quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

OS ESTRANHOS

NOTA 6,0

Apesar da atmosfera claustrofóbica,
suspense parece se intimidar diante de
seus próprios vilões e não ousa na trama,
mas tecnicamente é acima da média 
Inspirado em fatos reais. Tais palavras soam como pesadelos para alguns que imediatamente passam a julgar negativamente os filmes, mas para outros é a isca para se sentirem atraídos. Ao final, teçam críticas negativas ou positivas a eles, de uma maneira geral sempre fica a dúvida até que ponto as verdadeiras histórias foram respeitadas e o quanto foi inventado. Um dos casos mais clássicos de obras que criaram enredos baseando-se livremente em histórias reais foi O Massacre da Serra Elétrica cuja trama cheia de simbolismos, inclusive como resposta a barbárie da Guerra do Vietnã, nasceu com a captura de Ed Gein, assassino diagnosticado com problemas mentais que para suprir a falta da mãe mutilava mulheres para guardar parte de seus corpos. Já Os Estranhos se inicia vendendo a ideia de inspirado no assassinato brutal de um casal em fevereiro de 2005 em uma casa de veraneio, mas tal ocorrência nunca foi confirmada. Posteriormente ao lançamento o diretor e roteirista Bryan Bertino afirmou ter se baseado nos assassinatos verídicos envolvendo uma família em 1969 e também em um fato ocorrido em seu bairro e que marcou sua infância. Buscando criar envolvimento com o espectador, mas sem sucesso imediato, o filme começa mostrando James (Scott Speedman) chegando na casa de campo de seus pais acompanhado da namorada Kristen (Liv Tyler) após uma festa, mas existe um clima pesado entre eles. Ela acabara de recusar o pedido de casamento do rapaz, mas serão obrigados a dividir o mesmo teto nesta noite, porém, não necessariamente o mesmo espaço. Todavia, não poderão se fazer de cegos, surdos e mudos por muito tempo, pois a calada da noite lhes reserva um verdadeiro pesadelo que de certa forma os unirá... e para sempre! Já é madrugada quando uma jovem bate firmemente na porta da casa procurando por outra garota. Não demora muito e ela volta e refaz a pergunta. Na terceira vez o questionamento é mais incisivo e o pânico toma conta do casal que percebe estar sendo ameaçado por jovens mascarados que rondam a residência e que de alguma maneira parecem ter acesso ao interior dela assim podendo pregar sustos livremente. E a trama se resume a isso. O casal tenta fugir da casa inúmeras vezes, mas acabam sempre barrados pelo trio de criminosos que não parecem dispostos a roubar. O intuito é amedrontar o máximo possível até poderem dar literalmente o golpe de misericórdia em suas vítimas.

No final das contas o que temos não é a representação de um crime especificamente, mas sim a condensação de uma série de ocorrências cada vez mais comuns, pessoas torturadas e assassinadas sem motivo algum, apenas saciar o desejo masoquista de dementes. Em áreas remotas dos EUA tais atos são corriqueiros e algumas regiões até ficam marcadas negativamente o que nos leva a perguntar o porquê de ainda existirem pessoas que se aventuram no isolamento? O pior é que os personagens de histórias do tipo parecem totalmente alheios ao que acontece em filmes de suspense e horror, pois praticamente cometem todos os deslizes e burrices de outras vítimas. Estão sempre nos lugares e horas erradas, mas as vezes parecem no fundo clamar para serem encontrados pelos vilões. James e Kristen não fogem à regra. Ela fica um pouco sozinha na casa já sabendo que o perigo a ronda, o rapaz se mete a valentão enfrentando a escuridão do lado de fora, procuram se esconder em um celeiro repleto de objetos cortantes e não esquecem nem de pedir socorro pelo bom e velho rádio amador, mas fazem isso como se quisessem chamar a atenção de seus algozes. Qualquer adolescente que tenha visto ao menos uma fita de serial killer já deve manjar todos estes clichês. Pior é que os bandidos parecem bem mais espertos conseguindo prever as atitudes do casal e lhes pregar sustos na surdina. Eles não são almas penadas tampouco possuem poderes paranormais, são legítimos representantes de psicopatas do cinema, herdando inclusive o dom de aparecerem e desaparecerem num estalar de dedos como o percursor Michael Meyers de Halloween. Aliás, em sua estreia atrás das câmeras, Bertino parece ter se inspirado e muito neste clássico do terror, criando um clima de tensão semelhante ao longa de John Carpenter, mas não mantendo sua cadência. O medo de ser atacado pelo trio de malucos que impacta inicialmente pouco a pouco vai cedendo espaço ao tédio e a trama parece se arrastar mesmo com sua duração relativamente curta. Todavia, há que se elogiar a inversão de expectativas. O trailer, com uma perturbadora trilha sonora, vendia a ideia de que uma carnificina seria oferecida, mas o diretor guarda o gore para o ato final e pontua sua obra com sustos eficientes utilizando com sabedoria a câmera, os ruídos em substituição aos rompantes acordes que geralmente entregam os sustos antes da hora e a baixa iluminação que lembra a de um lampião. Aliás, quem já viveu a experiência de passar uma noite sem luz elétrica em uma casa de campo deve curtir o clima da fita. Ao mesmo que tempo que cria uma atmosfera aconchegante, a casa parece claustrofóbica e esconder um perigo a cada canto, principalmente quando a ameaça dá sinais de que tem passe livre para seu interior.

Como já dito, Bertino se inspirou em um fato que o impactou quando criança. Uma moça bateu à porta de sua casa em plena madrugada perguntando de alguém que não morava lá e na manhã seguinte sua família descobriu que seus vizinhos haviam sido assaltados. Coincidência ou não, o fato é que o roteiro não explora a riqueza de tal gancho. As ruas se tornaram um ambiente de perigo constante, mas nem dentro de casa estamos totalmente protegidos. É justamente o medo dessa sensação de constante insegurança que o filme propõe, mas parece se intimidar a certa altura. Apesar de todos os clichês, o diretor busca redenção dos julgamentos negativos propondo um final ligeiramente diferente que nos deixa uma triste mensagem: estamos à mercê da sorte nesses tempos de extrema violência. Os vilões simplesmente justificam a noite de tortura pelo fato do casal se encontrar na residência. Deram o azar de estarem lá quando o trio também estava na área. Se não fossem James e Kristen certamente outros incautos seriam torturados como fica a deixa para uma sequência que não rolou, mesmo com a polpuda arrecadação nas bilheterias norte-americanas que cobriu com folga o minguado orçamento. Remetendo à trama do pouco conhecido Eles, suspense francês também supostamente baseado em fatos reais, Os Estranhos a olho nu é uma grande bobagem, mas tem seus méritos aqui e acolá, como a ótima edição que sempre corta repentinamente as cenas em que os mascarados ficam de caras limpas, assim preservando suas identidades e o mistério. Economizando nos litros de groselha, o objetivo da fita é provocar o espectador com cortes abruptos do silêncio com ruídos estarrecedores, força-lo a ver coisas que os protagonistas não veem e o que existe de mais estranho na produção é que a ambientação e as atuações monossilábicas, porém, catalisadoras dos vilões é que fazem quem assiste se perguntar o que faria em tal apuro. A atuação insossa dos protagonistas poderia comprometer tudo, mas Bertino é esperto e vai munindo de informações o espectador que sabe de antemão o que pode acontecer, porém, não tem como interferir nos rumos da trama o que torna a experiência mais angustiante. A conclusão deixa latente essa sensação de impotência quanto a violência, uma reflexão escancarada da obra, mas que espantosamente poucos captam.

Suspense - 86 min - 2008 

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