quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

NOITE DE ANO NOVO

NOTA 6,0

Um elenco estelar briga por
espaço em um filme mosaico
que une drama e comédia
acerca de um dia festivo
Quantas histórias curiosas devem ocorrer em um mesmo dia com diferentes pessoas? E como será que as pessoas se comportam ou com quais atividades elas estão envolvidas tradicionalmente no dia 31 de dezembro? Bem, essa data especial tem sempre muita festa, fogos, simpatias para trazer sorte, mas a cada ano ela pode ser vivida de um modo diferente e a própria vida trata de tecer situações para que um réveillon seja diferente do outro. Enquanto alguns estão eufóricos com os festejos, outros preferem passar a virada sozinhos. Tem gente no hospital doente e outros ansiosos com a chegada de novas vidas. Tem casais apaixonados trocando juras de amor e pessoas torcendo para encontrar o amor no novo ano. Algumas pessoas trabalham nesta noite justamente para levar diversão para outras. Estas e outras histórias são contadas na comédia romântica Noite de Ano Novo que apesar de bem intencionada, está longe de ser um trabalho maravilhoso, mas também não é o lixo que muitos dizem. O problema é que quase duas horas de duração não é suficiente para desenvolver de forma adequada as tramas que envolvem quase vinte personagens, isso se levarmos em consideração apenas os protagonistas destas subtramas. O longa fala a respeito das coisas boas da vida, tradições, nos faz refletir sobre erros e a sonhar que o próximo ano será bem melhor do que o anterior. Enfim, não podemos acusar que as mensagens são clichês afinal de contas todos os anos cumprimentamos amigos e familiares e repetimos as mesmas frases de positivismo. Também não podemos esperar algo diferente de um filme que enfoca as comemorações do ano novo, mas cinematograficamente a obra falha ao fazer uma colcha de retalhos de situações conhecidas de muitas e muitas comédias, romances e dramas, assim não trazendo surpresas ao espectador que certamente sabe o que esperar no final. 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O DESTINO DO POSEIDON

NOTA 8,5

Clássico representante dos tempos
áureos dos filmes-catástrofes, longa
ainda prende atenção com ótimo enredo
e atuações e efeitos visuais convincentes
Virada de ano é tempo de festejar, fazer pedidos e renovar a esperança crente que um novo tempo começará a partir de 1º de janeiro. Nessa excitação de momento, provavelmente nem os mais pessimistas tem tempo ou motivação para pensar que o pior pode acontecer poucos minutos após os estouros de champanhes e do show dos fogos de artifício. Já pensou você estar em um luxuoso transatlântico, curtindo um festão e de repente virar literalmente de cabeça para baixo e ser arrastado para o teto do salão? Pois é isso que acontece durante os festejos de ano novo retratados em O Destino do Poseidon, clássico representante dos filmes-catástrofes, subgênero tão popular na década de 1970. Ele é a prova que para fazer cinema do tipo não é preciso se tornar refém de efeitos especiais de ponta. Basta ter uma boa história para contar e criatividade em sua condução para fisgar o espectador. A trama em si é das mais simples. Durante a noite de reveillon o imponente Poseidon, um tipo de hotel de luxo flutuante, está transbordando (sem trocadilhos) de passageiros que no melhor da festa são surpreendidos com um intenso sacolejar por conta do impacto de uma onda gigantesca que deixa o navio totalmente virado de cabeça para baixo. Dezenas de pessoas morreram na hora, inclusive a tripulação da cabine de comando o primeiro local a ficar submerso, mas muitas sobreviveram e se viram isoladas dentro do salão principal que em um primeiro momento parecia a prova d'água. Contudo, não tardaria para o local ser invadido por uma enxurrada e um pequeno grupo liderado pelo reverendo Frank Scott (Gene Hackman) decide que aguardar resgate era perda de tempo e o melhor seria procurarem por conta própria uma saída. Assim eles se aventuram pelas entranhas da embarcação tentando subir rumo ao casco que ainda está boiando na superfície, mas o tempo está contra eles. Como para a maioria dos espectadores a estrutura de uma embarcação é desconhecida, poucos conhecem até mesmo os ambientes comuns que dirá tudo que necessita para sua engrenagem funcionar, a sensação de pavor é intensificada. A cada desafio vencido não há sensação de alívio e sim a preocupação do que está por vir.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

OS DELÍRIOS DE CONSUMO DE BECKY BLOOM

NOTA 8,5

Consumista compulsiva faz
as maiores loucuras para
evitar exageros, mas resistir
as tentações não é fácil
Se a literatura tem um relacionamento bastante estreito com o cinema, o mesmo é possível dizer a respeito do mundo da moda. Cada vez mais a sétima arte parece ter interesse em despir os bastidores do universo fashion. Depois do sucesso de O Diabo Veste Prada desfilando suas roupas de grifes famosas em composições harmoniosas era preciso mostrar como esses modelitos se adaptaram ao estilo da classe média. Os Delírios de Consumo de Becky Bloom veio para suprir essa necessidade apresentando as confusões de uma “shopaholic”, ou seja, uma consumista compulsiva. Esta hilária comédia romântica nos revela, ainda que bem superficialmente, o sentido dramático deste distúrbio, os conflitos pelos quais passam diariamente aqueles que não resistem a uma comprinha toda vez que se sentem atraídos por uma vitrine bem arrumada ou um cartaz anunciando uma liquidação. Todavia, apesar do tema moda estar presente em praticamente todas as cenas, os roteiristas Tracey Jackson, Tim Firth e Kayla Alpert felizmente nos pouparam de discursos insossos a respeito de grifes famosas e sequências de desfiles. Baseada nos best-sellers de Sophie Kinsella “Confessions of a Shopaholic” e “Shopaholic Takes Manhattan”, a história se passa na glamorosa cidade de Nova York onde vive Rebecca Bloomwood (Isla Fisher), ou simplesmente Becky, uma jornalista que deseja muito um emprego em uma badalada revista feminina, mas acaba conseguindo uma vaga como colunista em uma publicação sobre finanças da mesma editora, o que pode ainda abrir as portas para o seu real interesse dependendo de seu desempenho. Ela não entende nada concretamente sobre juros, aumento ou queda de bolsas, crises financeiras, enfim tudo que pauta este universo, mas acaba fazendo sucesso com seus textos de fácil compreensão envolvendo as relações entre salários, gastos, necessidades e futilidades. Tamanha intimidade com tais temas é porque ela própria lida com eles diariamente já que compra demais e idolatra seus diversos cartões de créditos, mas quando chegam as cobranças ela cai em si e percebe que exagerou e não precisava de muitas coisas que adquiriu, peças que ela provavelmente usará uma única vez ou nem chegará a estrear. O sentimento maravilhoso de comprar um sapato novo e depois a culpa ao ver que seu custo não justifica os benefícios é um dos exemplos que ela cita em seus textos e assim se torna a queridinha de seu chefe, Lucke Brandon (Hugh Dancy). Becky fica conhecida como "a garota da echarpe verde", título de sua coluna e uma referência ao acessório que ela usava no dia em que participou da entrevista de emprego. Diga-se de passagem, o tal pano esvoaçante lhe custou um bom dinheiro e foi adquirido momentos antes de seu compromisso profissional. Mas não faz mal, com o bom emprego ela poderia pagar suas contas atrasadas e fazer algumas extravagâncias de vez em quando.

domingo, 28 de dezembro de 2014

BEM-VINDO AO JOGO

Nota 1,0 Vendido como romance, filme é desinteressante e o amor é substituído pela jogatina

Sorte no jogo, azar no amor. Esse pensamento resume o espírito de Bem-Vindo ao Jogo, produção vendida como um romance, mas que deve decepcionar os fãs do gênero. Aqui há muito mais jogatina do que romantismo e quem não é adepto de carteado provavelmente vai achar um tédio esta produção assinada por Curtis Hanson. O diretor tem um currículo com trabalhos bem interessantes e chegou ao ápice da carreira quando recebeu muitos elogios e indicações a prêmios por Los Angeles – Cidade Proibida. Pouco tempo depois ainda chamou atenção com seu Garotos Incríveis, mas desde então ele tem escolhidos histórias tolas para filmar. Neste caso, ele optou por um simpático e atraente casal de protagonistas e tentou enveredar pelo lado do romantismo para no fundo contar uma história em que vencer no jogo de cartas é o que interessa, uma metáfora ao desejo universal de vencer na vida. Em Las Vegas, o jogador profissional Huck Cheever (Eric Bana) continua investindo nos jogos de cartas, principalmente o pôquer, e sabe como ninguém as artimanhas para sair vencedor. Sua técnica é simples: ele usa a emoção, faz o que manda seu coração, enquanto os adversários usam a lógica. Porém, na vida pessoal ele não é bem sucedido, mas as coisas mudam quando ele conhece Billie Offer (Drew Barrymore), uma encantadora jovem que o ensinará a tratar do amor da mesma forma que ele lida com o carteado. Enquanto aprende essa lição, ele também tenta juntar o dinheiro necessário para poder participar de um lucrativo torneio onde poderá jogar com uma lenda da jogatina, L. C. Cheever (Robert Duvall), que na realidade é seu pai biológico que ele nunca conheceu e agora tem a chance de enfrentar literalmente no jogo.

sábado, 27 de dezembro de 2014

RUMO AO PARAÍSO

Nota 6,5 Esta é a história de Paul Gauguin, mais um artista que penou para alcançar o sucesso

O mundo das artes plásticas é uma rica fonte de inspiração para a sétima arte e já rendeu muitas histórias maravilhosas, outras curiosas, algumas sobre superação e até dramas trágicos. Ao abordar a vida de um pintor, um diretor de cinema provavelmente deve encontrar algum ou vários pontos em sua trajetória que o instigaram a lhe prestar uma homenagem, apresentando assim detalhes de sua vida pessoal e profissional, podendo apostar em uma biografia que pontue os principais momentos das mesmas ou fixar-se em um ou mais períodos determinado. Seja como for, obras desse tipo não documentam apenas a História de alguma personalidade, mas servem também como um registro da época e lugares em que estes artistas viveram. Por exemplo, nos livros escolares temos algumas pinceladas de como foi o século 19 em solo americano, em alguns países da Europa, obviamente no Brasil e por tabela em Portugal, mas alguém tem alguma informação de como foi esse período no Taiti? Essa pode ser uma das curiosidades reservadas pelo longa Rumo ao Paraíso, mas seu chamariz é revelar um pouco do histórico de vida do artista plástico Paul Gauguin, reconhecido por suas obras multicoloridas que retratam as riquezas naturais e os nativos da América Central. Alguns nomes de pintores famosos intitulam suas cinebiografias e se encarregam de fazer um convite ao público, como Os Amores de Picasso e Frida, porém, outras produções praticamente passam despercebidas quando encobertas por títulos que não fazem alusão a seus homenageados como neste caso, aliás, com o agravante do título escolhido ser um tanto genérico e quando lançado não haver publicidade para ajudar sua carreira. Uma pena, afinal Gauguin não é um artista tão divulgado quanto Van Gogh ou Picasso, mas sua trajetória merece ser conhecida. A trama escrita e dirigida por Mario Andreacchio acompanha em paralelo duas épocas distintas da vida do artista interpretado por Kiefer Sutherland. Em Paris, em 1874, este homem é um bem-sucedido corretor de ações da bolsa de valores que vive feliz ao lado de sua esposa Mette (Nastassja Kinski) e seus quatro filhos. Colecionador de quadros e arriscando pintar algumas telas, ele resolve abandonar a sua carreira ao ter seus trabalhos elogiados por Camille Pissarro (Alun Armstrong), um artista frustrado na profissão, mas que incentiva o rapaz a continuar a se dedicar a arte.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O HOMEM BICENTENÁRIO

NOTA 7,5

Boa premissa e tema
polêmico acabam rendendo
menos que o esperado em
drama simplista e familiar
Em um passado não muito distante muitos acreditavam que logo nos primeiros anos do século 21 seria possível viver em modernos e equipados apartamentos tal qual a família Jetsons, os automóveis se assemelhariam a aeronaves e poderíamos programas férias na Lua ou em Marte. O cinema sempre ajudou a alimentar tais fantasias, mas o fato é que já passou mais de uma década de um novo milênio e nenhum desses devaneios tornaram-se realidade. Ok, muitas coisas modernas e antes inimagináveis ganharam corpo e formas e hoje fazem parte do nosso cotidiano, diga-se de passagem, algumas invenções totalmente dispensáveis, mas muitas outras extremamente bem-vindas. Televisões, computadores, celulares e outros eletrodomésticos ganham atualizações anualmente e podem ser vistos como armações para fazer o consumidor gastar dinheiro, não é a toa que muitos equipamentos duram de um a três anos no máximo e quando precisam de consertos as peças são raridades. Por outro lado, a tecnologia ajuda e muito na área de saúde como, por exemplo, proporcionando qualidade de vida à deficientes físicos e mentais, acidentados e acometidos de graves doenças. Além dos membros e até órgãos artificiais implantados em corpos humanos, hoje já é possível utilizar computadores e robôs para ajudar na recuperação do intelecto, fala, audição, visão e locomoção de muitos pacientes. Estes temas rendem boas discussões, tem seus prós e contras e, como já dito, são fontes de inspiração para a sétima arte. Talvez pela complexidade do assunto o público e crítica acabaram por não dar o devido valor ao eficiente drama O Homem Bicentenário, que traz um enredo instigante, mas que foi simplificado pelo diretor Chris Columbus. Se os humanos ainda sonham com a eternidade e cada vez mais parecem ser máquinas controladas pelo tempo e pelos modismos, o que levaria um robô a querer ganhar vida de verdade? Em pouco mais de duas horas o cineasta de sucessos familiares como Esqueceram de Mim e Uma Babá Quase Perfeita tem a chance de realizar o trabalho de sua vida, mas a desperdiça. Não que o filme seja ruim, longe disso, mas o tempo é muito curto para desenvolver um roteiro que fala sobre educação, família, sonhos, alegrias, tristezas, direitos, ética, enfim, há um leque enorme de possibilidades a serem trabalhadas, mas que não competem à um projeto comercial. Todavia não devemos levar ao pé da letra tal definição para todos os filmes que visam lucro. Uma obra que quer chegar até os populares não precisa obrigatoriamente ser de puro escapismo, mas pode e deve conter elementos que o elevem do patamar de um produto regular ou apenas para diversão, como neste caso em que entretenimento e conteúdo casam bem, ainda que o resultado final pudesse ser bem melhor.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

SURPRESAS DO AMOR

NOTA 7,0

Comédia romântica embalada
para presente de Natal tem
elenco de peso e equilibra bem
humor e pitadas de seriedade
Hoje é dia de Natal. Para alguns é dia de muitas alegrias e para outros de tristeza, mas também pode ser uma data que causa uma tremenda dor de cabeça. Quem ainda não fez a famosa visitinha de fim de ano aos parentes e amigos hoje pode ser a data limite. Para aqueles que não curtem esse clima natalino, mas mesmo assim são obrigados a comemorar a data, Surpresas do Amor é uma divertida história que vem a calhar para dar uma animada. Comédia romântica disfarçada, o longa não foge do esquema previsível do gênero, mas coloca em cena um casal curioso. A diferença de estatura entre Reese Witherspoon e Vince Vaugh é gritante e explorada em algumas peças publicitárias produzidas para este filme com os dois de costas um para o outro, mas ela montada em saltos bem altos e ainda em cima de algumas malas. O que poderia ser um entrave para a escalação da dupla acabou servindo para chamar a atenção, porém, certamente o que contou mais foi o fato de ele ser um especialista em humor mais popular e ela ser perfeita para dar ares românticos a uma relação amorosa iniciada de forma atípica ou forjada. Segundo boatos, os dois tiveram muitos desentendimentos durantes as filmagens, mas se isso é verdade os fatos colaboraram para manter os protagonistas no tom certo. O tempo todo eles estão se alfinetando até o ápice das discussões, a separação, e... Bem, você já sabe como tudo vai acabar. Os atores dão vida à Brad e Kate, dois jovens (ok, nem tão jovens assim) que aparentemente se conheceram em uma noite em um bar e após um rápido estranhamento já estavam se atracando no banheiro. Assim começava o namoro feliz de duas pessoas que se completam e partilham os mesmos gostos. A mocinha da história se apresenta como uma mulher forte, mas essa figura é para esconder a repressão que sentiu a vida toda da família e amigos. Talvez por isso sempre condenou a instituição familiar e sua repulsa é compartilhada pelo companheiro, o que garantia o sucesso da relação. Todavia, eles jamais revelaram um ao outro suas reais amarguras do passado. O tempo passa e nunca um conheceu a família do outro, pois sempre arranjavam desculpas, principalmente nas datas festivas. A cada Natal, o feliz casal escapava da obrigação de visitar seus parentes com histórias bem criativas, como fazer trabalho voluntário em países pobres, assim eles ficam livres para aproveitar as férias viajando. Porém, certa vez ocorre um imprevisto e o passeio é cancelado na última hora pela equipe do aeroporto e o casal tem o azar de ser flagrado por uma equipe de TV local e seus parentes ficam sabendo do ocorrido. Agora não tem jeito. Eles serão obrigados a comemorar essa data em quatro casas diferentes em um mesmo dia já que ambos tem pais separados. Assim, eles terão que confrontar memórias, tradições, vergonhas e parentes indesejados, tudo o que for possível para atrapalhar a relação harmoniosa dos pombinhos. Ao mesmo tempo em que repudiam tal situação, o casal passa a se desentender, principalmente porque Kate começa a ter o desejo de constituir sua própria família, coisa que não cogitava até então.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O EXPRESSO POLAR

NOTA 8,0

Apesar da narrativa ter alguns
problemas de ritmo, desenho
emociona e resgata a magia do
Natal e o espírito de solidariedade
Como se costuma dizer nas propagandas da televisão, hoje vamos ter a noite mais mágica do ano. Para praticamente todos no mundo inteiro realmente a noite de hoje é muito aguardada e carrega um clima único de alegria, fraternidade e lúdico. Para as crianças, o entusiasmo é ainda maior. De madrugada, Papai Noel vai passar na casa de cada uma delas e deixar um belo presente embaixo da árvore enfeitada. Bem, essa historinha hoje já não cola mais, apenas os bem pequeninhos ainda caem nessa, mas o que seria do Natal se o que há de mais tradicional na data não fosse passado adiante às novas gerações? Até para os adultos a festa não teria o mesmo sentido se não fosse essa volta às memórias de infância e resgate de tradições. Pensando em agradar ao público de todas as idades e exaltar o espírito natalino e a figura do bom velhinho, o diretor Robert Zemeckis teve a grande ideia de realizar O Expresso Polar, uma bela fábula literária adaptada para o cinema em animação especial. Baseado no livro ilustrado infantil homônimo de Chris Van Allsburg lançado em 1985, a história é tão singela e agradável quanto ganhar uma lembrancinha de alguém muito querido. Na véspera de Natal, um garoto está acordado e ansioso. Ele não acredita que Papai Noel existe e nesta madrugada quer ter algum sinal que o faça voltar a crer neste símbolo natalino. No meio da noite ele ouve um barulho muito forte próximo a sua casa e quando vai ver o que é tem uma enorme surpresa. Simplesmente um gigantesco trem parou bem ali na sua porta e o condutor o convidou para seguir viagem com ele até o Pólo Norte. Após relutar um pouco, o menino decide embarcar, pois essa era a chance que ele precisava para voltar a acreditar no Natal. No vagão, ele encontra várias crianças de diversas etnias e com características distintas, como o garoto solitário ou o metido a sabichão, mas todos com a mesma vontade de comprovar que a magia da tradicional festa milenar existe de verdade. O convite para embarcar neste encantador passeio é um bilhete dourado, uma referência clara ao clássico infantil A Fantástica Fábrica de Chocolate que também inspirou alguns outros momentos da produção.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

LADO A LADO

NOTA 9,0

Com dois papéis femininos de
peso, drama sobre tolerância,
amizade e relações familiares
é uma opção excelente até hoje
Já faz algum tempo que as sociedades de todos os países em geral estão sofrendo reformulações. O conceito da família unida e feliz hoje em dia já não é mais uma unanimidade. Embora muitos núcleos familiares em ruínas ainda prefiram viver uma felicidade de fachada, outros clãs preferem assumir a separação. Ou melhor, os pais decidem pela ruptura quando os desentendimentos começam a ser mais constantes que os momentos de alegria, mas os filhos são um elo para sempre entre eles. O pai e a mãe têm o direito de tocarem suas vidas como bem entenderem, podendo manter relações cordiais ou não, mas e se caso eles encontrem um novo amor? Tal pessoa deve ser incorporada como um novo membro da família? Muitos anos já se passaram desde o lançamento de Lado a Lado, mas ele ainda continua um bom exemplo de filme para colocar em discussão tais relações. Perdoar e compreender o outro são algumas das mais importantes e difíceis tarefas que o ser humano tem e uns dos temas mais comentados talvez desde os primórdios das civilizações, o que implica intimamente no aprendizado de conviver com seus semelhantes em harmonia. São justamente esses itens que conduzem a narrativa escrita por Ron Bass que soube lapidá-los e escrever um texto que equilibra com perfeição situações dramáticas e outras de humor sutil protagonizadas por mulheres que irradiam veracidade, um convite e tanto para unir duas grandes estrelas de Hollywood. A trama gira em torno da rivalidade existente entre Jackie (Susan Sarandon) e Isabel (Julia Roberts). A primeira é a ex-esposa de Luke (Ed Harris), com quem teve dois filhos, Anna (Jena Malone) e Ben (Liam Aiken). Já a segunda é a atual namorada deste chefe de família que se encontra em uma complicada situação. Mantém uma relação amigável com a antiga mulher, mas esta não tolera a sua nova companheira e não perde a chance de criticá-la e envenenar a relação. O filho caçula até aceita a nova união do pai, mas sua irmã é uma adolescente que se revolta, pois ainda deseja a reconciliação dos pais. Luke por sua vez tenta de tudo para que sua namorada seja aceita por todos. Entre discussões e fofocas, a trégua entre Jackie e Isabel acaba por acontecer de uma maneira inesperada. A mãe das crianças revela que está com um grave câncer e agora precisa aceitar o fato que sua então inimiga mais cedo ou mais tarde tomará conta de seus filhos. Só que até as duas entrarem em um acordo muita coisa pode acontecer.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

EU, MINHA MULHER E MINHAS CÓPIAS

NOTA 7,0

Lançado em pleno boom do tema
clonagem, longa lançava olhar cômico
sobre a fantasia de ter uma cópia de si
mesmo para substitui-lo em certos momentos
Quem nunca disse em uma hora de aperto que gostaria ou precisaria ser mais de um para poder realizar tudo que tivesse vontade ou necessidade, mas sem se cansar ou gastar muito tempo? Vez ou outra de fato esta seria a melhor solução para os problemas, mas a comédia Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias prova que a ideia não é das melhores. O filme foi realizado quando a clonagem ainda era um assunto mais restrito a cientistas, mas os roteiristas Mary Hale, Lowell Ganz, Babaloo Mandel e Chris Miller já estavam antenados com o futuro e investiram na ideia. Pouco depois do lançamento do filme é que o mundo tomou conhecimento do famoso caso da ovelha Dolly, o primeiro ser vivo clonado da História, notícia que certamente veio a ajudar o filme a ter procura nas locadoras. Infelizmente não chegou a ser um sucesso absurdo e hoje é até uma produção esquecida, mas merecia uma segunda chance. Somos apresentados ao arquiteto Doug Kinney (Michael Keaton) que está se sentindo pressionado tanto na vida profissional quanto na pessoal, o típico homem da classe média americana. Além de dar conta do trabalho ele ainda tem suas obrigações como chefe de família e precisa dar atenção à esposa Laura (Andie MacDowell) e participar da criação dos filhos, Jennifer (Katie Schlossberg) e do pequeno Zack (Zack Duhame), assim ele sente que sobra pouco tempo para cuidar de si mesmo. Por esse motivo ele aceita participar de uma arriscada experiência que poderia tanto significar sua salvação como também ser sua desgraça. A sugestão de Leeds (Harris Yulin), um geneticista amalucado, é que o rapaz se submeta a um experimento de clonagem para fazer uma cópia de si mesmo que poderia substituí-lo em diversas tarefas cotidianas. Contudo, as coisas fogem do controle e esse substituto passa a reivindicar vida própria. Quando se dá conta, Kinney já está com três clones soltos por aí, todos idênticos na aparência, mas cada um com uma personalidade distinta e que acabam por tumultuar muito mais a vida do arquiteto ao invés de ajudá-lo.

domingo, 21 de dezembro de 2014

MEU MUNDO ENCANTADO

Nota 7,0 Com clima de filme antigo, drama leve resgata valores e inocência apostando no lúdico

Nostálgicos dos tempos das videolocadoras devem se lembrar que o grande barato desse tipo de negócio era dar a oportunidade dos clientes explorarem suas prateleiras e serem surpreendidos por filmes diferenciados e de pouca divulgação. Eram centenas de produções menores que aqui e acolá podiam se tornar sucessos particulares das lojas e o público infantil era bastante contemplado. Com as produções Disney na época sendo lançadas em ritmo de conta-gotas, muitas empresas aproveitavam a brecha para lançarem suas animações similares as do estúdio (mas de qualidade infinitamente inferior) e para ter opções ao público mirim também muitos filmes live-action, entre comédias, aventuras e dramas leves, serviam como opção para um fim de semana em casa. Quem viveu essas experiências certamente deve ter alguma fita que remeta a infância. Analisando tanto esteticamente quanto pelo estilo narrativo, Meu Mundo Encantado parece uma produção pinçada das prateleiras entre as décadas de 1980 e 1990. Deixando-se levar pela emoção, é quase possível ouvir o ruído dos cabeçotes do videocassete ao decorrer da narrativa. Entretanto, esta obra do diretor Micheal Landon Jr. foi filmada em 2008 e por opção artística adotou-se a fotografia envelhecida e o ritmo levemente pausado, detalhes que combinam perfeitamente com o clima bucólico e inocente desta história que se passa no início do século 20. Toby Morgan (Matthew Harbour) é um garoto cuja imaginação é muito fértil, ao contrário de seu pai, John (Kevin Jubinville), um bem-sucedido empresário que praticamente vive na inércia desde que sua esposa faleceu, assim ele vive com o filho uma relação fria e distante. Obrigado a passar as férias de Natal com Elle (Una Kay), sua severa avó que mora em um luxuoso casarão, porém, um lugar sem vida, o garoto descobre um sótão que servia de quarto de brinquedos quando seu pai era criança. Eis que ele encontra um antigo coelho de pelúcia, um presente deixado por sua mãe.

sábado, 20 de dezembro de 2014

ENQUANTO ELA ESTÁ FORA

Nota 4,0 Suspense poderia ir além, mas opta pelo caminho seguro dos sustos e perseguições

Fim de ano é época de alegrias, energias positivas, renovação, bons sentimentos e ... loucos à solta! É isso que vai descobrir a protagonista do suspense Enquanto Ela Está Fora. É véspera de Natal quando a apática dona de casa Della (Kim Basinger) resolve fazer umas últimas comprinhas. Na realidade ela só queria ter uma desculpa para ficar longe do marido Kenneth (Craig Sheffer), um grosseirão que a despreza e maltrata. Antes tivesse escolhido ficar em casa. Quando busca uma vaga para estacionar no shopping na tarde chuvosa e fria (a ambientação é um ponto alto da fita), ela fica furiosa ao perceber que duas delas estavam sendo ocupadas por um mesmo veículo de forma proposital e resolve deixar um recado no para-brisas do mesmo alertando o motorista sobre a atitude egoísta. Todos sabem que não se deve mexer com estranhos, assim já dá para imaginar o que vai acontecer, mas antes do suspense engrenar o início do filme é bem chatinho. Da dúvida entre tomar uma bebida quente ou comer um cookie, passando pela desistência da compra de uma camisola até o encontro com uma antiga amiga da faculdade que parece levar uma vida plenamente feliz, os primeiros minutos da fita são dedicados a mostrar a passividade de Della, uma mulher incapaz de tomar simples decisões. Quando impulsivamente resolve ter alguma atitude diante de um problema acaba não medindo as consequências e se mete em uma grande encrenca. Ao voltar ao estacionamento ela é surpreendida por quatro rapazes que a ameaçam. Um segurança tenta intervir, mas é assassinado pelo grupo e na confusão Della consegue entrar em seu carro e fugir, começando assim uma intensa perseguição cujo longo e intenso clímax se dá em uma densa e escura floresta.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O NEVOEIRO

NOTA 9,0

Apesar do estilo trash, longa
coloca em discussão um tema
importante e tem um final
de dar nó na garganta
Stephen King é praticamente uma grife cinematográfica. Muitas de suas obras, geralmente ficções ligadas aos gêneros terror e suspense, já foram adaptadas para as telonas, mas nem sempre de forma bem sucedidas. Febre literária nos anos 80 e 90, as obras do autor chamaram a atenção até mesmo dos comitês de premiações que não deixaram passar despercebidos os lançamentos de Um Sonho de Liberdade A Espera de um Milagre, por exemplo, trabalhos com veias dramáticas e profundas. Todavia, nos últimos anos King não tem tido sorte ao ceder os direitos de seus livros para produtoras de filmes e até a mídia já está mais fria em relação ao seu nome. Sendo assim, um bom projeto com sua assinatura nos créditos praticamente passou em brancas nuvens. Podemos dizer que O Nevoeiro é um filme B com pedigree. O diretor e roteirista Frank Darabont, o responsável pelas adaptações cinematográficas dos dois aclamados dramas do escritor já citados, desta vez recorreu a um conto que foi publicado no Brasil há décadas atrás no livro “Tripulação de Esqueletos” e arrancou elogios dos poucos que assistiram. Mas sempre há tempo para corrigir injustiças. Bem, nem sempre como fica comprovada na surpreendente conclusão deste suspense que termina melhor que o próprio conto que o originou. A história é desenvolvida quase que totalmente dentro de um único cenário, um supermercado, local onde um grupo de pessoas se refugia de um estranho e gigantesco nevoeiro. O problema é que tal efeito proveniente de uma tempestade esconde bizarras criaturas que parecem querer exterminar a humanidade. David Drayton (Thomas Jane) é um dos indivíduos que está enclausurado no local junto com o filho Billy (Nathan Gamble) e que acaba por liderar os planos de fuga e de enfrentar a névoa, porém, seu instinto de herói bate de frente com as ideias da Sra. Carmody (Marcia Gay Harden), uma fanática religiosa que com seus discursos apocalípticos acaba por fazer a cabeça de muitos e ajuda a aumentar o pânico. Dessa forma, uma verdadeira guerra é instalada dentro daquele espaço claustrofóbico entre as pessoas que desejam lutar pela sobrevivência e aqueles que simplesmente aceitam a ideia de morrer acreditando que essa é a vontade de Deus e que não se pode contrariá-la. É justamente nesta inversão do medo que reside a força desta produção. O que amedronta mais está dentro ou fora do mercado?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O ENVIADO (2002)

NOTA 4,5

Tema polêmico e rico em
possibilidades é desperdiçado
em longa que se enrola entre
clichês e gênero indefinido
Em tempos em que a vida de um ser humano parece não ter valor algum diante dos bens materiais é até bom assistirmos obras que ressaltem a ideia de que uma morte no trânsito ou em um assalto não deve ser considerada apenas como um número a mais nas estatísticas, mas sim como uma perda irreparável para um núcleo familiar, uma pessoa que jamais terá substituto. Ou será que existiria tal possibilidade? O Enviado procura responder a essa pergunta, mas acaba se enrolando com as inúmeras possibilidades que o tema oferece. A indefinição entre ser um drama, suspense, terror ou representante de ficção científica acabou não só colaborando para a má reputação desta produção perante os espectadores, mas até para a equipe envolvida nas filmagens o resultado final deve ter deixado um gostinho amargo. O enredo até que tem certa lógica, mas a forma como os atores atuaram dá a impressão de que nem eles mesmos sabiam qual seria a conclusão da trama. Contudo, a premissa do roteiro de Mark Bomback é bem interessante.  Paul Duncan (Greg Kinnear) e sua esposa Jessie (Rebecca Romijin-Stamos) de uma hora para a outra passaram a viver as dores de uma tragédia devido ao falecimento precoce do único filho do casal, Adam (Cameron Bright), que morreu aos oito anos de idade vítima de uma imprudência de um motorista distraído. Não demora muito e eles são procurados pelo cientista Richard Wells (Robert De Niro) trazendo uma proposta tentadora e ao mesmo tempo duvidosa. Através da clonagem ele poderia trazer Adam de volta a vida de certa forma. Jessie faria uma inseminação artificial e geraria um filho idêntico ao falecido, incluindo as características de personalidade e emocionais, mas para tanto haveria a necessidade de colher uma amostra de células da criança em um período limite antes que todas elas perdessem a vitalidade.  Os Duncans hesitam em um primeiro momento, mas a vontade de ter o filho de volta fala mais alto e eles aceitam participar deste experimento clandestino de um laboratório especializado em reprodução humana. Para evitar comentários, o casal muda inclusive de cidade para poder criar o novo Adam (mantiveram o mesmo nome) longe do medo da criança ser apontada como uma aberração. Dessa forma esta família ganhou uma nova chance de ser feliz e tudo corria bem até que o garoto completou oito anos, a mesma idade com a qual sua “matriz” havia falecido. Como em qualquer projeto experimental, neste caso não havia total certeza que o resultado final seria livre de problemas ou surpresas. O clone somente tinha a memória do que o original vivenciou até sua morte. A partir de então este novo ser aparentemente tem o livre arbítrio para traçar sua trajetória e passa a demonstrar um comportamento suspeito e agressivo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

LONGE DELA

NOTA 9,0

Atriz estréia na direção e
assina roteiro de drama
com tema difícil, mas de
leve digestão neste caso
Um casal que consegue manter ao menos o carinho e o respeito desde a juventude até a velhice é algo digno de admiração em tempos em que a instituição do casamento já não é levada mais a sério e muitos compromissos são desfeitos até mesmo na hora de dizer o tão esperado sim diante das famílias e amigos. Infelizmente os relacionamentos duradouros uma hora precisam ser encerrados e nesses casos é a própria vida que se encarrega de cortar os laços. É nessa ruptura que está a força dramática de Longe Dela, elogiado trabalho de estréia como diretora da atriz canadense Sarah Polley que também assina o roteiro. Ela não tem nenhum grande sucesso de público em seu currículo, sendo mais conhecida por sua atuação no terror Madrugada dos Mortos, porém, ela já participou de bons títulos independentes e foi dirigida por cineastas de renome, acumulando assim experiências diferenciadas sobre o ato de filmar, preferindo muito mais destacar uma troca de olhares sinceros a um texto rebuscado que poderia não exprimir tudo o que ela gostaria de dizer. É seguindo esse método que Sarah conseguiu cativar a crítica que certamente colaborou para que seu primeiro trabalho atrás das câmeras viesse a participar de festivais e premiações, chegando a festa do Oscar concorrendo nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz para a veterana Julie Christie que também conquistou merecidamente o Globo de Ouro de atriz dramática pelo papel de Fiona Anderson, uma senhora que vive um casamento feliz há mais de quatro décadas com Grant (Gordon Pinsent), responsável pela visão que temos dos fatos que levou este casal a se afastar. Suas vidas tranquilas são drasticamente alteradas quando sua esposa passa a apresentar sintomas constantes de perda de memória. Grant desconfia que ela está sofrendo do mal de Alzheimer, mas Fiona não acredita até o momento em que passa a se informar mais sobre a doença e percebe que aos poucos o seu problema não tiraria apenas a sua qualidade de vida, mas também a do companheiro de tantos anos. Sendo assim, ela decide ser internada em uma clínica para pessoas com problemas degenerativos. Uma das regras do local é que os pacientes não podem receber visitas durante o primeiro mês para facilitar a sua adaptação, mas quando Grant finalmente consegue reencontrá-la vem a decepção, pois ela já não o reconhece mais. Fiona está agora muito próxima de Aubrey (Michael Murphy), outro paciente da instituição, o que faz com que Grant tenha que se contentar com sua nova condição de amigo ao mesmo tempo em que tenta ajudá-la a se lembrar do passado e de quem ele realmente é. A chance de se reaproximar de seu grande amor é quando a esposa de Aubrey, Marian (Olympia Dukakis), o retira subitamente da instituição também temendo a aproximação do marido e de Fiona.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

PLANO DE VOO

NOTA 7,0

Jodie Foster segura a atenção em
suspense claustrofóbico tenso
do começo ao fim requentando
clichês que intrigam o espectador
Tramas de suspense desenvolvidas dentro de aviões costumam render bons filmes (excluindo obviamente coisas do tipo Serpentes a Bordo), talvez por conta do ambiente claustrofóbico que não raramente sufoca tanto os espectadores quanto os personagens, ainda que muitos evitem produções do tipo por medo desse tipo de viagem ou justamente por viverem na ponte aérea. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, filmes assim sumiram do mercado, mas não demoraram mais que três anos para voltarem com força total. Um dos primeiros a ser lançado após o jejum foi Plano de Voo, que também marcava a volta de Jodie Foster às grandes bilheterias. O diretor alemão Robert Schwentke, no entanto, quis fugir do lugar comum e não colocou a turbulência como vilã do longa e também evitou tocar na ainda recente ferida da História americana (quer dizer, tocou levemente, não tinha como resistir a tentação). O roteiro de Peter A. Dowling e Billy Ray coloca a atriz duas vezes vencedora do Oscar para dar vida à Kyle Pratt, uma mulher que no momento está sofrendo com a recente morte de seu marido decorrente de um acidente doméstico. Junto com a filha Julia (Marlene Lawston), de apenas seis anos, ela está fazendo uma viagem de Berlim à Nova York para levar o caixão do marido para ser velado e enterrado junto a sua família. O início pode parecer um pouco confuso pela falta de informações que temos sobre as personagens, mas tais detalhes vão sendo oferecidos conforme as conversas que surgem dentro do avião, uma forma do espectador criar empatia com os coadjuvantes, alguns de suma importância para a trama enquanto outros nada mais fazem que embaralhar a história mais adiante.  Mãe e filha acabam cochilando durante a viagem, mas quando Kyle acorda se desespera ao não ter mais a garotinha ao seu lado. Nenhum funcionário ou membro da tripulação tem alguma pista de onde ela estaria, pior, sequer viram ela embarcando ou sentada ao lado da mãe. Com a aeronave em pleno voo, ela não teria para onde fugir, o que leva as suspeitas de que a menina teria sido sequestrada e escondida em algum compartimento da nave. Ou teria sido tudo fruto da mente da recente viúva que chegou a imaginar estar acompanhada de uma criança? O longa então é dedicado as inúmeras tentativas desta mulher provar que não está louca ao mesmo tempo em que tenta encontrar a desaparecida.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A CASA SILENCIOSA

NOTA 2,5

Praticamente fazendo uma cópia do
uruguaio A Casa, repetindo erros e sem
inovação alguma, longa comprova a
falta de criatividade de Hollywood
No Brasil é comum o ditado que diz que na TV nada se cria e tudo se copia, mas tal máxima também cai como uma luva à Hollywood. Produtores da Meca do cinema estão sempre de olho no que está sendo produzido fora dos EUA à procura de bons roteiros que possam gerar refilmagens. Muitos filmes recentes estão ganhando novas versões para agradar ao público ianque que detesta dublagens ou legendas, mas também para suprir a falta de criatividade e até fazer economia de tempo e dinheiro afinal deve sair bem mais em conta apostar numa cópia de algo já testado e aprovado do que apostar em uma ideia original que possa fracassar. Baseado em um caso verídico ocorrido na década de 1940 envolvendo misteriosos assassinatos, A Casa Silenciosa foi lançado apenas dois anos depois do uruguaio A Casa ter gerado certo burburinho e chamado a atenção em festivais como Cannes e Sundance. A obra original tinha a seu favor a duvidosa publicidade de ser uma narrativa totalmente em plano sequência oferecendo quase uma hora e meia de puro terror psicológico. Utilizando o mesmo artifício, a versão americana segue a risca a fórmula do filme latino buscando gerar sustos explorando o medo do desconhecido através das percepções da protagonista Sarah (Elizabeth Olsen – irmã mais nova e bem mais talentosa das famosas gêmeas Ashley e Mary-Kate Olsen), uma jovem que acompanha o pai John (Adam Trese) e seu tio Peter (Eric Sheffer Stevens) até a antiga casa de campo de sua família. A propriedade está abandonada há anos e até foi invadida por vândalos, assim os donos decidiram arrumá-la e colocar à venda, porém, os irmãos se desentendem e Peter resolve ir passar a noite fora.

domingo, 14 de dezembro de 2014

PARENTES PERFEITOS

 Nota 6,5 Entre o pastelão e a crítica, longa é previsível reforçando valores e laços familiares

Ser independente, bem sucedido e ter ao lado uma bela e amável mulher. Esse é o sonho de praticamente todo o homem e também o que norteava a vida de Richard Clayton (Ron Livingston), o protagonista da comédia Parentes Perfeitos. Formado na área de psicologia e afins, o rapaz é famoso por suas palestras, programa de rádio e seu livro de autoajuda que está na lista dos mais vendidos. Para completar sua felicidade, faltam apenas três semanas para trocar alianças com sua noiva, a amorosa e paciente Ellen (Neve Campbell). Tudo ia bem até que em uma reunião familiar seu irmão Mitch (Bob Odenkirk) lhe faz uma revelação bombástica: Richard é adotado! Criado pelo refinado casal Arleen (Christine Baranski) e Doug Clayton (Edward Hermann), o psicólogo sempre teve de tudo do bom e do melhor, o que o tornou um pouco arrogante, mas mesmo assim ele faz questão de buscar suas raízes. Com a ajuda de um detetive particular, ele descobre que seus pais biológicos carregam um sobrenome francês, o que alimenta suas fantasias que seria filho de um casal de intelectuais ou algo do gênero. Quando finalmente encontra seus parentes para passarem um fim de semana juntos, Richard tem uma desagradável surpresa. Agnes (Kathy Bates) e Frank Estercot (Danny DeVito) formam um casal vexatório. Eles são caipiras ao extremo, mal educados, destemperados e até na diferença de altura chamam a atenção, os tipos perfeitos para virarem alvos de piadas, mas na verdade são eles que involuntariamente tiram um sarro dos outros.

sábado, 13 de dezembro de 2014

O JOGO DOS ESPÍRITOS

Nota 0,5 Bom argumento é perdido apoiando-se na fórmula e erros das fitas de seriais killers

Você já ouviu falar no jogo do copo para evocar espíritos? Tentação entre jovens que não tem nada para fazer, não se sabe se ao certo se essa brincadeira realmente tem o poder de abrir uma passagem de comunicação com os mortos, mas o fato é que toda a lenda criada em torno dela teria potencial para um bom filme de terror, pena que o diretor Marcus Adams desperdiçou a chance de explorá-la logo em sua estreia nas telonas e seu O Jogo dos Espíritos nada mais é que uma variação preguiçosa e tediosa de filmes de seriais killers. Basta trocar o assassino mascarado por uma entidade do mal que passa a perseguir um grupo de jovens acéfalos que quando não estão gritando ou fazendo caras e bocas de espanto travam diálogos com a mesma profundidade de um pires. A trama tem um prólogo passado no Marrocos em 1979 quando num ritual satânico fora evocado o demônio árabe Djinn que segundo a literatura ocultista é um espírito do fogo. A cerimônia terminou de forma catastrófica para seus participantes que foram atacados pela tal entidade e acabaram com letais queimaduras pelo corpo. O espectro foi esconjurado e ficou enclausurado por muito tempo até que 23 anos depois em Londres foi novamente evocado por um grupo de jovens embriagados e inconsequentes. Certa noite Lucy (Marsha Thomason), que conhece um pouco sobre teorias do além, propõe aos amigos Annie (Melanie Gutteridge), Spense (James Hillier), Stella (Lara Belmont), Webster (Lukas Haas), Joe (Mel Raido), Rob (Joe Absolom) e Liam (Alec Newman) que façam a experiência de manipular uma tábua Ouija, um tabuleiro com letras improvisadas e dispostas em forma de círculo. A ideia é que todos os participantes apoiem um dedo em um copo de vidro e se concentrem em uma corrente para abrir um portal de comunicação com o mundo dos mortos. Começam a ser lançadas perguntas e os espíritos respondem guiando o copo letra por letra até formar palavras ou frases curtas. No caso, logo na primeira pergunta a resposta é que todos eles serão mortos, o bastante para Liam entrar em desespero e tirar seu dedo do jogo, o que reza a lenda deixa a oportunidade do espírito contatado ficar livre no mundo dos vivos.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A MORTE CONVIDA PARA DANÇAR

NOTA 2,0

Supostamente um remake de fita
da década de 1980, longa apenas
reaproveita título para nova história,
ou melhor, para requentar clichês
Na época do colégio muitos jovens sonham com o baile de formatura e a cultura americana através do cinema e da televisão propagou pelo mundo todo a ideia de que o evento é como um rito de passagem para a maioridade simbolizando o momento de assumir responsabilidades, tomar importantes decisões, enfim, tornar-se um adulto com A maiúsculo. Todavia, para a protagonista de A Morte Convida Para Dançar a tão aguardada noite acaba se tornando um pesadelo. Donna Keppel (Brittany Snow), após muito tempo se se divertir, aguardava ansiosamente pela festa de fim de ano da escola e planejava aproveitá-la ao máximo ao lado do namorado Bobby (Scott Porter) e de seus amigos Claire (Jessica Stroup), Lisa (Dana Davies), Ronnie (Collins Pennie) e Michael (Kelly Beatz), porém, tudo dá errado graças ao seu passado que volta a lhe atormentar. No início do colegial a garota teve aulas com Richard Fenton (Johnathon Schaech), um professor que se apaixonou por ela de maneira obsessiva, mas que não teve seu amor correspondido. Ele então passou a persegui-la achando que deveria a proteger de tudo e de todos que pudessem lhe causar algum mal, inclusive afastá-la de seus próprios pais que ele assassina friamente. O roteiro de J. S. Cardone, do suspense juvenil O Pacto, começa enfocando justamente esse brutal crime hediondo, o que deveria instigar o espectador a descobrir quais as consequências deste episódio. O problema é que a trama apenas requenta clichês de outros filmes de seriais killers, copiando inclusive seus defeitos não deixando de lado nem mesmo a figura do detetive metido a esperto, mas que no fundo é um idiota sem função na trama afinal qual a graça de uma produção do tipo quando já sabemos desde o início a identidade do vilão? Bem, nas mãos de gente talentosa isso não seria um empecilho, porém, sob os cuidados de despreparados a trama resume-se a uma bobagem que nem mesmo um clima adequado de tensão consegue estabelecer.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O CHEIRO DO PAPAIA VERDE

NOTA 10,0

Drama passado nas castigadas terras
do Vietnã mostra o amadurecimento
de uma jovem durante tempos difíceis,
mas que não perdeu sua inocência e sonhos
O cinema oriental nos últimos anos conseguiu extrapolar as barreiras do cult e chegar ao grande público graças a grande projeção de obras como O Tigre e o Dragão, Herói, O Clã das Adagas Voadoras e Memórias de Uma Gueixa, porém, hoje até é possível observar um leve retrocesso na procura de filmes asiáticos por parte dos espectadores, sendo que a maior parte das obras do tipo fica restrita ao circuito alternativo de exibição ou são lançadas diretamente em DVD. Na década de 90, os filmes produzidos do outro lado do mundo chegavam até nós graças aos prêmios e indicações que conquistavam, o que reforçavam sua publicidade, mas ainda assim a procura não era suficiente. Felizmente, sempre existiram distribuidoras com o intuito de levar raridades aos países mais distantes e foi assim que alguns cinéfilos ficaram conhecendo a cultura dos povos dos olhinhos puxados. Entre alguns dos títulos lançados na época encontramos algo inusitado, O Cheiro do Papaia Verde, um filme poético passado no Vietnã. Sim, o país eternamente associado à imagem das atrocidades de uma guerra também faz cinema, aliás, com conteúdo e imagens deslumbrantes. Na realidade esta é uma produção franco-vietnamita escrita e dirigida por Tran Anh Hung. Dividindo os elogios entre a França e o Vietnã, a obra participou de festivais e ganhou alguns poucos prêmios, mas o suficiente para transformá-lo em um título cultuado, ainda mais após a indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A obra segue a receita das grandes produções de estilo oriental. A estética, o texto e o ritmo parecem ser comandados por uma única pessoa de tão perfeita que é a harmonia entre eles. Trilha sonora tranquila, cores sutis, fotografia impecável e interpretações que nos fazem acreditar realmente que uma imagem vale mais que mil palavras. No mesmo estilo de seu contemporâneo Como Água Para Chocolate, aqui a comida é um adorno essencial para falar de relacionamentos, o que explica o seu curioso título.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

STIGMATA

NOTA 4,0

Com tema polêmico, longa
tenta se equilibrar entre sérias
discussões sobre fé e sustos
fáceis para prender atenção
Explorar questões sobrenaturais sempre rendeu muito dinheiro à indústria do cinema, principalmente para o norte-americano, mas quando se pretende lidar com o tema aliado aos mistérios que envolvem a religião católica a coisa complica. Tratar de assuntos bíblicos em filmes que na verdade pretendem provocar sustos é como mexer numa ferida e no caso de Stigmata literalmente é o que acontece. A trama escrita por Tom Lazarus e Rick Romage começa em uma cidade no sudoeste do Brasil chamada Belo Quinto (vilarejo fictício e que nos envergonha ao mostrar nosso país com ares de terras mexicanas ou de algum lugar parado no tempo), local que recebe a visita do padre Andrew Kiernan (Gabriel Byrne). Ele foi mandado pelo Vaticano para investigar o caso de uma igreja que abriga a estátua de uma santa que verte lágrimas em sangue. Curiosamente, o estranho fato começou a ocorrer no dia em que o padre responsável pela basílica faleceu. Enquanto Kiernan fotografava a escultura um garoto furtou um rosário que estava junto ao corpo do falecido e vendeu o artefato para uma desavisada turista que o envia de presente para Frankie Paige (Patricia Aquette), sua filha que vive em Nova York. Ela é uma jovem cabeleireira que leva uma vida pacata, mas desde que recebeu o tal presente uma série de estranhos acontecimentos começaram a lhe perturbar. Em pouco tempo ela passa a ser vítima de estigmas, fenômeno que provoca feridas idênticas às que marcaram a crucificação de Jesus Cristo e que supostamente acometem algumas pessoas de uma hora para a outra. Seriam sinais de dádiva ou de algo demoníaco? Para Frankie tais chagas representam um terrível pesadelo que desvirtua seu cotidiano completamente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

SOMBRAS DE UM DESEJO

NOTA 6,0

Inspirado em suspense coreano,
versão americana tenta fugir da
temática espiritual, mas outros
clichês tornam a obra previsível
Devem existir espalhados pelo mundo milhares de filmes praticamente desconhecidos, mas muitos deles provavelmente podem surpreender e serem bem melhores que alguns títulos cheios de banca lançados por grandes estúdios. Contudo, é triste constatar que a maioria até conta com boas premissas, mas perde-se no meio do caminho, ainda que existam produções como o suspense Sombras de um Desejo que não chegam a ser um completo engodo. Não é revolucionário e tampouco algo para marcar a vida de alguém, aliás, para os mais críticos deve parecer muito mais uma colcha de retalhos que alinhava situações previsíveis e já vistas em tantas outras produções do tipo, porém, este modesto filme merece certo reconhecimento por cumprir bem seu objetivo de deixar o espectador intrigado e entretido por pouco mais de uma hora. A trama roteirizada por Michael Petroni é protagonizada por Sarah Michelle Gellar que parece nunca encontrar seu espaço no meio cinematográfico, ainda que tenha participado de projetos visados como Segundas Intenções e Scooby-Doo e sua continuação. De qualquer forma ela parece se contentar com produtos menores e convence na pele de Jess, uma jovem advogada que leva uma vida perfeita ao lado do marido Ryan (Michel Landes) até o dia em que o problemático e ex-presidiário Roman (Lee Pace), seu cunhado, chega para passar uns dias com eles, mas sem data para ir embora. Com o novo hóspede, a harmonia da casa é quebrada, Jess se sente desconfortável com os olhares indiscretos de outro homem, mas entende que o marido se sente na obrigação de ajudar o irmão. As coisas se complicam drasticamente quando estes dois homens sofrem um grave acidente de carro e ambos entram em coma. O tempo passou e Roman reage e acorda, mas surpreendentemente assumiu a personalidade de Ryan, este que ainda encontra-se imóvel e dependente de sedação. Seria uma confusão mental passageira ou um golpe do rapaz? Desorientada, Jess aceita receber a contragosto o cunhado em sua casa, pois é a única parente próxima, mas desconfia de seu problema de personalidade. O fato é que pouco a pouco Roman começa a dar indícios de que conhece detalhes íntimos da vida de casado de seu irmão, o que leva a advogada a admitir que de alguma forma inexplicável o espírito ou a memória de seu marido tenha sido incorporado por outro, ainda que ele não estivesse oficialmente morto.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

ANTES DO ANOITECER

NOTA 8,5

Cinebiografia de poeta cubano
que sofreu com autoritarismo do
governo de Fidel Castro é aula
de história e de cinema cultural
Existe um grande número de pessoas no mundo todo que fazem ou fizeram a diferença através de seus atos, sejam eles voluntários, de rebeldia ou através de suas manifestações artísticas, mas poucas dessas histórias ficam conhecidas fora de seu país de origem. Ainda bem que tem o cinema para enaltecer os nomes delas, por outro lado, é uma pena que muitas vezes tais homenagens só despertem a atenção de um seleto grupo de espectadores, até por que geralmente elas já chegam até nós brasileiros rotuladas como produções elitizadas. É fato que a maioria das cinebiografias feitas fora dos padrões hollywoodianos (aquelas que tentam escamotear o máximo possível o sofrimento dos protagonistas e caprichar nas conclusões edificantes) realmente não são de fácil compreensão e as vezes até mesmo de difícil digestão como é o caso de Antes do Anoitecer, drama que sintetiza em pouco mais de duas horas a história de vida, profissional e de batalhas contra preconceitos do poeta e escritor cubano Reinaldo Arenas (Javier Barden) que sentiu na pele e no coração as dificuldades impostas por um regime governamental autoritário que proibia as pessoas de viverem da maneira que achavam mais adequado e também fiscalizava as manifestações culturais. Ele foi um homem que viveu exilado boa parte de sua curta existência, de certa forma mesmo quando estava em liberdade, e amando profundamente suas raízes, sua terra, sua gente e seus ideais. Desde a infância sofrida em região campestre, nos anos 40, já se mostrava sensível e que tinha intimidade com as palavras, o que causou repulsa em seus familiares e o levou a fugir de casa para se unir aos rebeldes do período pré-revolucionário de Cuba. No entanto, seus planos acabam frustrados e ele é obrigado a amadurecer diante das dificuldades que a vida lhe impõe no caminho. Na juventude despertava olhares atentos de meninas e meninos, o que para ele era algo natural e pouco relutou quanto a esses desejos assumindo sua homossexualidade publicamente, decisão que só veio a agregar negativamente a seu perfil perante a sociedade, já que os intelectuais eram vistos como seres desvirtuados que através dos seus trabalhos tentavam desviar a atenção dos populares do caminho correto, ou seja, as regras impostas pelo governo comunista de Fidel Castro que vigiava ferrenhamente os passos dos desencaminhados. 

domingo, 7 de dezembro de 2014

A FAMÍLIA BUSCAPÉ

Nota 7,5 Embora não siga à risca a série de TV original, comédia diverte com seus clichês 

Caipiras, desbocados, ingênuos, atrapalhados, bondosos, decentes e divertidos. Que atire a primeira pedra aquele que nunca se sentiu um pouquinho parecido com algum membro do clã protagonista de A Família Buscapé ou jamais vivenciou alguma situação em que se sentiu um peixe fora d’água ou deu uma bola fora. É comum em momentos descontraídos as pessoas se referirem a seus familiares usando o título desta comédia, um costume que começou bem antes do filme ser lançado. O longa é baseado no seriado de TV homônimo (nos EUA chamado de "The Beverly Hillbillies") que fez muito sucesso entre os anos 60 e 70. A premissa do filme é a mesma da série. A diretora Penelophe Spheeris faz humor com situações previsíveis de um simpático e simplório grupo acostumado a vida sem luxo do campo tentando se adaptar ao agitado cotidiano de uma cidade grande, com o diferencial que eles agora têm muito dinheiro e são um prato cheio para golpistas e bajuladores. A família Clampett leva uma vida calma e simples na roça, mas uma reviravolta está prestes a acontecer para eles e mudar tudo da noite para o dia. O patriarca Jed (Jim Varney) um dia vai caçar em suas terras e descobre algo inesperado. Ao tentar acertar em um animal, ele acaba atirando no chão e um gêiser borbulhante de petróleo bruto surge. Agora milionário, o simplório homem é convencido pelo senhor Milburn Drysdale (Dabney Coleman) a deixar que ele cuide de seus negócios em seu banco e que toda a sua família se mude para a agitada cidade de Beverly Hills. Desde o início da mudança o clã se mete em muita confusão para se adaptar ao ritmo e novidades da cidade grande, mas os contratempos do dia-a-dia não são nada perto do que está por vir. Ingênuos, eles caem na conversa de Laura Jackson (Lea Thompson), que se apresenta como professora de boas maneiras, justamente o que a estabanada Elly May (Erika Eleniak) precisa, mas na realidade essa refinada mulher tem um plano com Woodrow Tyler (Rob Schneider) para roubar os Clampetts. Ainda bem que a vovó Granny (Cloris Leachman) e Jane Hathaway (Lily Tomlin), funcionária exemplar do senhor Drysdale, são bem vivas e não se deixam levar pela simpatia da golpista. O roteiro de Lawrence Konner, Mark Rosenthal, Jim Fisher e Jim Staahl é calcado nos argumentos dos primeiros episódios do seriado, abrindo mão de um vasto arsenal de ideias, provavelmente imaginando futuras continuações.

sábado, 6 de dezembro de 2014

VAMPIROS DO DESERTO

Nota 2,0 Produção moderninha e teen sobre vampiros é trash do primeiro ao último minuto

Os vampiros são figuras míticas, sinistras e enigmáticas que aguçam a imaginação de muita gente e por isso mesmo suas histórias já inspiraram diversos filmes, desde os de estilo mais clássico até verdadeiras loucuras como ter o famoso Conde Drácula assombrando no espaço ou dentuços que literalmente preferem negar o sangue do dia-a-dia. Entre o trash e o luxuoso, o épico e o moderno, a figura vampiresca já sofreu inúmeras variações físicas e de personalidade, só o que não muda é o seu instinto de morte, sarcasmo e o poder de sedução (ok, a saga Crepúsculo quebrou as regras), mas às vezes nem mesmo o mais cruel representante das temidas criaturas da noite salva uma produção, ainda mais quando ela já nasce com todos os requisitos básicos para ser classificada como trash como é o caso de Vampiros do Deserto. Não há muito que se falar sobre essa produção fraca e que faria qualquer vampiro tentar cometer suicídio de tanta vergonha. Eles já estão mortos, mas mesmo assim tentariam se matar novamente. Na trama, Sean (Kerr Smith) está indo de Los Angeles para Miami em uma tranquila viagem de carro, mas tudo na sua vida muda quando, após relutar, dá carona para Nick (Brendan Fehr). O rapaz é um caçador, mas suas presas não são animais e sim vampiros, pois ele mesmo já foi contaminado e a única forma de se livrar deste mal é matando o chamado "Abandonado", o responsável por transformá-lo em um ser sedento por sangue. Nick está no momento no encalço de alguns jovens vampiros que se alimentam de viajantes imprudentes. Eles são comandados por Kit (Johnathon Schaech), que pode ser o responsável indireto pela contaminação do jovem caçador que está conseguindo retardar o processo de vampirismo graças a um coquetel de remédios. Durante a viagem, Sean e Nick encontram Megan (Izabella Miko), uma jovem que também foi contaminada. Eles tentam salvá-la, mas Sean inesperadamente também é mordido. Agora, o trio precisa correr contra o tempo para matar Kit e se salvarem, porém, isto precisa ser feito em solo sagrado e os vampiros estão dispostos a acabar com quantas vidas forem necessárias para detê-los. E pensar que todo esse enredo é bolado em cima de uma lenda do tempo das Cruzadas, porém, ela fica só numa explicação verbal a certa altura do longa, não existindo uma cena sequer que a ilustre.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O FANTÁSTICO SR. RAPOSO

NOTA 8,0

Diretor especialista em
temáticas sobre famílias
excêntricas leva seu olhar
crítico para a animação
Os primeiros trabalhos da marca Disney encantavam adultos e crianças com suas imagens coloridas à mão e histórias clássicas. Depois Hanna-Barbera driblou a falta de recursos recorrendo a técnicas que movimentavam o mínimo possível os personagens em cenários estáticos, geralmente figuras que cativavam o público mesmo tendo as vezes atitudes dignas de anti-heróis. O campo de animação então foi ampliado e os mais variados tipos de desenhos foram surgindo até que a animação totalmente computadorizada chegou para dominar o mercado do gênero no século 21, principalmente porque agora os espectadores mais velhos estavam até mais interessados em produções do tipo que o próprio público-alvo. Ainda bem que existem cineastas com crédito na praça para poderem inovar, ou melhor, recorrer as técnicas do passado para conseguir um resultado magnífico e original em um cenário onde a mesmice impera. Wes Anderson é bastante famoso entre os adeptos de produções alternativas e cults e construiu sua carreira em cima de uma temática constante: as relações familiares entre pessoas excêntricas e problemáticas. Sempre recrutando um elenco recheado de nomes famosos e talentosos, em 2009 resolveu inovar utilizando apenas as vozes dos intérpretes, como George Clooney e Meryl Streep, mas deixando a tela livre para as peripécias de personagens criados e movimentados através do stop-motion, a mesma técnica de animação com massinha dos sucessos A Fuga das Galinhas e A Noiva Cadáver. O diretor trouxe seu olhar dissecador e crítico, já conhecido por obras como Os Excêntricos Tenembaums e Viagem à Darjeeling, de forma mais branda para o simpático e inteligente O Fantástico Sr. Raposo, produção com uma plasticidade magnífica e chamativa, mas cujo conteúdo pode não entreter as crianças ou nem interessá-las. É curiosa a opção de Anderson em trabalhar com uma técnica quase em extinção e que seria estranha à sua filmografia, mas de certa forma faz sentido sua escolha. É comum em seus filmes os atores ficarem estáticos e com olhar paralisado como se esperassem uma ordem para se movimentarem. Na animação, os humanos são trocados por raposas que agem de forma estranha, mas ainda assim irresistível.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

MORTE NO FUNERAL (2010)

NOTA 6,0

Refilmagem americana de comédia
inglesa pode divertir quem não
conhece a original, mas obra perde
pontos por limitar-se a fazer uma cópia
Antigamente eram muito comuns aquelas comédias em que durante reuniões familiares a câmera passeava ocultamente entre os diversos espaços da ambientação a fim de bisbilhotar os momentos mais íntimos e vexatórios dos convidados e anfitriões até culminar em um desfecho em que as diversas tramas se fundiam para o pronunciamento da mensagem-clichê de que família é tudo, é preciso esquecer as mágoas e todo esse blá-blá-blá meloso. Para fazer humor essa tática é um prato cheio, mas a fórmula nem sempre é bem aplicada e hoje em dia ela sobrevive em Hollywood graças às comédias feitas com elenco predominantemente negro. Praticamente todo ator afrodescendente bem-sucedido que construiu carreira no cinema ianque tem ao menos um exemplar do tipo em seu currículo, geralmente produções que marcam suas principais experiências profissionais. Vendo por esse lado, por que então atores consagrados toparam participar do remake de Morte no Funeral? Comédia de humor negro de origem inglesa e que fez sucesso no circuito alternativo de vários países, não havia uma justificativa plausível para a realização de uma versão americana, ainda mais depois de apenas três anos do lançamento do filme original. Existe a desculpa que o público da terra do tio Sam não curte legendas e tampouco dublagens (um doce para quem revelar qual a grande diferença entre o inglês usado na Inglaterra e o praticado nos EUA), mas ao que tudo indica é que os profissionais hollywoodianos não suportam ver o sucesso de outro país naquele que antes era seu terreno seguro. Filmes-pipoca são símbolos da cultura norte-americana e deve ser um baque e tanto quando o produto alheio é melhor. O ator Chris Rock, em parceria com Aeysha Carr, tratou de adaptar o roteiro original de Dean Craig, mas basicamente só mudou os nomes dos personagens e nem se deu ao trabalho de procurar outro ator para viver um tipo-chave da trama. Aaron (Rock) é um rapaz íntegro e responsável que está apreensivo para a cerimônia de funeral do pai. Como filho mais velho ele se encarregou de tudo, inclusive redigir um belo discurso para homenageá-lo, enquanto seu irmão Ryan (Martin Lawrence), um escritor de sucesso e que esbanja dinheiro com futilidades, parece pouco ligar para a perda da família.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

EM UM MUNDO MELHOR

NOTA 8,5

A intolerância e a violência
é discutida por duas vias
diferentes, porém,
intimamente conectadas
Todos sabem que vivemos em uma época de intolerância, individualismo e nos acostumamos a conviver com a violência e o ódio. Falar que as coisas vão melhorar e que o ser humano precisa respeitar seu semelhante viraram frases de uso religioso ou de praxe para serem espalhadas na virada de ano. A dinamarquesa Susanne Bier procurou discutir a utopia da paz do mundo tratando o problema em duas vertentes: dentro de um restrito núcleo e outro mais universal. Não se pode esperar que a população mundial mude seu comportamento se cada um não realizar a sua parte e procurar mudar também. Em Um Mundo Melhor é uma obra que pelo título pode vender seu peixe de forma errada. Não é uma draminha edificante qualquer. Seu conteúdo, embora transmita mensagens aos espectadores, pode não ser do agrado de grandes platéias. Um dos protagonistas, por exemplo, confia que um dia os seres humanos passarão a ser mais corretos, respeitosos e éticos, mas sabe que o caminho para chegarmos a esse paraíso na Terra não é fácil e tampouco rápido. A trama nos apresenta à Anton (Mikael Persbrandt), um médico que trabalha em um campo de refugiados na África, mas quando pode ter folga volta para seu país natal, a Dinamarca. Ele tem dois filhos com Marianne (Trine Dyrholm), de quem está se separando, embora contrariado. Elias (Markus Ryggard), seu filho mais velho, sofre com a perseguição no colégio de um garoto maior que ele que se aproveita para humilhá-lo como pode. As coisas mudam quando ele conhece Christian (William Johnk Nielsen), um menino que perdeu a mãe recentemente e agora vive com o pai, Claus (Ulrich Thomsen). Ele acaba de ingressar no mesmo colégio que Elias, mas não se comporta como um novato na turma. Geralmente os recém-chegados se mostram tímidos e um ótimo alvo para chacotas e brincadeiras cruéis, mas com ele a banda toca de outra maneira. Após defender seu novo amigo em uma confusão, Christian é agredido e como vingança dá uma surra no agressor e o ameaça com uma faca. Assim, os garotos criam um forte laço de amizade, mas um episódio com possíveis consequências trágicas pode colocar essa relação em risco assim como suas vidas.

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