sexta-feira, 6 de novembro de 2015

ALMA PERDIDA

NOTA 1,0

Repleto de clichês, sustos
previsíveis e protagonista que
não cativa, longa ainda peca ao
buscar estopo em ferida histórica
Se pararmos para analisar as décadas de 1960 a 1980 chegaremos ao bom censo de que foram épocas de ótimas e marcantes produções de horror e suspense, mas se forçarmos a memória para lembrar filmes-ícones dos gêneros nos anos seguintes talvez dê para contar nos dedos o que se salva. O Sexto Sentido e Os Outros são verdadeiras aulas de como meter medo sem precisar fazer uso da violência gráfica ao mesmo tempo que se conta uma envolvente história, porém, é preciso traquejo e criatividade para feitos do tipo. Em tempos em que tudo é descartável, por que queimar os neurônios com algo que já nasce com prazo de validade determinado? Talvez assim pensava o diretor e roteirista David S. Goyer quando fez Alma Perdida, uma colcha de retalhos de referências a outros filmes que vão desde o clássico O Exorcista, chupando os últimos resquícios de criatividade de A Hora do Pesadelo até copiar escancaradamente ideias de refilmagens de fitas de horror orientais como O Chamado e O Grito, vertente já em decadência na época. A história começa com Casey Beldon (Odette Yustman) fazendo uma corrida em um parque quando leva um susto envolvendo a visão de um estranho garoto, figura que passa a atormentá-la seguidamente tanto acordada quanto dormindo. Fatos bizarros como cães que entortam a cabeça, agressões e ameaças do menino que toma conta e insetos que saem de dentro de ovos de galinha, diga-se de passagem, todos clichês de fitas do tipo aqui mal inseridos, também a deixam ressabiada. Paralelo a isso, volta à tona as lembranças de sua mãe Janet (Carla Gugino) que se suicidou quando ela era criança e lhe deixou mágoas e ainda certa dúvida quanto a diferença de pigmentação em um de seus olhos, algo que mais tarde vem a saber que seria um indício de que poderia ser gêmea. De fato, ela descobre que não seria filha única, mas quase teria tido um irmão que acabou falecendo ainda na barriga da mãe estrangulado pelo cordão umbilical. Seria ele o garoto que a está assombrando? Que mistério! Porém, Goyer tenta não entregar tudo de bandeja e cria uma mirabolante subtrama para explicar o drama de Casey que como a maioria das mocinhas de histórias do tipo parece abdicar de sua rotina para se dedicar exclusivamente a bancar a detetive.

Embora uma produção curta que não chega a uma hora e meia de arte, o roteiro não abre mão dos coadjuvantes-enfeites. Temos o pai ausente da protagonista Gordon (James Remar) que surge apenas para revelar de supetão parte do sombrio passado da família Beldon e depois desaparece, a amiga conselheira Romy (Meagan Good) que inerentemente será um alvo fácil da assombração e ainda o namorado Mark (Cam Gigandet) que sem propósito algum só entra em cena para uma desnecessária cena de sexo e ficar sem camisa. Quem não ficou de imagem arranhada, ou pelo menos não muito, foi a veterana Jane Alexander que ganhou um papel que guarda a chave do mistério, mas é seu talento que a salva não a personagem. Ela vive Sofi Kozma, a moradora de um asilo que Casey procura ao encontrar seu nome em meio aos pertences de sua mãe. Revelando ser sua verdadeira avó, a senhora desenterra uma estranha história dos tempos do Holocausto e afirma que a neta está sendo perseguida por um dybbuk, como são conhecidos os espíritos vagantes e vingativos no folclore judaico, aqueles que não conseguiram ir para o céu. Um espectro do tipo havia se apossado do corpo do irmão gêmeo de Sofi ainda criança quando ele veio a ficar numa espécie de coma traumático após sofrer com experiências autorizadas por um médico nazista em um campo de concentração. Ele acreditava que os gêmeos podiam desvendar os mistérios da genética e deliberadamente promovia estudos que por tentativas e erros buscava a fórmula da raça ariana sem se importar com os males ou até mesmo óbitos dos menores usados como cobaias. Quando o garoto voltou a vida após dois dias de sofrer o experimento, Sofi sabia que aquele não era seu irmão de verdade, apenas seu corpo, assim deu um jeito de se livrar da alma penada, mas acabou gerando um carma que persegue sua família de geração após geração e Casey é a escolhida da vez para ter seu lugar no mundo tomado, antes seria seu irmão. De um bebê para uma mulher feita, quanto tempo o tal dybbuk refletiu sobre sua reencarnação, não é? Aconselhada pela avó que acabara de conhecer em um encontro sem um mínimo de sentimentalismo, Casey vai atrás de um ritual de exorcismo à moda judaica com o rabino Joseph Sendak (Gary Oldman) que, apesar de especializado em casos espirituais, em um primeiro momento se recusa a ajuda-la até que ele próprio passa a ter estranhas visões. O nome do conceituado ator como chamariz não agrega nada à produção, entregando uma interpretação comum e que culmina em um broxante ritual de exorcismo em grupo.

O grande desafio dos filmes de terror e suspense é escapar da previsibilidade o que convenhamos não é nada fácil. Goyer, roteirista dos elogiados Batman Begins e Batman – O Cavaleiro das Trevas que reinventaram a imagem do herói-morcego, desta vez não foi nada inteligente e procurou se cercar do máximo possível de artifícios do gênero. Temos uma maldição em pauta, o religioso reticente, as luzes que falham em momentos inoportunos, fantasmas refletidos em espelhos e não esqueceu nem mesmo do livro escrito em dialeto antigo que possivelmente livraria a protagonista de seu carma, além é claro da trilha sonora elevada anunciando quando o espectador deveria se assustar. Surpreendê-lo não seria melhor? Previsível e por vezes involuntariamente engraçado em cenas-chave, Alma Perdida desperdiça o gancho dos traumas da Segunda Guerra. Não que o enredo se propusesse a dar uma aula de História, longe disso, mas com tal gancho a trama poderia ter ganho mais estopo. Um prato cheio para dramas, o sofrimento dos judeus e demais atrocidades daqueles tempos difíceis, incertos e de loucuras poderia engrandecer a fita, mas Goyer teve dificuldades em alinhavar uma trama de terror a uma realidade já bastante amedrontadora, assim nem mesmo os flashbacks narrados por Sofi chegam a impactar. Sem muito a dizer, a filme se desenvolve aos trancos e cada vez mais distanciando o espectador que pouco se importa com o tormento vivido pela protagonista que não cativa de jeito nenhum. Além de um conflito que não causa identificação, Odette Yustman parece não atuar e sim desfilar pela tela exibindo seu corpo em forma que é quase tão explorado pela câmera quanto seu rosto também bastante requisitado em close. Os papos absurdos sobre religião e existencialismo com seu namorado são um caso à parte e só contribuem para ridicularizar a produção que já sofre com um vilão cujas aparições repentinas causam risos com suas bizarras feições. A maquiagem do tal dybbuk parece datada, lembrando até o garoto da lendária série TV “Os Monstros”. Sentiu a pegada, não é? Justificar a aparição desta alma penada via Holocausto também é pretensão demais para um projeto tão pequeno e pobre, soando até mesmo desrespeitosa a inserção deste triste fato na trama que no fundo é praticamente uma refilmagem oriental não assumida. Não temos um filme em específico como referência, mas de cabo a rabo muitos elementos denunciam a inspiração. Ou seria a falta dela?

Terror - 87 min - 2009

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