terça-feira, 21 de outubro de 2014

SURPRESA EM DOBRO

NOTA 3,0

Apoiando-se no carisma e fama
de seus protagonistas, comédia é uma
entediante reciclagem de piadas sem
graça que não fazem jus à marca Disney
John Travolta e Robin Williams no passado já foram sinônimos de grandes bilheterias, mas há tempos vivem maus momentos tentando se reciclar ou apostando em produções com fórmulas testadas e aprovadas. Até a velhinha simpática de Uma Babá Quase Perfeita estava prestes a voltar à ativa tardiamente pouco antes do falecimento de seu intérprete, sinal de como as coisas andavam ruins. Em 2009 a Disney, que também há certo tempo almejava um grande sucesso na linha do entretenimento familiar, mas sem recorrer à animação ou histórias de princesas, resolveu juntar os atros na comédia Surpresa em Dobro, porém, os problemas deste trabalho começam pela titulagem. O original é algo como “Cachorros Velhos” e no Brasil quem bateu o martelo final não deve ter visto o longa, afinal não há surpresa alguma, pelo contrário, o roteiro de David Diamond e David Weissman é uma colcha de retalhos com praticamente todas as piadas que já bateram cartão no gênero. Temos o cumprimento oriental que não raramente acaba com batidas de cabeças, remédios que causam efeitos colaterais que constrangem as pessoas, o cinquentão que quer se fazer de mocinho e se dá mal com tatuagens e bronzeamento artificial, as clássicas piadas envolvendo comidas e cuspidas, as competições que sempre acabam mal para quem fica de bobeira e por aí vai. Tirando as flatulências e até alguns momentos de insinuação que os protagonistas formariam um casal gay, parece que todo o arquivo de piadas já usadas pela Disney foi reaproveitado, incluindo a dupla de opostos que se atraem. Charlie (Travolta) é um cara metido a conquistador, brincalhão e que gosta de levar a vida sem estresse, mas mesmo assim é o melhor amigo há mais de trinta anos de Dan (Williams), bem mais responsável e sério. Os dois são sócios em uma agência publicitária e estão prestes a fechar um acordo milionário com uma empresa japonesa, o que poderia colocar seus nomes entre os maiores nomes do marketing esportivo. Justamente neste momento de tanta importância para suas vidas profissionais surge um imprevisto particular. De uma hora para a outra Dan descobre que é pai de um casal de gêmeos, Zach (Conner Rayburn) e Emily (Ella Bleu Travolta), frutos de um rápido e literalmente embriagante flerte realizado na esperança de superar um divórcio. 

Vicky (Kelly Preston), a mãe da tal surpresa em dobro do título nacional, está indo passar umas “férias forçadas” na cadeia por umas duas semanas e não tem mais a quem recorrer para cuidar dos pimpolhos a não ser o pai delas. Dan, mesmo não tendo o menor jeito com crianças, aceita o desafio, mas por tabela até Charlie vai ganhar algumas obrigações extras já que terão que levá-las juntas em uma viagem de negócios. Além disso, a dupla de coroas ainda terá que encarar um passeio no zoológico, bater ponto em um acampamento para escoteiros, participar de tradicionais competições esportivas, enfim, mergulhar de cabeça no universo infantil. Não bastassem as situações clichês, ainda é possível se prever de antemão quais piadas se encaixarão em cada uma delas. Muita confusão vai acontecer neste choque entre gerações, com todas as topadas e escorregadelas possíveis para provocar riso fácil no público alvo, mas desde o início sabemos qual será a mensagem edificante: os sentimentos entre familiares e amigos são as coisas mais importantes da vida. A premissa poderia render bem mais visto que no fundo o que está em jogo são interesses distintos dos protagonistas. Ambos estão focados em fechar um lucrativo contrato de trabalho, no entanto, Charlie visa a ascensão, afinal sendo um magnata ele poderia continuar com sua vida de badalações e múltiplas mulheres. Já Dan é do tipo que não acredita que dinheiro compra felicidade, por isso para ele é mais importante neste momento o contato tardio com os filhos e quem sabe a reaproximação da mãe deles. Haveria um bom conflito a ser desenvolvido que poderia colocar em jogo essa amizade de mais de três décadas, porém, para não fugir do tom do típico filme-família o diretor Walt Becker preferiu simplificar a situação e resumir o argumento a dois caras maduros e descompromissados tendo que se adaptar em tempo recorde à rotina com crianças. O cineasta já havia trabalhado com Travolta no divertido Motoqueiros Selvagens, o que pode tê-lo influenciado a aceitar um papel sem grandes atrativos. O ator parece razoavelmente à vontade na pele de um playboy, mas certamente pesou em sua decisão a oportunidade de trabalhar em família contracenando com a esposa Kelly e a filha Emily, todavia, o lançamento do filme foi adiado por cerca de um ano em respeito ao luto do astro por conta do falecimento de seu filho Jett.

A estreia tardia também aconteceu por causa da morte do comediante Bernie Mac que aqui teve sua derradeira atuação em uma pequena participação e provando que a bruxa estava solta nos bastidores durante as filmagens Williams teve problemas de saúde e precisou ser submetido a uma cirurgia de emergência. Dizem que apesar de ser um ícone da comédia o ator há anos sofria em segredo e talvez aqui já demonstrasse sinais de seu descontentamento com a vida. Embora seja o responsável pelos legítimos momentos engraçados da fita graças as suas gags visuais e, diga-se de passagem, de algumas cenas ligeiramente constrangedoras, não o sentimos totalmente encaixado no personagem. Poderia ser reflexos de problemas pessoais, mas também é inegável que o perfil de Dan lhe cairia muito melhor alguns anos antes, mas no momento das filmagens ele já estava velho para a vaga, assim como Travolta também transmitiria muito mais credibilidade se Charlie constasse em seu currículo uns bons pares de anos mais jovem. A todo instante chamados de avós na trama, o próprio diretor parecia estar ciente da escolha equivocada dos protagonistas cujo único propósito seria depositar em seus nomes a confiança para atrair público a um produto tão frouxo. De qualquer forma, a dupla se esforça para divertir, mas o roteiro pouco ajuda como comprova a desnecessária sequência desenvolvida em um acampamento de escoteiros que somente enche linguiça no filme com piadas previsíveis e sem graça. Quem ainda acha divertido ver alguém se lambuzando de cocô? Ironicamente aquela que poderia ser a melhor piada da fita é reduzida a poucos minutos. O ator Matt Dillon faz uma participação como Barry, o diretor do camping, e graças a inocência de Zach desconfia que Dan e Charlie formam um casal, mas como é um produto Disney o gancho é rapidamente descartado, até porque para manter a dúvida em evidência seria preciso um elenco infantil afiado, mas as crianças no caso não causam empatia alguma com o espectador, estão em cena apenas como desculpa para colocar os protagonistas em maus lençóis. E o tal macacão que estampa a publicidade do filme? Propaganda enganosa! Ele aparece na reta final apenas para colocar o personagem Ralph (Seth Green) para pagar um mico e justificar sua insignificante presença na trama. No frigir dos ovos, Surpresa em Dobro realmente surpreende... Negativamente. Lançado pouco tempo depois do delicioso Encantada, mais uma vez a Disney provou que os lampejos de criatividade estão cada vez mais raros no estúdio. Com exceção das animações, suas produções live-action para toda a família estão longe de marcar época como outrora.

Comédia - 88 min - 2009 

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