quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A CASA AMALDIÇOADA

NOTA 3,0

Com cenário rico em detalhes e
amedrontador, longa se preocupa
mais com o visual e o enredo
fica a mercê dos efeitos especiais 
Filmes sobre casas assombradas são como produções cujos protagonistas são vampiros ou mortos-vivos: não importa o quanto tempo passa, sempre haverá público para eles. O problema é quando a plateia passa a aceitar qualquer lixo, mas felizmente não foi o que aconteceu com A Casa Amaldiçoada, obra merecidamente esquecida pelo simples detalhe de que não assusta nem criancinhas. Aliás, calcada em exagerados efeitos especiais, a certa altura a produção ganha ares de videogame, detonando totalmente o clima razoavelmente eficiente construído até então. A trama começa nos apresentando a Eleanor Lance (Lili Taylor), ou Nell como gosta de ser chamada, uma mulher solitária que está prestes a ser despejada. Sofrendo com as lembranças da mãe que faleceu a pouco tempo, ela se interessa por um anúncio de jornal que convida insones a participarem de um estudo do psicólogo David Marrow (Liam Neeson). A gigantesca, secular e misteriosa mansão Hill House é o local escolhido para o exercício de observação que contará ainda com Theo (Catherine Zeta-Jones), uma mulher aparentemente fútil, mas que aos poucos se revela segura e fiel amiga, e Luke (Owen Wilson), rapaz boa praça e primeiro a perceber que os problemas de sono são mera desculpa para uma obsessão do médico que selecionou perfis que se enquadravam melhor a sua ideia de promover um estudo a respeito do medo e histeria influenciados pelas reações do próprio grupo pressionado por uma ambientação propícia e palco de uma intrigante história. O grupo é avisado de que ao cair da noite o portão da mansão é trancado com cadeados reforçados e que ninguém poderá ouvir seus gritos e acudi-los. Por melhor que fosse a recompensa, alguém em sã consciência toparia continuar como cobaia? O roteiro de David Self força a barra para nos fazer acreditar que haveriam sim loucos para topar passar alguns dias em um casarão escuro e repleto de ornamentos luxuosos, mas no fundo macabros. Sabe-se lá quais os critérios do médico para selecionar seus pacientes, todavia, Theo e Luke parecem não sofrer para dormir e mostram-se deslumbrados pelo cenário, ao contrário de Nell, a pessoa mais sensível do grupo e que de imediato revela ter um interesse maior pela casa, principalmente por conta das vozes de crianças que afirma ouvir clamando por socorro.

Logo na primeira noite Marrow conta a história de Hill House lançando a isca para colher reações adversas de seus pacientes. Construída há mais de 100 anos por um rico industrial para satisfazer sua esposa e abrigar crianças carentes como forma de suprir os filhos que o casal nunca pôde ter, o casarão acabou se tornando uma prisão de menores que na verdade eram maltratados pelo suposto benfeitor. Todavia, existe um mistério a mais guardado nas paredes e estátuas do local, algo que instiga Nell a ponto de tirar sua razão. O médico observa pacientemente o trio, grava comentários em áudio, tenta arranjar explicações para o inexplicável, mas não tarda para que Theo e Luke contestem seu plano real, mas a essa altura a colega deles já está totalmente fora de si. Ou seria ela a mais lúcida do grupo? Tentando casar horror e questões psicológicas e de comportamento, o argumento em si é dos mais interessantes. O mesmo não se posse dizer do seu desenvolvimento e muito menos da condução do diretor Jan de Bont, dos frenéticos Velocidade Máxima e Twister, o que explica a abundância de efeitos especiais e corre-corre suplantando o enredo. Este holandês sabe dirigir boas cenas de ação e trabalhar com trucagens de câmera, mas a adrenalina que injeta aqui na reta final é desnecessária e desconstrói o climão de tensão que vinha lapidando tirando proveito da exuberante e imponente cenografia. O casarão acaba se tornando o personagem central da trama uma vez que sua estrutura e adereços passam a ditar os rumos e interferir no cotidiano de seus visitantes. A direção de arte merece elogios por boas sacadas como os grandes espelhos estrategicamente colocados para ampliar a profundidade de alguns ambientes, inclusive para confundir onde alguns terminam e outros começam, e as esculturas de crianças com rostos angelicais em estilo barroco são verdadeiros achados. A equipe de efeitos especiais trabalhou em conjunto com os designers para criar imagens que então deveriam ser o que haveria de mais moderno em termos de visual. Fantasmas ganham contornos assustadores e se locomovem com desenvoltura entre lençóis e cortinas, as estátuas se movimentos e aliado com um bom trabalho de iluminação o cenário como um todo ganha uma atmosfera misteriosa que parece guardar uma surpresa desagradável em cada canto. Há de se destacar que boa parte dos efeitos sonoros foram previamente gravados e acionados no momento das filmagens a fim de conseguir reações de espanto mais naturais do elenco, porém, na reta final os atores já estão com o espírito preparado até porque passam a contracenar com criações de computador e o naturalismo se esvai.

Como diz o ditado popular menos é mais. Usando os efeitos especiais com parcimônia até a metade do filme, Bont consegue envolver o espectador com um clima de tensão constante e instiga-lo a explorar o casarão junto com os personagens. O caldo entorna quando a verdadeira história do local vem à tona e o diretor resolve criar uma imagem para o vilão. Hugh Crain (Charles Gunning), o dono do casarão, até então aparecia apenas em fotos e num gigantesco quadro no qual expressava um olhar sinistro, mas em forma de assombração ganhou mobilidade entre as paredes e expressões faciais que lembram aos efeitos visuais de A Múmia, coincidentemente lançado no mesmo ano. As aparições começam a ficar cada vez mais exageradas, chegando ao ápice quando o tal espírito consegue fazer a estrutura da casa tremer e de alguma forma criar ramificações que se revelam armadilhas. A essa altura o ritmo frenético se impõe. Apesar das boas intenções, o diretor se esquece do básico do gênero: filme de terror que se preze precisa causar calafrios. Economizando nas mortes, apenas dois personagens vão para a casa do chapéu, o que é um ponto surpreendente da obra, Bont não encontra o equilíbrio entre o argumento e a técnica. Se empolgou com o casamento entre a tecnologia de ponta que tinha em mãos e o artesanato de seus cenários e no final das contas acabou se perdendo na ambição de criar imagens espetaculares, assim desperdiçando bons ganchos para a narrativa. Além de não explorar ao máximo o medo que a própria ambientação oferece, a trama também não desenvolve seus personagens, sobrando para Nell carregar o filme nas costas por ser a única com um perfil mais definido. Lá pelas tantas descobrirá que sua ida à mansão não foi obra do acaso, mas isso já era previsível. Limitar a narrativa a esta sofrida mulher compromete o resultado. Luke está literalmente a passeio na história, o Dr. Marrow veste sem esforço o papel de voyeur e Theo é desperdiçada, mesmo com um perfil interessante. Irônica e sensual, inclusive assumindo sem rodeios sua bissexualidade, percebe-se que o roteirista tentava criar algum vínculo mais forte entre a jovem e a protagonista e o contraste de personalidades poderia render um entrecho interessante, mas o gancho é abandonado. Baseado no livro “The Hauting of Hill House”, de Shirley Jackson, já transformado em filme na década de 1960 e lançado no Brasil como Desafio ao Além, diga-se de passagem, uma fita de arrepiar sem mostrar uma alma penada sequer, A Casa Amaldiçoada peca justamente por mostrar demais e assim conquistar reações contrárias do espectador. O que era para meter medo gera risos involuntários, o que já deveríamos esperar de um filme com um título tão genérico e sem graça.

Terror - 113 min - 1999 

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