segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

PÂNICO NA FLORESTA (2003)

NOTA 4,0

Basicamente repetindo clichês e
erros de filmes de terror teen, longa
escamoteia suas falhas com clima
envolvente e violência gráfica intensa
Grupo de jovens incautos vai parar em um local aparentemente longe de tudo e de todos, mas logo vão descobrir que não estão sozinhos e terão que correr contra o tempo para fugir de uma trupe de sádico assassinos. Mudam os cenários, os atores e a caracterização dos psicopatas, mas tal argumento é o que sustenta praticamente dez em cada dez filmes para adolescentes e Pânico na Floresta não foge à regra. O título genérico e que pega carona descaradamente na produção que revitalizou o gênero do terror já mostra que criatividade não é o forte desta fita que começa com um manjado prólogo envolvendo um casal de alpinistas que já entrega tudo que podemos esperar. Depois somos apresentados ao protagonista, o jovem Chris Flynn (Desmond Harrington), um estudante de medicina que está a caminho de uma entrevista de emprego e dirige por uma rota segura, mas um acidente na pista o faz tomar outro rumo. Ele vai até um obscuro posto de gasolina à procura de um telefone e lá descobre um mapa que indica uma estrada alternativa em meio à mata cerrada. Antes tivesse aguardado a liberação da pista e optado pelo trajeto tradicional. Na mesma estrada remota ele encontra um grupo de jovens que tiveram os pneus do carro furados por um arame farpado largado no meio do caminho. Jessie (Eliza Dushku) estava deprimida e seus amigos Evan (Kevin Zegers), Francine (Lindy Booth), Scott (Jeremy Sisto) e Carly (Emmanuelle Chriqui) queriam lhe proporcionar uma viagem para melhorar seu astral, mas tudo parece conspirar contra. Chris acaba batendo na traseira do veículo deles e estando todos literalmente em um mato sem cachorro o jeito era unir forças para tentar pedir ajuda, todavia, eles nem imaginam que tenham companhia na floresta. A certa altura o grupo se divide e alguns deles se deparam com uma cabana cercada de automóveis deteriorados. Dentro da choupana, muitas armas de caças, sujeira e pedaços de carne humana por todos os lados. Eis a única novidade (se é que podemos considerar assim) que o longa trás em relação a tantos outros filmes de slasher. Os vilões não são apenas frios psicopatas, mas canibais desfigurados frutos de relações incestuosas, quase monstros, porém, nem tão irracionais quanto parecem. Ágeis, estratégicos e íntimos de tudo quanto é instrumento que possa ferir, eles seriam as figuras mais interessantes do longa. Ou quase isso.

Sob pesada caracterização e limitando a comunicação através de grunhidos, os atores Julian Richings, Garry Robbins e Ted Clark, cujos personagens respectiva e sugestivamente são batizados de Três Dedos, Dente de Serra e Um Olho (nomes citados apenas nos créditos finais), infelizmente não tem seus potenciais aproveitados adequadamente. Certamente inspirado por clássicos do terror dos anos 1970 como O Massacre da Serra Elétrica e Quadrilha de Sádicos, o roteiro de Rob Schmidt peca por não trazer um passado substancial aos seus vilões. Embora os créditos iniciais sejam ilustrados por uma série de notícias de jornais relatando o desaparecimento de jovens em uma floresta entrecortadas por manchetes que fazem alusão a deformidades e doenças oriundas de má formação fetal, pouco sabemos das motivações destes personagens. Teriam sido abandonados na floresta ainda crianças? Foram criados por canibais e masoquistas? Eles próprios deram fim nos seus pais? Sem um mínimo de informação fica parecendo que eles apenas caçam e detonam suas vítimas como algum tipo de hobby para passar o tempo ocioso enquanto a morte não chega. E eles morrem? Como Jason Vorhees de Sexta-Feira 13 entre tantos outros monstrengos eles parecem imortais. São baleados, apunhalados profundamente com machados e afins e até ficam com os corpos em chamas, mas quando menos se espera estão de pé novamente. Se cumprem a função de amedrontar os protagonistas e o público, o que de fato acontece, suas presenças já estão justificadas deve pensar assim o roteirista. Apesar de uma série de furos na trama, clichês e situações inverossímeis, há de se elogiar pelo menos um ponto do roteiro. Pelo volume de carros abandonados na clareira onde residem, há muito tempo os canibais praticam crimes impunemente e alguns podem se questionar como a região não despertou a atenção das autoridades para investigações mais profundas, porém, a julgar pelo policial que surge a certa altura da história e outro que aparece em uma cena-surpresa nos créditos finais dá para ver que os bandidos podem ser deformados, mas muito mais inteligentes e audaciosos que os fardados.

Problemas com o roteiro à parte, Schmidt preocupou-se em recuperar a atmosfera dos filmes de terror setentistas calcados em sadismo e antropofagia, claro que dentro das possibilidades da produção. É certo que não temos aqui as mensagens subliminares de protesto contra guerras, política e a barbárie humana, o que afasta qualquer possibilidade de o longa vir um dia a ser reconhecido como algo relevante, mas como entretenimento até que consegue cumprir seu papel com certo sucesso. Desde o início sabemos quem sobreviverá, mas o que importa não é como a história acaba, mas sim como é narrada. A edição ágil e a violência impregnada ajudam a contornar problemas como os diálogos mal feitos e as interpretações ora exageradas ora apáticas do jovem elenco, mas quando passa a adrenalina é que paramos para analisar mais profundamente os furos. Uma sequência em especial que deveria ser o ápice de Pânico na Floresta acaba revelando suas fragilidades. Quando três dos adolescentes estão isolados no alto de uma torre de vigia a noite e observam a distância seus algozes caminhando pela floresta com tochas de fogo com um desejo de caça insaciável, é quase possível sentir o misto de medo e alivio dessa turma, porém, o clima é quebrado por um clichê. Um maldito e velho rádio de comunicação denuncia a posição deles que então se veem obrigados a fugirem de um incêndio proposital. Eles se atiram em direção às copas das árvores, mas não sofrem praticamente escoriações e mesmo cansados e na escuridão conseguem transitar entre os galhos com total desenvoltura, no entanto, o diretor não dá brecha para o espectador pensar nestes detalhes e trata de leva-lo por um passeio pelo matagal através de suas trucagens e ângulos de câmera. Aliás, a fotografia merece elogios ao mostrar a beleza do cenário natural em contraponto a violência gráfica, principalmente as tomadas aéreas que passam a dimensão e densidade assustadoras do local. Como acontece com a maioria dos filmes de terror, o título nacional foi estupidamente escolhido para pegar carona no sucesso alheio. A tradução do original seria algo como “caminho errado”, simples e de acordo com a ideia básica da produção. O desleixo é tanto que existe um filme francês homônimo registrado em solo tupiniquim, mas as confusões não param por aí. Um outro filme passado na floresta e com jovens em risco aportou por aqui vendendo a ideia de ser uma continuação, porém, uma produção canastrona. Saem os canibais deformados e entram em cena psicopatas de cara limpa que sem nada para fazer amedrontam turistas. Depois outras fitas, uma pior que a outra, foram parar diretamente nas locadoras seguindo a numeração errônea. Há registros que existe até Pânico na Floresta 6, mas oficialmente o original rendeu mais duas continuações lançadas como Floresta do Mal e Floresta do Mal – Caminho da Morte, ambas sem gerar burburinho. 

Terror - 84 min - 2003 

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