segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O SILÊNCIO DE MELINDA

NOTA 6,0

Voltado para os adolescentes,
drama reafirma a importância do
diálogo, mas mesmo com tema polêmico
em pauta longa não se aprofunda
O processo de extinção das videolocadoras físicas infelizmente já vem acontecendo há alguns anos, mas aquelas que conseguiram se manter ativas entre 2008 e 2013 certamente se beneficiaram do fenômeno Crepúsculo. Além da renda gerada pela série, também deve ter sido verificado o interesse dos fãs pela filmografia dos protagonistas, sendo que Kristen Stewart levava ligeira vantagem nesse quesito na comparação com seus pretendentes no romance sobrenatural mesmo com uma carreira curta até então. Para as lojas que não tinham o costume de vender o acervo inativo, provavelmente deve ter gerado algum lucro certos títulos desconhecidos, mas que só por ostentar o nome da estrelinha teen já despertariam o interesse de muitos. O Silêncio de Melinda é um bom exemplo.  Lançado em 2004, este drama juvenil é uma adaptação do romance “Speak”, de Laurie Halse Anderson. O roteiro de Annie Young Frisbie e Jessica Sharzer, esta que também assina como diretora, conta a história da adolescente Melinda Sordino (Stewart) a partir do primeiro dia de aula de um novo ano letivo. Embora já estudasse no colégio, ela aparenta ser uma completa estranha no ambiente e seu estado de espírito em nada se assemelha a euforia dos demais estudantes. Sentindo-se deslocada e considerando seus professores completamente excêntricos, ela só relaxava quando estava na companhia do Sr. Freeman (Steve Zahn), o novo professor de artes que por ser também jovem parecia compreender melhor os alunos e dava a liberdade para que todos se expressassem através de desenhos livres. Ela também admirava o jeito contestador de Dave Petrakis (Michael Angarano), aluno com coragem para expor opiniões e contrariar professores, não raramente dizendo as coisas que estavam engasgadas na garganta dela. A narração em off da protagonista procura deixar claras suas sensações, expectativas e angustias, mas chama a atenção quando ela comenta sobre Rachelle Bruin (Hallee Hirsh), aquela que viria a ser a sua ex-melhor amiga. Hã? Sim, isso mesmo. O início do filme é um pouco confuso por aparentemente narrar a adaptação da garota a um novo colégio, o que não deixa de ser verdade de certa forma visto que para ela tal ambiente está completamente mudado.

Entrecortando a narrativa, temos rápidos flashbacks com cortes desconexos nos quais Melinda estaria em uma festa bem entrosada com seus colegas, porém, ela chama a polícia indicando que algo errado aconteceu neste evento. Mais adiante, ao vermos seu flerte com Andy Evans (Eric Lively), um jovem metido a conquistador, não é muito difícil imaginar o que aconteceu naquela noite. Pouco tempo depois ele está namorando Rachelle, o que poderia justificar o estranho comportamento da protagonista pelo receio de acabar com a alegria da amiga revelando quem é realmente o rapaz, mas o pouco que fala é o bastante para abalar a relação delas. Vingativa, a ex-melhor amiga faz questão de menosprezar o quanto pode a garota e incentiva outros estudantes a fazerem o mesmo, não faltando a clássica cena de humilhação no refeitório. Contudo, algo bem mais grave parece ter acontecido naquela baladinha, mas Melinda não tem coragem de revelar a ninguém. A sensação é que as chacotas ocorrem porque ela ficou marcada como uma estraga festas como se algo repreensível tivesse acontecido e fosse a única a não compactuar a manter o sigilo, porém, seu estado melancólico denuncia que seja o que for que aconteceu tal fato manchou sua reputação. Por um ano preferiu guardar este segredo, assim seus poucos amigos a preferiam longe por conta de seu jeito deprimente de ser. Aparentemente ela não tem problemas com os pais, Joyce (Elizabeth Perkins) e Jack (D. B. Sweeney), mas não tinha uma relação muito próxima a ponto de revelar seus problemas, assim sua tristeza inerente era interpretada por eles como algo normal da idade cheia de novidades e transformações. E é nessa ignorância que parece generalizada que está o grande trunfo do filme: propor o diálogo entre pais e filhos, professores e alunos e entre amigos. Quantos casos reais sobre adolescentes que se suicidam, sofrem de depressão ou se entregam às drogas surgem todos os dias? Na maioria constata-se um comportamento reprimido derivado de problemas que para muitos podem parecer bobagem, como o fim de um namoro, a pressão para escolher uma profissão, sentimento de inferioridade por conta de algum detalhe físico ou classe social ou a falta de convívio com os pais que acreditam suprir a ausência com dinheiro e bens materiais, mas para os jovens esses dilemas podem alcançar proporções gigantescas. Contar as grandes revelações dos filmes não é algo legal, mas em alguns casos é inevitável para comprovar seu valor. É possível que com a leve dúvida plantada até aqui quem nunca tenha ouvido falar sobre este longa esteja intrigado, porém, é mais fácil acreditar que a grande maioria ainda deve achar uma bobagem qualquer que só deve interessar aos fãs de Crepúsculo para ver a estrela que idolatram em início de carreira.

As opiniões podem mudar se falarmos que todo sofrimento de Melinda é por conta de um estupro. Teria ela engravidado? Contraído alguma doença? Essas dúvidas podem permanecer até o final, como se já não fosse o bastante para justificar tanto o título nacional quanto o original, “Speak” (Fale), a mescla de sentimentos de vergonha e culpa. Sim, a garota se sente mal porque de certa forma procurou aquilo que acredita ter desgraçado sua vida. Se sentiu o máximo ao receber a atenção do garoto mais desejado do colégio na tal festa, mas sua inexperiência a ludibriou e nem passou pela sua cabeça que a extensa lista de conquistas dele se deve ao fato de levar os relacionamentos até certo ponto, ou seja, até a cama. No caso de Melinda foi tudo em velocidade recorde e dentro do carro dele mesmo, ainda que na hora H ela tenha tentado resistir, mas ele como boa raposa soube fazer tudo sem traços de agressão. Assim como grande parte das vítimas de estupro, a adolescente foi abusada por um conhecido e apesar de ter chamado a policia a vergonha venceu a coragem e ela foi embora sem prestar queixa, ficando apenas marcada como aquela que cortou o barato da galera. Uma série de motivos a impediram de contar a verdade para alguém, mas pesou bastante o medo de ser apontada como o pivô da situação, afinal há o estereótipo de que mulheres assediadas geralmente provocam os homens. Já Andy não sente remorso algum e continua sua vida com a altivez característica de quem goza de sua posição, inclusive indicando em uma cena que estaria disposto a mais uma vez abusar de Melinda. Qual rapaz não gosta de se gabar de suas conquistas amorosas? Infelizmente é um costume arcaico e o jeito “pegador” de ser é motivo de orgulho na roda de amigos e até aprovado por algumas famílias, situações que incentivam a precoce vida sexual das novas gerações e o aumento de casos de estupros, afinal o sexo virou algo banal e constante na vida dos jovens. Contudo, justamente por ser direcionado ao público juvenil e criticar o comportamento promíscuo, O Silêncio de Melinda é bastante recatado. Abre-se a ferida, mas é evitado colocar o dedo profundamente. A impressão é que tanto as roteiristas quanto a autora da obra original quiseram apenas abrir uma porta para o diálogo, cabendo aos adultos desenvolverem o assunto com os adolescentes ou até mesmo entre os grupos de jovens surgirem reflexões. A interpretação apática de Stewart por fim é totalmente justificada, ainda que fique a sensação de que a atriz poderia extrapolar um pouco mais as emoções da personagem. De qualquer forma, ela se sai melhor que Zahn que mesmo mais experiente ou justamente por ter seu rosto associado a comédias e aventuras não consegue convencer como o mestre que incentiva a aluna, mesmo sem saber nada sobre seu dilema, a enfrentar o mundo de cabeça erguida.

Drama - 89 min - 2004

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