quinta-feira, 5 de novembro de 2015

AMOR À SEGUNDA VISTA

NOTA 4,0

Encontro de dois ícones das
comédias românticas deixa a
desejar mal aproveitando até
mesmo os clichês básicos do gênero 
Sandra Bullock faz drama, suspense, ficção, ação, talvez lhe falte coragem para encarar o terror, mas não tem jeito sua imagem está irremediavelmente ligada ao humor. Já Hugh Grant é aquele galã à moda antiga que toda mulher romântica gostaria de ter ao seu lado, o que talvez explique a filmografia restrita do ator que coleciona papéis sempre muito semelhantes em histórias idem. Uma especialista em fazer rir e um sedutor nato. Dois nomes de pesos num mesmo projeto só poderia render sucesso. Bem, a comédia romântica Amor À Segunda Vista até cumpriu seu papel em termos financeiros na época de seu lançamento. Rendeu bem nas bilheterias norte-americanas e ocupou o primeiro lugar de público por umas duas ou três semanas em outros países, inclusive o Brasil, mas passados vários anos a produção não conseguiu alcançar o status de clássico de sessão da tarde, rótulo perfeito para um trabalho açucarado e que reuniu pela primeira e única vez ícones do gênero. Lucy Kelson (Bullock) é uma advogada especialista em direito ambiental e na defesa de minorias que vai fundo nas causas que abraça. Já George Wade (Grant) é um empresário milionário, almofadinha e namorador que tem tudo o que quer, mas sempre às custas do trabalho dos outros. Do setor imobiliário, o magnata está envolvido com um projeto que desapropriaria uma área ocupada por um antigo centro comunitário em um subúrbio de Nova York que além de deixar centenas de pessoas sem opções de lazer e integração também destruiria as lembranças da infância da ferrenha advogada. Quando vai pessoalmente interferir no caso, contudo, Lucy é surpreendida. Em menos de cinco minutos ela consegue demonstrar toda a sua eficiência a ponto de convencer Wade, que também a conquista com seu charme e lábia, a contratá-la como sua advogada prometendo um salário polpudo e a proteção do tal prédio que tanto defende. Quando a esmola é demais.... Não demora muito e Lucy descobre que lidar com problemas jurídicos do empresário é o de menos. Na verdade, ele a contratou para ser sua conselheira em praticamente todos os aspectos de sua vida, desde a escolha de uma simples roupa, passando por palpites para conquistar uma nova mulher até fechamentos de grandes negócios, esse sim o trabalho propriamente dito.

Quando se cansa da situação a advogada dá o ultimato de duas semanas para continuar no cargo, mas ao mesmo tempo que tenta achar uma nova candidata e, diga-se passagem, uma nova companheira de cama que Lucy jamais quis ser (ou seu senso de responsabilidade e reputação extremos a impediam?), Wade mexe seus pauzinhos para evitar que a moça consiga um novo emprego e repense sua demissão. Se investisse nessa perseguição o roteiro de Marc Lawrence, aqui estreando como diretor, poderia trabalhar boas oportunidades humorísticas, mas preferiu tentar construir uma história de amor na qual parece que os interesses sentimentais estão em último plano. Quando entra uma terceira pessoa para formar um triângulo amoroso, June Carver (Alicia Wiit), a substituta que a própria Lucy terá que treinar e que não esconde o interesse prematuro pelo patrão, simplesmente os vértices não se encaixam. As ceninhas de ciúmes da advogada não convencem e o flerte de Wade com a nova colaborada é um tanto insosso. Todavia, mesmo com diversos problemas na construção desse romance, ainda assim torcemos pelo casal protagonista, existe algo nessa relação morna que nos envolve. É aí que entra a reputação das nossas estrelas. Carismáticos e sempre vendendo uma imagem solar, mesmo com a relação fria de seus personagens torcemos para ver os dois juntos ao final e os próprios atores pareciam ter esse desejo inicialmente. Lawrence já havia escrito os roteiros de Forças do Destino e do divertido sucesso Miss Simpatia, ambos estrelados por Bullock. Quando apresentou a ideia deste terceiro texto sua musa não só aceitou estrelar como também assinar o trabalho como produtora e certamente teve um empurrãozinho dela para o roteirista ganhar uma promoção e assumir as câmeras. O problema é que ele se mostra um tanto burocrático em sua estreia como diretor. Tecnicamente não ousa, mostra apenas o básico de conhecimento para quem quer ocupar tal cargo. Com a trama sendo desenvolvida em Nova York, poderia haver uma melhor exploração de cartões-postais, mas a produção foi lançada ainda sob a forte influência da corrente de medo que assolou os EUA pós 11 de setembro de 2001. Sem as Torres Gêmeas a cidade não era a mesma e optou-se por mostra-la de forma mais discreta, assim muitas cenas perderam sua possível beleza devido aos cenários fechados. Por Lucy ser uma defensora da natureza, também é de se estranhar o excesso de concreto em cena.

Ainda que o gênero não exija interpretações viscerais, é nítido que os protagonistas já estiveram mais à vontade em outros trabalhos, embora aqui simplesmente reciclem perfis que já deram vida. O jeitinho característico de se locomover e as falas longas e em velocidade acelerada impressas pelo diretor tentando acertar no que já foi testado apenas limitam o trabalho de Bullock enquanto Grant emplaca pela milésima vez o galã de meia idade que tem consciência de sua beleza e charme e usa tais atributos como desculpa para sua imaturidade que lhe dá abertura para colecionar paqueras rápidas. E quem procura ser surpreendido por um filme do tipo? Os ingredientes certeiros estão aqui. A mulher simples, de bom coração e que no fundo quer um grande amor encontra o homem bem-sucedido, mulherengo e acostumado a praticidade e pouco sentimentalismo. Os opostos se atraem, mas em Amor à Segunda Vista falta algo para dar liga. Lawrence não consegue encontrar o tom perfeito do romance, tampouco da comédia, e sua falta de pulso se reflete no casal principal que infelizmente parece pouco inspirado a celebrar o encontro de ícones do gênero. Faltou aquele momento que faça o espectador acreditar que o amor entre eles existe assim como o ponto de clímax quando algo acontece para abalar a relação e torcermos para a previsível reconciliação. A certa altura parece que Bullock e Grant jogam a toalha, assinam o termo de que possuem pouca química e passam a trabalhar no piloto automático só para não jogar fora o dinheiro que a atriz investiu até então. Na época deste lançamento as comédias românticas estavam puxando para o alto as bilheterias, mesmo com histórias água-com-açúcar e um tanto previsíveis. O escapismo estava no comando. Com o medo do terrorismo e da inconveniente, mas habitual violência do dia-a-dia, as pessoas estavam a fim de relaxar, sonhar e se divertir. Para o momento, esta produção vinha a calhar e as bilheterias confirmaram, mas seu esquecimento ao longo dos anos denota suas fragilidades. Contando apenas com umas duas ou três cenas realmente divertidas, sendo uma delas ilustrando os créditos finais, é uma pena também que o elenco de apoio tenha sido mal aproveitado. É desperdiçada a chance de boas risadas explorando uma possível relação conturbada de Wade com os pais de Lucy e o casal de amigos dela que tanto destaque ganhou na introdução simplesmente some para voltar quase no final não agregando nada a trama. Ainda bem que Lawrence algum tempo depois nos presenteou com o agradável Letra e Música. Está redimido.

Comédia romântica - 101 min - 2002

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Um comentário:

Ana Leonilia disse...

Eu curto comédias românticas e estava até me interessando pelo filme, em especial por causa do Grant. Ele cai super bem nesses papéis de paquerador, meio irresponsável. Mas parece que não é tão bom assim, né? Quando um casal não tem química, fica difícil convencer o espectador.

Bjs ;)

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