conta que estava fazendo pior ainda com Paul escondendo-o do mundo chegando a um ponto extremo que culmina em um final que deve mexer com o emocional de qualquer um. Pena que a essa altura já é tarde demais para rotularmos este drama como algo além de regular, ainda que a economia de Bacon na exploração psicológica da protagonista possa ser vista como algo positivo, um ponto promissor para a carreira de um cineasta que deixa claro que não quer dar um passo maior que a perna. Casado na vida real com Kyra Sedgwick, dizem as más línguas que Bacon fez o filme apenas para dar a oportunidade de sua mulher ter um papel de destaque já que é um nome sem brilho em Hollywood. Ela trabalha direitinho, chegando a irritar com o jeito possessivo de sua personagem, mas não esconde que precisa de mais oportunidades para desenvolver seus dotes artísticos. Uma pena que o tempo passou e o mercado de cinema continuou restrito para ela... Quem sabe até para o próprio Bacon.

Drama - 86 min - 2005 

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