sexta-feira, 30 de outubro de 2015

LENDA URBANA

NOTA 3,0

Apesar da premissa interessante,
terror não foge dos clichês e se
perde em seu mirabolante argumento
até chegar a um clímax vexatório 
Quem já foi em um acampamento escolar certamente já se apavorou com as histórias de terror contadas em torno de uma fogueira tarde da noite, mas se você também já morou em uma república já deve ter vivido situação parecida. Bem, viver no campus de um colégio ou universidade não faz parte da realidade de nós brasileiros, mas para os americanos isso é de praxe. Sem muito pensar nos estudos, os jovens ianques entregues ao ócio gastam seu tempo com paqueras, baladas e amedrontando os colegas com contos macabros a respeito de mortes misteriosas. É esse o ponto de partida de Lenda Urbana, mais um exemplar da onda dos “teen slashers”, filmes que se resumem a um psicopata perseguindo um grupo de jovens incautos, filão que na época estava em alta com os sucessos de Pânico e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado. Sem comprovação real dos acontecimentos, os mitos populares que dão título ao filme geralmente envolvem assassinatos, aparições ou desparecimentos mal esclarecidos e eis o grande diferencial da fita. O serial killer utilizaria algumas lendas urbanas para emboscar suas vítimas, contudo, hoje essa peculiaridade não agrega em nada à produção afinal já estamos saturados de assassinatos clichês. De qualquer forma, o prólogo continua sendo um dos melhores do gênero, apesar de bastante esquemático a favor do vilão. Michelle (Natasha Gregson Wagner) está dirigindo a noite por uma estrada deserta e em meio a uma forte chuva quando percebe que seu combustível está acabando, forçando-a a parar em um posto de gasolina de beira de estrada. Ela é atendida por Michael (Brad Dourif, estranhamente não creditado), um sujeito esquisitão, maltrapilho e gago que com suas expressões e forma de agir deixa no ar certa ambiguidade. Não convém dizer o que acontece para não estragar a surpresa de quem por ventura não tenha assistido ainda (alguém?), mas há uma boa inversão de expectativas na introdução que, embora até a metade da projeção pareça não ter uma ligação direta com o restante da trama, serve para ilustrar o que são as tais lendas urbanas. Depois somos apresentados ao grupo de desafortunados que passará a ser vítima de um maníaco que está agindo em um campus universitário, obviamente já deixando claro quem serão os heróis, a boa moça Natalie (Alicia Witt) e o jornalista amador Paul (Jared Leto). O lance é descobrir qual dos coadjuvantes será promovido nos minutos finais revelando-se ser o mascarado da vez, ou melhor, o encapuzado, já que ele se esconde sob a proteção de uma veste de inverno.

Temos também a melhor amiga da protagonista Brenda (Rebecca Gayheart), a radialista sensual Sasha (Tara Reid), o namorado dela Parker (Michael Rosenbaun), o garanhão Damon (Joshua Jackson) e a revoltada Tosh (Danielle Harris) que não gosta de Natalie. Ficou fácil saber quem é o vilão, não é? Nem tudo é tão óbvio. Como esperado, os personagens começam a ser mortos um a um pelo assassino de Michelle, que também era estudante da mesma universidade que os demais, e só depois de descobertas algumas vítimas é que percebem que os casos recriam lendas urbanas, tema oportunamente abordado nas aulas do professor William Wexler vivido por Robert Englund, o eterno Freddy Krueger cujo boneco pode ser visto rapidamente em uma cena. E não são apenas os adolescentes que podem ser vítimas do maníaco. Temos também o reitor da faculdade Dean Adams (John Neville), a policial do campus Reese Wilson (Loretta Devine) e um estranho zelador local (Julian Richings, cujo personagem não é mencionado o nome) que aparece sempre à espreita para adicionar aquela dúvida sobre seu caráter, mas o roteiro de Silvio Horta não o desenvolve e o joga do escanteio a certa altura. Também desperdiça o fato de que o Sr. Wexler é um dos sobreviventes de uma onda de assassinatos ocorridos no mesmo campus 25 anos antes. Ou será que não queriam ser tão óbvios e mudaram a tática de última hora? A trama possui inúmeras derrapadas, inclusive na boa introdução que apesar de impactante se pararmos para avaliar os pormenores irrita por suas coincidências que fazem com que os planos do vilão não saiam dos trilhos. Aliás, geralmente a primeira morte exibida é sempre a mais bem elaborada para fisgar o espectador, mas neste caso não se pode dizer que faltou criatividade para as demais, ainda que pequem pela falta de veracidade. Temos um rapaz que morre enforcado indiretamente pela própria paquera; uma garota morta na escuridão de seu quarto enquanto a colega de moradia acredita que ela estivesse tendo um encontro sexual; um envenenamento fatal ocorre por conta de uma mistura tóxica; a locutora de rádio cuja execução é acompanhada ao vivo por ouvintes durante a transmissão de seu programa; o telefonema ameaçador feito de dentro da casa da própria vítima, e por aí vai. São lendas que talvez façam mais sentido aos norte-americanos por fazerem parte da cultura deles. Na base do quem conta um conto aumenta um ponto, os casos misteriosos vão sendo pouco a pouco modelados até que tudo se encaixe perfeitamente ou, no mínimo, ganhe um verniz que sele à primeira vista as situações e é essa a sensação que temos do filme. Todas as mortes se encaixam ao roteiro, mas nenhuma delas foge do maniqueísmo afinal aqui não interessa apenas que o assassino triunfe. Seus ataques também precisam coincidir com o mito que escolhe para o suspiro final de cada vítima.

Com direção de Jamie Blanks, que três anos depois tentaria mais uma vez injetar gás a este subgênero com O Dia do Terror, fita que troca o romantismo do Dia dos Namorados por sanguinolência e vingança, esta produção apesar de todo o malabarismo para nos fazer crer na reprodução das tais lendas derrapa mesmo é em seu clímax. A identidade do assassino é revelada em uma sequência que mais parece uma apresentação escolar de quinta categoria, super didática, com direito a slides que ajudam a explicar tim-tim por tim-tim suas inacreditáveis razões para desejar vingança não só de seu principal alvo, obviamente Natalie, mas também daqueles com quem ela convive, incluindo seu interesse amoroso Paul que surge no meio da cena com toda pose de herói e tentando ser mais inteligente que seu algoz. Difícil não rir, seja pelo ridículo ato final ou por você se sentir um idiota, pois não dá para engolir a seco a revelação mirabolante que praticamente desconstrói tudo o que vimos até então. Para piorar o vilão parece indestrutível como seus antecessores da década de 1980 como, por exemplo, Jason Vorhees de Sexta-Feira 13. Ainda que apresentado como um ser humano de carne e osso, embora com uma força descomunal visto a forma como executa seus crimes, o psicopata resiste a tiros, a queda de uma janela, é lançado contra o vidro dianteiro de um carro e sobrevive até a submersão em um rio. Só faltou atearem fogo em seu corpo. Apesar dos furos e viagens da trama, o filme arrecadou no mundo todo quase seis vezes mais que seu mixuruca orçamento, no entanto, não abriu as portas para uma franquia de sucesso. Gerou mais uma continuação nos mesmos moldes e ainda um fajuto terceiro capítulo com toques sobrenaturais que só acentuou a fragilidade do argumento original. É sabido que o público alvo de produções do tipo quer ver violência, muito sangue e se possível vísceras espalhadas, mas uma história bem alinhavada é o mínimo que deveria ser oferecido para não insultar a inteligência de quem assiste. Ver Lenda Urbana tantos anos depois só vale mesmo pela nostalgia, um registro do que foi o horror teen dos anos 1990, puro passatempo, ainda que a produção pareça datada de uma década antes. O tempo foi cruel com a fita que envelheceu drasticamente e só deve interessar aos aficionados pela temática que precisam desta peça para compreender a linha do tempo percorrida pelo gênero.

Terror - 100 min - 1998

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