quarta-feira, 29 de outubro de 2014

TÁ RINDO DO QUÊ?

NOTA 3,0

União de dois astros da comédia
com diretor e roteirista também
midas do gênero resulta em um
estranho produto sem público certo
Adam Sandler é o cara! Para muitos jovens e defensores dos filmes-pipoca ele é um ídolo e por mais que a maioria de seus trabalhos seja achincalhada e contemplados com prêmios de piores do ano nada parece abalar sua imagem de vitorioso. Seth Rogen não é tão popular como ele, mas também já tem sua turminha de fãs mesmo parecendo estar sempre repetindo personagens em comédias sobre rapazes com síndrome de Peter Pan e levemente pervertidos.  Desbocados e com jeitão descolado, era certo que mais cedo ou mais tarde a dupla iria ser chamada para atuar em um mesmo filme e coube ao diretor e roteirista (e principalmente amigo) Judd Apatow permitir este encontro. Responsável pelo divertido O Virgem de 40 Anos e pelo irregular Ligeiramente Grávidos, ambos com Rogen no elenco, esperava-se muito mais de seu terceiro trabalho, Tá Rindo do Quê?, cujo título original é algo como “Gente Engraçada”. É irônico, mas é justamente personagens divertidos que faltam na produção que para não ser apenas mais uma besteira no mercado busca um equivocado flerte com o drama e extrapola no tempo de duração. Embora assim seja possível desenvolver melhor os perfis dos personagens e o universo em que vivem, a sensação é de que pelo menos uns 30 ou 40 minutos poderiam ter sido cortados. As mais de duas horas engambelam o espectador e não raramente o constrangem com piadas de cunho sexual ou escatológico. Perde-se a conta do número de vezes que os mais variados nomes para órgãos genitais são citados. Quem ainda ri de bobagens do tipo? Contudo, a premissa prometia algo acima da média. George Simmons (Sandler) é um quarentão que construiu uma carreira de sucesso fazendo filmes de comédia de gosto duvidoso, mas que lhe garantiram muito dinheiro e assédio das mulheres. Ele ama o que faz e fica muito feliz com a receptividade do público, porém, seu bom humor é repentinamente abalado quando descobre que está com uma leucemia em estágio avançado e que lhe restaria menos de um ano de vida. Apesar do baque em saber que o tratamento tem chances mínimas de funcionar, ele procura no trabalho uma forma de terapia e decide voltar à casa de espetáculos onde se apresentava no início da carreira com shows de humor stand-up.

Entre a nova geração de humoristas que conhece está o divertido Ira Wright (Rogen), um comediante em ascensão que lhe chama a atenção pelo potencial e logo o convida para trabalhar como uma espécie de secretário particular, mas cuja principal função é lhe ajudar a escrever novas piadas. Por mais extrovertidos e engraçados que fossem a convivência revela algo curioso: ambos não possuem grandes amigos. Contudo, dessa relação com base em admiração e constante troca de experiências nasce uma grande amizade, mas que também terá seus momentos de altos e baixos. Parte dos problemas surgem pela insistência de George em tentar reatar laços com Laura (Leslie Mann), uma antiga paixão que agora é casada com Clarke (Eric Bana) e mãe de duas filhas. É aquela velha história de se agarrar a um objetivo para encontrar forças para seguir em frente, mas nessas e outras não percebemos que além de fazer mal para o próprio desiludido suas ações também podem provocar reações em quem o cerca, no caso valeria a pena destruir uma família para viver uma relação sem futuro? Bem, Apatow não chega a levantar tal questão de forma tão dramática, mas é preciso ressaltar que em sua curta carreira esta obra até então era a mais madura, mesmo com seu ritmo irregular e excessos. Para quem é mais cinéfilo seu nome tem um peso maior porque embora fosse seu terceiro trabalho como diretor ele foi responsável pela produção e roteiro de grandes comédias estadunidenses que marcaram a década de 2000, como Superbad – É Hoje!, mas buscando variar um pouco sem abandonar as raízes acabou sendo mal interpretado. Suas reais intenções era mostrar um pouco dos bastidores da comédia que por vezes em nada lembra a diversão dos espetáculos. Quem nunca ouviu falar que por trás da alegre maquiagem do palhaço se esconde um semblante de tristeza? Para não abandonar o tom de brincadeira, a escolha de Sandler como protagonista revela-se acertada por de certa forma fazer um autorretrato de sua carreira. Ele não sofre de nenhuma doença grave, mas assim como seu personagem seguiu um caminho profissional sinuoso. Para cada acerto do astro parece que umas cinco bombas surgem em seu currículo, mas ainda assim ele é um dos mais queridos e bem pagos atores de Hollywood. Porém, se engana quem acredita que as críticas negativas não o atingem ou que não se ressente da ausência de convites para atuar em gêneros diferentes.

Para estender a discussão a respeito dos bastidores da comédia, paralelamente é desenvolvida a trama de um grupo de comediantes em início de carreira e que estão dispostos a tudo para sobreviver no competitivo mercado de trabalho, até mesmo se sujeitar a atuar em produções de quinta categoria. Pagando bem quem mal tem? As participações de Jonah Hill e Jason Schwartzman, por exemplo, servem para injetar o humor que justifica a classificação de gênero da produção já que Sandler e Rogen estão mais contidos que de costume, mas nem por isso deixam de falar suas habituais palavras chulas. Todavia, o foco está em revelar que quem trabalha para divertir os outros nas horas vagas também tem que se preocupar com saúde, relacionamentos, contas a pagar, seja ele um desconhecido que se apresenta nas noites em pequenos teatros ou cafés ou um bem pago astro de cinema. Apatow ousou ao apostar em um projeto bem diferente do que estava acostumado, mas pagou para ver os resultados. A crítica especializada foi razoavelmente generosa elogiando sua boa vontade em tentar fazer um humor com conteúdo, mas o público não comprou a ideia e o longa foi um grande fracasso nos EUA, o que o levou a ser lançado diretamente em home vídeo em muitos países, como aconteceu no Brasil. Boa parte do repúdio se deve aos quase 150 minutos de duração que soam arrastados. O último ato praticamente abandona a comédia e foca no drama dando maior destaque à Laura, sua família e as relações que travam com George e suas divagações a respeito da iminência da morte. Faltou um senso crítico maior ao diretor na hora da edição, pois pesou seu emocional. Além da identificação com o tema sobre o outro lado da comédia e em ver seus amigos de longa data em cena, ainda há o fato de que Leslie é sua esposa na vida real e divide a tela com as próprias filhas do casal, Maude e Íris Apatow. Bem que dizem que negócios e relacionamentos não combinam. Em cima do muro entre fazer rir ou chorar, ficou difícil identificar um público-alvo para a fita. Para menores o conteúdo é proibitivo, adolescentes podem se entediar, adultos acharem uma trama frouxa e mais idosos considerarem deprimente a temática da morte. Por fim, compreendemos que o título nacional Tá Rindo do Quê? acaba tendo dois sentidos. É uma ironia acerca da intimidade dos humoristas cuja maioria não vê graça em suas vidas, mas também é a pergunta que boa parte dos espectadores fará ao fim do filme. Afinal, onde está a graça?

Comédia - 145 min - 2009

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