segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A ÚLTIMA MÚSICA

NOTA 6,0

Reunindo praticamente todos os
clichês possíveis para forçar
emoção,  longa agrada adolescentes,
principalmente pela protagonista
Em um passado não muito distante Hilary Duff era a imagem perfeita de uma pop star teen. Ela cantava, dançava e atuava, enfim, a personificação dos sonhos de muitas garotinhas. No entanto, a estrelinha cresceu e após uma adolescência atribulada por conta da carreira preferiu fugir um pouco dos holofotes e cuidar de sua vida pessoal, hoje aparecendo muito raramente em algum filme, talvez por ter ficado com a imagem muito atrelada a um único tipo de papel. Contudo, uma substituta para ocupar seu lugar no universo infanto-juvenil logo foi encontrada. Miley Cyrus estreou com o pé direito no seriado “Hannah Montana” e imediatamente caiu nas graças do público. Apadrinhada pelos estúdios Disney, que na época vibrava com o sucesso de High School Musical e Camp Rock, a personagem-título da série também foi parar nos cinemas e gerou centenas de produtos licenciados mundo afora. Só que Miley percebeu que de certa forma estava nada mais que reproduzindo sua própria vida interpretando a tal pop star e que no futuro isso poderia lhe prejudicar, assim quis alçar novos voos em sua carreira. O drama romântico A Última Música foi seu primeiro desafio para tentar desvencilhar sua imagem de atriz de um papel só, contudo, percebe-se que ainda estava longe disso. Ela dá vida à Ronnie Miller, uma adolescente que deixa a contragosto a agitada Nova York para passar as férias de verão no litoral na casa de seu pai Steve (Greg Kinnear). Ao contrário do irmão mais novo Jonah (Bobby Coleman), a garota não está nada animada em rever o pai após anos de separação de Kim (Kelly Preston), sua mãe, mas em compensação sua estadia na praia lhe proporciona conhecer Will (Liam Hemsworth), para variar, um dos rapazes mais desejados da área e cujo padrão de vida elevado revela-se uma barreira para esse amor se estender após o verão. Apesar da garotada se sentir atraída pela fita por conta do gancho romântico açucarado é bom deixar claro que o ponto forte do roteiro é a relação estremecida entre pai e filha, sendo que a paixão pela música parece o único elo existente entre eles e a única coisa capaz de uni-los, mas pelo título você já deve imaginar que o destino não irá permitir que muitas notas musicais embalem esse reencontro.


A trama é baseada em um livro de Nicholas Sparks, um especialista em histórias românticas, com toques dramáticos e cheias de idas e vindas. Hollywood está usando e abusando de suas obras sendo que Um Amor Para Recordar e Diário de Uma Paixão já se tornaram clássicos românticos, mas o mesmo não se pode dizer Noites de Tormenta e Querido John. O filme em questão da diretora Julie Anne Robinson poderia constar na lista de adaptações do autor esquecíveis, mas a presença da eterna Hannah Montana tem garantido a sobrevida da fita em home vídeo e repetecos na TV. Com roteiro de Jeff Van Wie e do próprio Sparks, não é a toa que este drama carrega essencialmente os elementos que compõem praticamente todos os seus livros desde Uma Carta de Amor, sua primeira obra adaptada para o cinema. Temos emoção, romance, mensagens de autoajuda e positivismo, doenças inesperadas interrompendo sonhos e as ambientações geralmente ficam restritas a cidades pequenas dos EUA para acentuar o teor bucólico e inocente dos textos. Embriagados por essas atmosferas, os diretores costumam carregar no sentimentalismo das versões cinematográficas das obras do escritor, o que justifica a enorme quantidade de clichês. Não haveria nada de errado no excesso de repetições de situações, desde que a direção não fosse tão preguiçosa e os atores se esforçassem mais. A diretora Robinson, cujo currículo até então ostentava apenas alguns capítulos do seriado de TV “Grey’s Anatomy”, não deve ter percebido que apesar de frouxo o argumento que tinha em mãos poderia angariar plateias adultas também, mas contentou-se em satisfazer os adolescentes dotando o longa de um clima praiano e depositando todas as suas fichas em cima do carisma e da força nome de Miley. Todavia, a escolha da atriz para o papel principal mostra-se equivocada. Com seus trejeitos ela podia enganar como Hannah Montana, mas para um papel sério não traz credibilidade. Encarnando a típica garota revoltada que desconta sua raiva em cima de tudo e de todos, ela não consegue conquistar a empatia do público, salvo seus irredutíveis fãs. Ironicamente, seu grande momento no filme não acontece no clímax dramático e sim em uma curta sequência em que canta uma de suas baladas românticas. Literalmente como atriz ela é uma ótima cantora.

Assim como para a maioria das pop stars teens americanas, a própria vida pessoal de Miley a forçou a procurar novos caminhos para se manter na mídia de forma saudável (não às custas das polêmicas em que se envolve). Entretanto, seu primeiro passo para mostrar que cresceu mostra-se em falso. Se era para buscar o respeito como profissional e conquistar um novo público, o melhor era tentar um projeto que radicalmente cortasse com as amarras de seu passado, mas A Última Música soa como uma extensão natural de quem quer seguir carreira atrelada aos estúdios Disney reforçando a ideia que no mundo ideal não há espaço para mocinhas rebeldes e que o tão falado abismo social pode magicamente desaparecer e unir pessoas de diferentes classes e estilos de vida. As obras de Sparks em geral contêm altas doses de açúcar e contam com sérios problemas estruturais, não se definem entre o romance e o drama e são alinhavadas com pitadas de humor sem graça. A adaptação de um livro que já nasceu com falhas pode parecer fácil para um diretor com pouca experiência, mas aqui temos a prova de que a falta de intimidade com o meio pode prejudicar ainda mais o resultado final. De qualquer forma o público-alvo da fita não costuma reclamar. Ligeiro e de emoções fáceis, este drama é do tipo que meninas assistem centenas de vezes sem se cansar. As amigas se reúnem para assisti-lo sempre que possível e seus namorados até encaram o programa com boa vontade para agradá-las, mas poucos devem ousar dizer que a fita é mediana e que o gancho romântico é tão frio que fica até deslocado em uma ambientação solar. Hemsworth também tem mais experiência com a TV, mas como qualquer rostinho bonito em um corpo sarado garante seu espaço no cinema o metido a galã aproveita a oportunidade e não se importa com o jeito canastrão de seu personagem. Risível a justificativa para a fama de garanhão de Will (algo a ver com uma tragédia em sua família), mas totalmente crível para meninas que crescem ouvindo que os homens não têm sentimentos. Olha aí o carinha provando o contrário! Apesar de toda a superficialidade, inclusive no visual já que temos um alegre clima de verão para escamotear uma história que no fundo busca lágrimas, é preciso destacar o trabalho de Kinnear, para variar sempre muito a vontade e roubando a cena com seus tipos coadjuvantes e com o qual gostaríamos de manter amizade, e do pequeno Coleman que mesmo com sua pouca experiência como ator dá um banho de autenticidade em cima de Miley e Hemsworth. Tomara que ele tenha sorte, afinal o que não faltam são casos de bons atores mirins que aos poucos perderam a inocência, foram corrompidos pela ambição e como consequência suas carreiras degringolaram. A propósito, Miley começou com quantos anos?

Drama - 103 min - 2010 

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