quarta-feira, 17 de agosto de 2016

AS AVENTURAS DE PADDINGTON

NOTA 7,0

Popular personagem inglês ganha
seu próprio filme e embora divertido,
bem realizado e ideal para toda família,
 não teve reconhecimento merecido
Os EUA é uma verdadeira fábrica de personagens populares e icônicos criados para livros, televisão, quadrinhos e cinema, porém, suas famas atravessam fronteiras com enorme facilidade. Provavelmente todos os países tem o mesmo potencial para lançar tipos interessantes, mas talvez não o mesmo traquejo para torna-los universais. Alguém já imaginou nossos folclóricos Saci Pererê ou Currupira ou até mesmo os personagens do “Sítio do Pica-Pau Amarelo” formando fila nos cinemas ou nas livrarias americanas por exemplo? Já Maurício de Souza encontrou no marketing social as vias para levar Mônica e sua turma para centenas de países, conseguindo projeção atingindo certos nichos de público, mas nunca houve notícias de que os filmes da trupe tenham bombado fora do Brasil. E o que dizer do ursinho inglês Paddington?... Quem? Certamente é este desconhecimento que fez o filme-família As Aventuras de Paddington passar em brancas nuvens e até mesmo os canais de TV fechados o esnobarem, uma grande injustiça com uma produção caprichada e divertida, embora previsível e bastante infantil, porém, de fácil identificação com os adultos de coração e mente abertos. O pequeno e educado urso do título foi criado em 1958 pelo escritor Michael Bond e desde então protagonizou diversas aventuras literárias e até estrelou uma série de animação para a televisão na década de 1970, mas fora do território britânico ele é um desconhecido, mesmo após o lançamento do filme cuja intenção era popularizar sua imagem e certamente abrir caminho para uma franquia cinematográfica acompanhada de licenciamento de produtos. A narrativa tem um prólogo em preto-e-branco apresentando um pequeno e antigo filme gravado pelo explorador Montgomery Clide (Tim Downie) em busca de uma rara espécie de ursos nas florestas do Peru (forçando a globalização da trama?), animais com quem acaba fazendo amizade e prometendo hospedagem caso algum dia resolvessem passear pela longínqua Londres. Durante o tempo que conviveu especificamente com uma família deles, o estudioso lhes ensinou um pouco de sua língua e passou o hábito de comer marmelada, segundo os próprios ursos o alimento perfeito para suprir as necessidades diárias de um membro da espécie. Décadas mais tarde, esse clã vive uma tragédia sobrando apenas o caçula e sua tia que acha melhor mandá-lo em busca do tal explorador levando junto o chapéu vermelho que o britânico havia deixado de lembrança.

Após enfrentar uma longa viagem de navio, obviamente bem escondido e sobrevivendo à base de potes e mais potes de marmelada que basicamente eram sua bagagem, o ursinho vai parar na estação de trem de Paddington, na Inglaterra, onde é encontrado pela família Brown que resolve batizá-lo com o mesmo nome do local. Bem, nem tudo são flores. Quem se comove mais com a situação é a Sra. Brown (Sally Hawkins), mais inclinada a caridades e que lhe promete abrigo até encontrar o explorador, mas a ideia não agrada nada ao Sr. Brown (Hugh Bonneville) que vê o urso como uma possível ameaça e quer se livrar o mais rápido possível dele. Os filhos do casal também reagem de maneiras opostas. Enquanto o caçula Jonathan (Samuel Joslin) se anima com a possibilidade de ter uma espécie de irmão com idade compatível, a adolescente Judy (Madeleine Harris) repudia a ideia e teme que seja apontada como uma esquisitona. Em sua nova casa, Paddington aprende os costumes locais, lida com um monte de objetos que desconhecia e percebe que a adaptação não será tão fácil, assim como para a família que o acolheu que terá que aprender a lidar com as diferenças e deixar aflorar o espírito de solidariedade. E tudo que vivencia e descobre o bichano relata em cartas que pretende enviar à sua tia (diga-se de passagem, esquecida pela trama). Paralelo a isso, o bichano ainda terá que escapar da maquiavélica Millicent (Nicole Kidman), uma taxidermista que trabalha no Museu de História Natural e que tem verdadeira obsessão em empalhar um exemplar desta espécie rara para ter seu nome reverenciado entre os cientistas e zoologistas, além de ter um outro motivo pessoal para incentivá-la nesta missão. Escrito e dirigido por Paul King, o filme se resume a fazer graça com as dificuldades do protagonista em conviver com o mundo civilizado e a sociedade humana e as peripécias da vilã para capturá-lo. Aliás, carregando propositalmente na caricatura, Kidman deixa aflorar seu lado cômico que é tão pouco requisitado. Sua atuação descomprometida, no bom sentido, transparece na tela e curiosamente quase que o papel lhe escapou, já que sua agente achava que o projeto não lhe interessaria. No entanto, a premiada atriz nem quis ler a sinopse e aceitou de imediato o trabalho. A popularidade do ursinho na Inglaterra pesou na escolha.

Fora Kidman, que embora australiana tem sua imagem irremediavelmente ligada à cultura norte-americana, o elenco é predominantemente britânico, mas com rostos bastante conhecidos pelo mundo. Vale um destaque para a divertida participação da veterana Julie Walters como a Sra. Bird, uma tia dos Brown que acaba fazendo as vezes de governanta da residência, responsável pelos momentos de humor mais genuínos (entenda-se não apoiados nas confusões do urso). Falando nisso, algumas alterações dos diálogos para a versão dublada em português tiram um pouco do charme da produção, mas para não perder a piada foi a solução encontrada, ainda que não a melhor. Substituindo inserções que certamente só fazem sentido aos britânicos, não deixa de soarem estranhas, por exemplo, citações aos times de futebol Corinthians e Flamengo e ver o ursinho exaltando a saudação “fala mano”. Podem funcionar com as crianças, mas para os adultos coisas do tipo quebram um pouco o encantamento da trama que envolve pela ingenuidade e beleza visual, a começar pela criação do protagonista. Utilizando a mesma técnica que consegue mesclar criações digitais com atores reais, algo já visto em filmes como Scooby-Doo e Os Smurfs, Paddington não é apenas super fofo, mas apresenta um avanço deste tipo de trabalho visto que há um cuidado até mesmo quanto ao movimento dos pelos do bichano, algo bem nítido na cena em que ele toma um banho e usa o secador de cabelos. Além do visual, apresentando um bairro inglês que parece pinçado do passado e cenários coloridos e detalhistas que lembram a casas de bonecas, a dinâmica do ursinho com o clã dos Brown lembra bastante ao longa O Pequeno Stuart Little cujo tema principal também é a adoção de um animal por uma família humana e os personagens são igualmente cativantes. Por trás das piadas e lições de amizade e tolerância, o longa ainda aborda sem muito alarde a preservação da natureza e das espécies, uma indireta com a elegância típica britânica para eles próprios, já que na Inglaterra a caça ainda é um hobbie em alta, mas King não força a mensagem. Com humor, delicadeza e um quê de sofisticação, As Aventuras de Paddington é uma deliciosa opção para reunir a família como há muito tempo não se via. É uma pena que sua passagem pelos cinemas e repercussão em outras mídias não tenha demonstrado a força dos personagens e tampouco do universo lúdico-realista criado por Bond. Potencial a clássico da “Sessão da Tarde” a ser descoberto.

Comédia - 95 min - 2014

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