quarta-feira, 1 de julho de 2015

MULAN (1998)

NOTA 10,0

Arriscando-se com trama mais
madura e cheia de mensagens,
Disney consegue uma animação
madura, mas sem perder a doçura
Nas primeiras décadas de existência da Disney, suas princesas e heroínas eram jovens doces, meigas e que viviam sonhando com um príncipe com quem viveriam felizes para sempre, como a percursora Branca de Neve. A ingenuidade das moças também era característica dos rapazes quando protagonistas dos contos, como no caso do boneco de madeira Pinóquio, e até animais como Bambi resgatavam tal pureza nas telas. Os anos passaram, o criador do estúdio faleceu, a crise assolou os profissionais que tentavam dar continuidade a sua obra e histórias água-com-açúcar já não conquistavam nem mesmo as crianças. Quando buscaram inspiração em contos com mais dramaticidade, como A Pequena Sereia, embora floreando um pouco as coisas, a Disney conseguiu se reerguer e tomar coragem para projetos mais ousados. As personagens femininas outrora recatadas e submissas passaram a demonstrar coragem e independência chegando ao ápice com a protagonista de Mulan, longa baseado em um antigo e milenar poema chinês. Roteirizado a dez mãos por Rita Hsiao, Chris Sanders, Philip LaZebnik, Raymond Singer e Eugenia Bostwick-Singer, a trama começa de forma impactante. Os hunos estão invadindo a China liderados pelo inescrupuloso Shan-Yu ofendidos com a construção da Grande Muralha. Para enfrentar os invasores, o Imperador ordena que cada família deve ceder um homem para se juntar ao exército, mas antes disso somos apresentados à Mulan que está às voltas com os preparativos para aquele que deveria ser o grande momento da sua vida, o dia em que seria avaliada por uma casamenteira que lhe arranjaria um bom marido e assim traria honra à sua família conhecida por venerar tradições. No entanto, a jovem não nasceu para ser uma dona-de-casa submissa. De espírito naturalmente livre, ela é alegre, corajosa e inteligente e seu compreensivo pai a respeita e a ama do jeito que ela é. O amor entre eles é tão grande que ela não pensa duas vezes quando sabe da convocação imperial. Como seu pai é o único homem do clã, mas já está com idade e debilitado por um problema em uma das pernas, a jovem decide assumir seu lugar na batalha e defender a honra de seus familiares para que esqueçam a vergonha de ter sido rejeitada para o casamento.


Durante a noite, Mulan rouba a armadura e a espada do pai, corta seus cultuados cabelos na altura dos ombros, enfrenta uma tempestade e assume uma identidade masculina ao chegar no campo de treinamentos. Todavia, ela não estará sozinha. Os espíritos de seus ancestrais decidem protege-la e ordenam ao falante e atrapalhado dragão Mushu que acorde a estátua do guardião da família, porém, ele acaba quebrando-a. Desesperado, mas pensando na possibilidade de tornar-se um novo guardião, ele decide acompanhar a jovem nessa jornada na qual ela enfrentará grandes desafios durante os pesados treinos e também quando ficar frente a frente com os hunos, mas sua maior batalha sem dúvidas será esconder sua verdadeira identidade e sentimentos do Capitão Lee Shang, o líder do exército chinês, por quem se apaixona à primeira vista. Embora venha de uma família simples e nem tenha se casado com um nobre, a simpatia, beleza, nobreza e de certa forma a delicadeza de Mulan agradaram em cheio meninos e meninas e mesmo passando boa parte da trama travestida de homem a garota conseguiu lugar cativo entre as princesas Disney. Ainda que trabalhe o seu desejo de conquistar um grande amor, o roteiro procura deixar as fragilidades da personagem em segundo plano e investe na representação da mulher moderna disposta a mudar paradigmas em uma época e em um país guiados por convenções e tradições que engessavam o sexo feminino. Para contar esta história com teor mais adulto e polêmico é óbvio que o conto original precisou sofrer alterações para ser adaptado de forma a não abandonar por completo as características que fizeram a fama do estúdio. A mensagem de otimismo e altruísta se faz presente com a decisão de Mulan não abaixar a cabeça por conta de não ser a moça prendada e recatada que a sociedade e sua própria família esperavam, assim ela busca a superação arriscando-se na guerra, mas honrando o nome e principalmente demonstrando seu amor incondicional pelo seu clã. Apesar do argumento mais dramático, somos transportados para o universo da chinesinha de forma prazerosa e envolvente graças ao equilíbrio que existe com o humor. Mushu é o alívio cômico da trama com suas rápidas tiradas, sarcasmos e piadas de duplo sentido, mas sua participação tem importância. Ao mesmo tempo que sua protegida parte numa viagem de autoconhecimento e provação, o dragãozinho também faz o mesmo para ganhar uma promoção com os espíritos protetores. 
Para variar, ainda que com espaço reduzido que o normal, a trilha sonora também tem papel fundamental na condução da história, destacando-se três sequências. A primeira em que a protagonista está indo ao encontro da casamenteira traz uma canção que resume em letra e melodia todo tradicionalismo da China imperial. Quando decide ingressar no exército e assumir o perfil masculino, a transformação da jovem é marcada por uma retumbante trilha instrumental que oferece a mesma dramaticidade da música que acompanha o treinamento de Mulan e dos outros homens para a guerra. Aliás, tal canção é interrompida para ceder espaço a uma das cenas mais tristes da animação quando o exército de Lee encontra uma aldeia totalmente dizimada pelos hunos. A imagem de uma bonequinha abandonada em meio ao cenário desolador é de cortar o coração e não deve nada em termos de emoção se comparado a um filme live action de tema semelhante. O mesmo se pode dizer da sequência em que o exército chinês é atacado de surpresa por centenas de seus algozes. Aliando técnicas convencionais e computadorizadas, além de recursos sonoros de primeira, as imagens são memoráveis e intensas e lembram a famosa cena do estouro da manada de guinus que marcou O Rei Leão. Coincidência ou não, a história de Mulan começou a ter seu desenvolvimento pautado no mesmo ano de 1994. Os diretores Tony Bancroft e Barry Cook se debruçaram sobre o projeto por quatro anos a fim de encontrarem a melhor forma de adaptar uma história densa e cheia de mensagens históricas e comportamentais a fim de agradar adultos e crianças sem repetir o excesso de dramaticidade de Pocahontas e O Corcunda de Notre Dame, tampouco se perder na adrenalina e colorido que marcaram Hércules, as três produções que antecederam a aventura da chinesinha. Todavia, se superaram na criação de Shan-Yu, um dos vilões mais cruéis de todos os tempos do estúdio, sem um mínimo senso de humor, assim como também surpreenderam com os traços da animação, delicados e realistas, chegando ao ápice no encerramento com a representação da festa do ano novo chinês. Belo, emocionante, divertido e maduro na medida, Mulan é um ponto de virada na trajetória da Disney e certamente também deve mexer com os sentimentos de quem a assiste, seja pela primeira vez ou repeteco, afinal de contas estamos sempre em busca de novos objetivos e nos renovando assim como a chinesinha que ganhou uma segunda aventura em 2004 lançada diretamente em vídeo.

Animação - 88 min - 1998 

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3 comentários:

Ana disse...

Assisti algumas cenas de Mulan, mas ainda preciso ver o filme todo. Eu li o livro e gostei muuuuito!! É uma história comovente. =)
Seu blog é maravilhoso. Estou seguindo esse tbm e venho visitar regularmente.
Bjs ;)

http://literaturaecine.blogspot.com/

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

É um filme cativante.
Tudo de bom

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

Apaixonados disse...

Eu vi, eu vi, eu vi, eu vi um gat... ops, eu vi esse filme!
É uma ótima história!
Adorei o seu blog e já estou seguindo!
Abraços
Thai

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