terça-feira, 3 de novembro de 2015

MINHA MÃE QUER QUE EU CASE

NOTA 4,0

Mais uma vez Diane Keaton se
repete e interpreta uma mulher neurótica
e pentelha, mas ainda assim rouba
a cena e garante um pouco de graça
O título Minha Mãe Quer Que Eu Case já leva direto ao assunto sobre o que se trata esta comédia romântica, mas a objetividade da produção para por aí. A trama é estendida além do necessário para narrar o dilema de uma jovem que deve escolher entre um marido rico e sisudo ou o amor puro e a leveza de uma vida ao lado de um cara divertido e descolado, porém, que vive à base de trocados. Vão faltar doces para ofertar a quem acertar qual dos pretendentes a personagem Milly (Mandy Moore) vai desposar. Ela é a caçula de uma família composta só por mulheres que tem o azar de ser comandada pela neurótica matriarca Daphne (Diane Keaton), dona-de-casa que sem ter com o que se preocupar ocupa seu tempo pentelhando suas filhas das quais se orgulha de ter criado sem precisar de um homem ao lado. As mais velhas, Maggie (Lauren Graham) e Mae (Piper Perabo), parecem conformadas e lidam bem com os incisivos palpites da mãe, porém, a mais nova esconde um estilo um pouco rebelde por trás da faceta de boa moça. Independente financeiramente e já morando sozinha, a doceira Milly não tem sorte na vida amorosa, embora aparentemente goste de provar de um cardápio variado de homens, mas isso preocupa Daphne que na tentativa de tentar desencalhar a jovem resolve colocar em segredo um anúncio em um site de encontros. Muitos candidatos surgem, um mais estranho que o outro, porém, nada mais anormal que o fato de ser a futura sogra de um deles quem se apresenta para realizar a seleção. Munida de um roteiro de perguntas, parece que ela no fundo tenta encontrar o parceiro ideal que nunca teve, assim fica encantada pelo arquiteto Jason (Tom Everett Scott), um rapaz bonitão, bem-sucedido, de família tradicional e que cultiva um padrão de vida elitizado. Após um encontro armado pela alcoviteira, Milly realmente demonstra interesse por seu pretendente, mas o destino também colocou em seu caminho Johnny (Gabriel Macht), um pai solteiro que ganha a vida dando aulas de música e tocando em restaurantes. O que lhe falta de dinheiro e ambição sobram em alegria, atenção e carinho, ao contrário do arquiteto que aos poucos começa a demonstrar impaciência, sisudez e dominação, ainda que de leve.

Outrora uma atriz de peso equivalente a uma Meryl Streep, é triste ver que Keaton vem desprestigiando a si mesma contentando-se com a mesmice, reciclando minimamente um único tipo de personagem estereotipado e se envolvendo em produções que em nada agregam em seu currículo, pelo contrário, até podem manchá-lo. Abusando de caras e bocas e trejeitos exagerados, a veterana até consegue tirar do espectador alguns sorrisos instantâneos, mas ao final, analisando o conjunto, fica a sensação que a diversão é constatar o declínio de sua carreira. Já faz alguns anos que ela deveria pedir uma ajuda para o cineasta Woody Allen, seu ex-marido e que lhe deu a oportunidade de ganhar o Oscar por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, a recuperar seu status de estrela e resgatar os valores de sua profissão, visto que parece que ela se acostumou a representar a si mesma. Ela não vive mais o desafio de se transformar em personagens, transparecendo que os perfis que lhe são oferecidos é que devem ser adequados à sua personalidade. Até seu estranhíssimo jeito de se vestir parece emprestar às mulheres que interpreta. Daphne se resume a uma criatura ensandecida porque não há o que sustente seu perfil. Viúva? Separada? Namoradeira? Por que tanta superproteção com as filhas? Elas têm um mesmo pai ou são frutos de relacionamentos diferentes? Nada sabemos, a não ser o fato de que sua vida sexual é frustrada a julgar pelo seu fascínio quando descobre um site de encontros eróticos. Suas filhas mais velhas também não têm função na trama, mesmo Maggie que é psicóloga e teoricamente a mais inteligente e equilibrada do clã é pouco acionada, participando digamos de um esquete de humor paralelo à trama principal com um de seus pacientes, este que como único elemento realmente com um pouco de graça ganha a honra (ou seria a obrigação?) de encerrar o filme. De qualquer forma, tanta mulher junto não podia dar em outra coisa senão muito histerismo e fofoca, tanto que o roteiro até brinca com isso fazendo um telefone sem fio entre mãe e filhas a respeito da vida amorosa da caçula do clã. Todavia, para cada cena mais bem elaborada parece que temos que aguentar o quarteto em cor-de-rosa soltar a voz em vexatórios números de canto à capela. Johnny? Jason? Alguém ainda quer entrar para a família?

A carismática Moore, relativamente conhecida entre o público adolescente pelo clássico romântico moderno Um Amor Para Recordar, amargou anos como coadjuvante em produções apagadas e quando que teve a chance de ser protagonista parecia não saber o que fazer, tanto que na reta final Keaton volta a chamar os holofotes para sua personagem ao engatar um romance com Joe (Stephen Collins), ninguém mais ninguém menos que o pai de Johnny, o pretendente que a própria passou o filme todo tentando afastar de sua pimpolha. Engraçado que a tagarelice de Daphne nesse ponto é substituída por mímicas e um caderninho de anotações devido a uma laringite. Será que ela conquistaria um amor a essa altura da vida com sua língua afiada e ativa? A roteirista Karen Leigh Hopkins teve a fabulosa ideia para esta trama a partir de uma conversa que ouviu na sala de espera de um consultório médico na qual uma mulher gabava-se por ter arranjado encontros amorosos adequados para a filha. Em colaboração com Jessie Nelson, que já esteve mais inspirado como quando escreveu A História de Nós Dois ou Uma Lição de Amor, o resultado é uma narrativa que se limita a repetir clichês sem nem ao menos tentar recicla-los para disfarçar, não dispensando nem mesmo uma cena de torta na cara sem função alguma. Falando nisso, qual a finalidade em colocar Keaton em trajes razoavelmente sumários em meio aos corpos bem talhados de suas filhas trajando lingeries logo em umas das primeiras cenas? É para desanimar qualquer um e a japa que aplica uma violenta massagem em Daphne logo em seguida serve para vingar o espectador pela visão do inferno a qual foi obrigado a assistir. O diretor Michael Lehmann, da comédia adolescente 40 Dias e 40 Noites, tenta agradar jovens e o público mais velhinho, mas fica em cima do muro. Não adiciona a pimenta necessária e exagera no açúcar da receita, abusando principalmente do humor visual cercando-se de tudo que já foi testado e aprovando em produções do gênero em cenas que nem sempre são bem adaptadas à trama. Por fim, Minha Mãe Quer Que Eu Case deixa a embaraçosa e decaída mensagem de que cedo ou tarde uma mulher precisa de um homem ao lado para ser feliz, o que deve deixar as feministas de cabelo em pé. E é essa retórica que parece guiar nos últimos tempos a carreira de Keaton, mesmo no elogiado Alguém Tem Que Ceder. Como não ser seduzida pela lábia de um Jack Nicholson, não é?

Comédia Romântica - 102 min - 2007

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