terça-feira, 4 de novembro de 2014

MALUCA PAIXÃO

NOTA 2,0

Sandra Bullock carrega nas costas
comédia sem graça e chata que
pretendia pegar carona no sucesso
de seus protagonistas na época
Sandra Bullock e Bradley Cooper protagonizaram dois dos mais rentáveis e divertidos filmes lançados em 2009, respectivamente A Proposta e Se Beber Não Case, mas ironicamente foram unidos em um dos maiores vexames daquele ano, a comédia Maluca Paixão. Para o ator este seria apenas mais um equívoco em uma carreira que começava a dar esboços de um futuro promissor, mas para a eterna “miss simpatia” o projeto poderia acarretar pontos negativos. Várias atrizes recusaram o trabalho, mas sabe-se lá porque cargas d’água Bullock não só aceitou protagonizá-lo como também assinar como produtora executiva. Na trama roteirizada por Kim Braker, do também irregular Licença Para Casar, a atriz dá vida à Mary Horowitz, uma criadora de palavras cruzadas que com seu vasto vocabulário, inteligência e extroversão exagerada estava prestes a se tornar uma solteirona convicta, pois dificilmente um homem conseguiria aturá-la. A própria já era ciente disso, tanto que não botava fé no encontro às escuras que seus pais lhe arranjaram, mas para sua surpresa Steve (Cooper) é um bonitão e isso é o bastante para ela se animar. O entusiasmo é tanto que ela acaba assustando o rapaz com seu apetite sexual voraz, mas também o entediando com seu jeito de tagarela, contudo, nem percebe que tomou um fora em velocidade recorde, porém, de forma educada. Apaixonada e acreditando que existirão outros encontros, ela simplesmente resolve demonstrar seu amor criando uma cruzadinha sem sentido a respeito das sensações que teve nesse rápido encontro, o que lhe custa o emprego no jornal. De qualquer forma, a essa altura do campeonato isso pouco importa, pois está certa que encontrou o homem dos seus sonhos e o fato dele trabalhar no meio jornalístico como cinegrafista encara como uma prova de que o destino está a favor do casal. Steve está sempre viajando para gravar as matérias, mas agora com tempo de sobra Mary está disposta a acompanhá-lo para onde for preciso. Para piorar as coisas, o jornalista Hartman (Thomas Haden Church), com quem Steve disputa mais visibilidade na emissora, vai se aproveitar da situação para atrapalhar a vida do rapaz.

O início frenético até que não é um problema, afinal de contas a ideia é justamente contar a história de uma mulher que se apaixona literalmente à primeira vista e encasqueta que seu interesse é correspondido. O calcanhar de Aquiles são justamente as situações criadas para mostrar o desenvolvimento deste relacionamento. Se quando um não quer dois não brigam o mesmo vale para o amor. Mary é tão expansiva e entusiasmada que não percebe o papel de boba que está fazendo, mas também não dá brecha para Steve se posicionar, assim o jeito é o cara tentar fugir, porém, ela parece farejá-lo esteja onde estiver. O bizarro romance é alinhavado a uma crítica ao sensacionalismo que impera no jornalismo já há algum tempo, ainda que tal gancho não surta tanto efeito por conta do clima de vale tudo que impera na produção. Entre as bombásticas notícias que Steve e Hartman (a roteirista é tão crua que nem mesmo se atentou que é costume dos americanos chamar os homens pelo sobrenome) correm atrás está o caso de uma criança que nasce com três pernas e prestes a fazer uma cirurgia causa uma revolta popular a favor dos diferentes. Perceberam o nível? O diretor Phil Traill em sua estreia na direção, mas que felizmente deve ter percebido seu potencial e foi buscar refúgio nos seriados de TV, até tem boa vontade em tentar injetar algum conteúdo em um argumento tão tolo, mas não basta a intenção é preciso também talento. Ele coloca o jornalista diante das câmeras para fazer da morte de um cavalo um episódio de comoção nacional, aborda ligeiramente as disputas entre emissoras em busca de um furo de reportagem e como os fatos são manipulados até chegar ao público, mas tudo é tratado de forma tão brejeira que não dá para levar a sério, até porque a cada dois minutos a chatinha Mary surge do nada para falar alguma bobagem ou nos entorpecer com sua cultura inútil e o foco é desviado. Na reta final, sem saber o que fazer com o gancho romântico e muito menos com a crítica ou ainda tirando um sarro de seu próprio trabalho, Traill leva sua trama literalmente para o buraco quando a protagonista cai em uma mina e descobre uma criança com deficiência auditiva e provavelmente há dias desaparecida. É hora de unir o útil ao agradável e assim dar uma grande noticia para Hartman trabalhar e forçar Steve a reconhecer que Mary no fundo mexe com ele e é uma mulher extraordinária. Sim, a destrambelhada criadora de palavras cruzadas amadurece num passe de mágica e tem seu momento glorioso após cerca de um pouco mais de uma hora de cenas patéticas.

Apesar de ser totalmente esquecível e sem graça, o grande trunfo do longa é justamente contar com a presença de Bullock cujo alto astral transparece totalmente em Mary. Embora carregando nos trejeitos, é impossível não rir ao menos um pouquinho com sua personagem caminhando a passos miudinhos, falando sem parar bobagens em momentos inoportunos e ao ver seu bizarro visual que conta com um ridículo corte de cabelo (parece que foi embora do salão antes do cabeleireiro terminar o serviço), uma sombrinha a tiracolo e um chamativo par de botas vermelhas que usa seja dia ou noite, faça chuva ou faça sol. A figura excêntrica condiz com a vida pessoal desta mulher. Além da cultura digna de uma enciclopédia e da profissão que embora digna e exigente poucos parecem valorizar ou almejar, ela é uma quarentona que parece ter se acostumado a ser “diferente”, ou seja, não trilhou o trivial caminho do casar, formar uma família, ser realizada profissionalmente (sabe que é competente no que faz, mas seu ofício está por um fio com novas e virtuais opções de passatempo) e por aí vai. Para completar o pacote, ela ainda teve que voltar para a casa dos pais temporariamente por conta de uma dedetização em seu apartamento, todavia, parece que essa é apenas uma desculpa esfarrapada para justificar sua carência afetiva que a impediu de buscar sua total independência. Contando seus segredinhos para um hamster de estimação, não é de se estranhar que seus pais tenham recorrido a um encontro às escuras para tentar desencalhar a filha, mas umas visitas a um psicólogo antes viriam a calhar. Será que o médico sobreviveria às sessões com a tagarela falando sobre origens de palavras em desuso, lembrando de personalidades que só para ela tem alguma importância ou sobre a forma correta de responder palavras cruzadas? Bullock se esforça para tornar crível sua personagem, mas nada parece a favor, falta inclusive química com Cooper cujo personagem acaba parecendo um mero coadjuvante a certa altura. Massacrado pela crítica, e com razão, Maluca Paixão é uma grande decepção desde o argumento e só mesmo a confiança na força do nome de uma atriz que é sinônimo de diversão para ter tido sinal verde para sair do papel. Curiosamente, um dia antes de ganhar o Oscar pelo drama Um Sonho Possível, a bem-humorada Bullock fez questão de ir pessoalmente receber o Framboesa de Ouro, o grande prêmio anual dos fracassados no cinema, pelo papel de Mary. Com tal gesto de humildade a atriz conseguiu passar por esse vexame ilesa e sem danos à sua imagem. Ponta para ela.

Comédia Romântica - 98 min - 2009

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