quinta-feira, 7 de julho de 2016

OS ESQUECIDOS (2004)

NOTA 3,0

Apesar da atmosfera adequada
e da intrigante introdução, nem a
talentosa Julianne Moore consegue
manter o interesse em tola produção
Julianne Moore tem uma carreira que é o sonho de qualquer intérprete. Premiada, de bem com a crítica e com vários filmes alternativos e cults em seu currículo, a atriz também tem espaço garantido no cinema comercial. Qualquer diretor de blockbuster adoraria ter seu nome encabeçando os créditos, tanto que ela viveu um dos personagens principais de O Mundo Perdido – Jurassic Park. As vezes ela entra em furadas como a estranha comédia de ficção Evolução e o chatinho água-com-açucar Totalmente Apaixonados, mas parece que para cada meia dúzia de bons projetos que caem em suas mãos ela precisa agarrar ao menos um filme-pipoca para pagar suas contas. Seu papel no suspense Os Esquecidos poderia ter sido entregue a qualquer outra, mas com seu talento ela não só constrói uma personagem razoavelmente interessante, ainda que fraquinha se comparado a outras de suas criações, como também salva o longa. Bem, ao menos uma parte dele, mais especificamente os primeiros minutos dedicados a apresentação de Kelly Paretta, uma mulher que há cerca de um ano vive atormentada pela morte de seu filho Sam (Christopher Kovaleski) em um acidente aéreo e seu estado de nervos a afastou do trabalho e também está prejudicando seu relacionamento com o marido Jim (Anthony Edwards). Sua vida perdeu totalmente o sentido e a perturbação aumenta quando procura a ajuda do Dr. Munce (Gary Sinise), psiquiatra que avalia suas queixas e chega a conclusão de que o garoto nunca existiu e todas as lembranças que ela tem são invenções que sua mente criou para apaziguar a dor de uma gestação que não vingou. Outras pessoas também afirmam que Sam é apenas uma ilusão, todavia, Kelly quer provar a todo custo a existência do garoto, diga-se de passagem, algo que até mesmo seu companheiro nega. Fotos e vídeos que acreditava guardar como lembrança de uma hora para a outra desaparecem e até esse ponto o filme caminha bem, de maneira intrigante e apoiado no talento da protagonista que nos deixa em dúvida se a personagem está falando a verdade ou perdeu a sanidade.

O caldo entorna quando surge alguém que pode provar a teoria de que Sam realmente existiu e que ela estaria sendo alvo de uma conspiração, inclusive do próprio marido. Entregue ao vício do álcool, Ash Correll (Dominic West) também perdeu a filha no mesmo acidente e inicialmente tenta negar o fato, já que sua mente aparentemente bloqueou suas memórias relativas à menina, mas em velocidade recorde ele as recupera e ao ver a dor de uma mãe desesperada acaba se aliando para descobrir a verdade. O suspense inicial e bem trabalhado então é trocado por uma confusa perseguição na qual as supostas vítimas se tornam o alvo de caça, tanto de agentes federais quanto de um estranho grupo que com suas ações descontroladas e exibicionistas acaba revelando precocemente a verdade, não restando muita expectativa para o final. Sabemos que um imbróglio está por vir, mas mesmo assim a fita fez certo sucesso entre os ianques e garantiu uma polpuda bilheteria instantânea muito por conta de uma crítica que bombou ao coloca-la no mesmo patamar de O Sexto Sentido. Quem comprou o elogio certamente se decepcionou com o que viu, tanto que o longa não criou raízes no imaginário popular. Não há semelhanças entre as produções quanto a qualidade ou quantidade de suspense oferecido. E nem teria como. O roteiro de Gerald Di Pego não traz nenhum momento arrebatador, até o clímax deixa a desejar. Faltaram situações que assustam ou ao menos intrigantes e, como já dito, a revelação do grande mistério em momento inoportuno esfriam as coisas. Tendo em seu currículo os açucarados Mensagem Para Você e Olhar de Anjo, o roteirista deixa claro que o suspense não é sua praia e o diretor Joseph Ruben, aquele que transformou o inocente Macaulay Culkin em O Anjo Malvado, só escapa de ser avacalhado totalmente por conta da atmosfera que consegue criar usando de forma eficiente a fotografia que explora a pouca iluminação. O tom ora azulado e ora acinzentado de boa parte das cenas ajudam a compor um clima de melancolia, reflexos da solidão e do mundo inerte em que vivem Kelly e Correll. Os tons sóbrios e escuros também tomam conta do figurino. A projeção só ganha certo colorido nas lembranças da protagonista, um contraponto visual manjado, porém, eficiente neste caso em que o clima gélido é predominante e quase sufocante.

A angustiante situação da protagonista certamente é o que chamou a atenção de Moore para entrar no projeto. Acostumada com personagens perturbados por conflitos existencialistas, é visível que a atriz parece mais confiante nos primeiros minutos. Logo no início ela aparece sentada em um balanço no meio de uma praça vazia adornada pelo clima outonal e sem dizer uma única palavra, apenas por seu gestual e expressões faciais, é possível absorver o triste estado de espírito da Sra. Paretta. No entanto, quando entra em cena West a trama adquire caminhos desinteressantes beirando o absurdo, algo que nos remete ao seriado de TV “Arquivo X”... Opa! Olha o spolier! Dada essa dica é fácil descobrir qual o grande mistério deste suspense e também o porquê de a trama não funcionar. Do suspense psicológico o enredo dá uma guinada forçada para adquirir rumos sobrenaturais, embora desde os créditos iniciais Ruben já dava dicas desta vertente explorando com sua câmera voos panorâmicos como se fosse o olhar de alguém acima das nuvens caçando algo em terra firme. O mesmo tipo de tomada é repetido várias vezes ao longo do filme, mas nada que tire o trabalho do diretor do lugar comum. Apesar de um argumento suscetível a dúvidas e discussões, com um roteiro mal estruturado em mãos e um planejamento calcado em clichês, ele não consegue criar uma sequência sequer de tensão, algumas em que tenta surpreender causam risos involuntários, assim resta ao espectador acompanhar uma trama tediosa e com um final insosso. Suspenses não deveriam impactar com reviravoltas inesperadas? Neste caso não sobra nada de novidade para a conclusão, diga-se de passagem, com direito a uma última cena muito harmônica e que destoa do conjunto que o enganoso trailer vende. Gato por lebre total! Ao menos é evitado o clichê máximo do romance proporcionado pela identificação de dilemas. Kelly e Correll apenas se unem para decifrar o que houve com seus filhos, em nenhum momento percebemos algum interesse além deste, mas mesmo focados nesta missão os personagens parecem desorientados muitas vezes. Com tantos problemas estruturais e narrativos, desculpe o trocadilho, mas Os Esquecidos é completamente esquecível e o passar do tempo comprova isso. Aqui nem os esforços de Moore salvam a produção cujo destino é tapar buraco na TV de madrugada. Aos insones pode ser um santo remédio.

Suspense - 91 min - 2004 

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